[…]
No Inverno passado li um livro sobre os Tong chineses (Primitive Revolutionaries of China: A Study of Secret Societies in the Late 19th Century, de Fei-Ling Davis) – talvez o primeiro escrito por alguém que não foi agente dos serviços secretos britânicos! (na verdade, trata-se de uma socialista chinesa que morreu jovem – foi este o seu único livro) – e percebi pela primeira vez por que sempre me senti atraído pelos Tong: não apenas pelo romantismo, ou pelo elegante cenário da decadência chinesa, que lá estão – mas também pela forma, a estrutura, a própria essência da coisa.
Algum tempo depois, numa excelente entrevista de William Burroughs à revista Homocore, descobri que também ele se fascinara com os Tong e sugeria a sua forma como modo perfeito de organização para as bichas, sobretudo no actual período de histeria e moralismo medrosos. Acho que concordo, e estendo a recomendação a todos os grupos marginais, especialmente aqueles cuja fruição envolva qualquer ilegalidade (fumadores de erva, heréticos do sexo, insurreccionistas) ou alguma excentricidade extrema (nudistas, pagãos, artistas pós-vanguardistas, etc., etc.).
Os Tong podem talvez ser definidos como uma sociedade de benefício mútuo para pessoas com um interesse comum, que seja ilegal ou perigosamente marginal – daí o segredo necessário. Muitos dos Tong chineses tinham a ver com o contrabando e a evasão fiscal, ou com o domínio pessoal clandestino de certos comércios (em oposição ao controlo estatal), ou com objectivos de insurreição política ou religiosa (derrubar os Manchus, por exemplo – diversos Tong colaboraram com os anarquistas na Revolução de 1911). O propósito comum dos Tong era o de recolher os direitos de filiação e as jóias de inscrição e investi-los em fundos de apoio para os indigentes, desempregados, viúvas e órfãos dos membros falecidos, despesas de funeral, etc. Numa era como a nossa, quando os pobres ficam entre a espada cancerosa da indústria dos seguros e a parede do serviço público de saúde e assistência, que rapidamente se evapora, este propósito da sociedade secreta bem poderia recuperar todo o seu atractivo. (As lojas maçónicas foram organizadas nesta base, bem como os primeiros sindicatos ilegais e as "corporações de artífices" para trabalhadores e artesãos.) Um outro propósito universal de tais sociedades era evidentemente a convivialidade, e em especial os banquetes – mas mesmo este passatempo aparentemente inócuo pode revestir implicações insurreccionais. Nas várias revoluções francesas, por exemplo, as confrarias gastronómicas desempenhavam frequentemente o papel das organizações radicais quando todas as restantes formas de encontros públicos haviam sido banidas.
[…]
A estrita regra tradicional do segredo também precisa de ser modificada. Hoje em dia tudo o que escape ao olhar idiota da publicidade já é virtualmente um segredo. A maior parte das gentes modernas parece ser incapaz de crer na realidade de algo que nunca viu na televisão – por conseguinte, escapar ao televisionamento é já ser quase invisível. Além disso, aquilo que é visto através da mediação dos media torna-se de certa forma irreal e perde o seu poder. […] Em contraste, talvez aquilo que não é visto retenha a sua realidade, a sua raiz na vida quotidiana e, portanto, na possibilidade de maravilhamento.
[…] Muitas organizações não-autoritárias foram fundadas sobre o dúbio princípio da filiação aberta, que frequentemente conduz a uma preponderância de asnos, idiotas, salteadores, neurótticos e agentes policiais. Se os Tong se organizarem em torno de um interesse especial (nomeadamente um interesse ilegal, ou arriscado, ou marginal) terão certamente o direito de se acomodarem segundo esse princípio de "grupo de afinidade". Se o segredo significar a) evitar a publicidade, e b) vetar possíveis membros, a "sociedade secreta" dificilmente poderá ser acusada de violar os princípios anarquistas. Efectivamente, tais sociedades possuem uma longa e honrosa história no movimento anti-autoritário, desde o sonho de Proudhon, reanimar os tribunais nocturnos irregulares como forma de "justiça popular", até aos vários esquemas de Bakunine e à coluna de Durrutti. Não deveríamos permitir que os historiadores marxistas nos convençam de que tais expedientes são "primitivos" e foram, portanto, ultrapassados pela "História". O carácter absoluto da "História" é, quando muito, uma proposição dúbia. Não estamos interessados num retorno ao primitivo, mas num retorno do primitivo, atendendo a que o primitivo é o reprimido.
Nos velhos tempos as sociedades secretas surgiam em espaços e tempos proibidos pelo Estado, i. e., onde e quando as pessoas haviam sido afastadas pela lei. No nosso tempo, as pessoas não são habitualmente afastadas pela lei, mas pela mediação e a alienação. O segredo torna-se assim uma fuga à mediação, ao passo que a convivialidade passa de propósito secundário a primário na "sociedade secreta". Um simples encontro face a face é já uma acção contra as forças que nos oprimem por meio do isolamento, da solidão, pelo transe dos media.
Numa sociedade que obriga a uma ruptura esquizóide entre o Trabalho e o Lazer, todos nós experimentámos a trivialização do nosso "tempo livre", tempo que não está organizado como trabalho nem como lazer. ("Férias" significou outrora tempo vago – agora significa tempo organizado e preenchido pelo lazer industrial.) O propósito "secreto" da convivialidade na sociedade secreta transforma-se então na auto-estruturação e autovalorização do tempo livre. Boa parte das festas dedica-se apenas a música em alto volume e bebida em demasia, não porque o apreciemos mas porque o Império do Trabalho imbuiu em nós o sentimento de que tempo vago é tempo perdido. A ideia de convocar uma festa para, digamos, fazer uma colcha ou cantar madrigais em grupo parece irremediavelmente fora de moda. Mas os Tong modernos acharão simultaneamente necessário e agradável retirar o tempo livre ao domínio do mundo das mercadorias e devotá-lo à criação partilhada, à brincadeira.
Conheço já diversas sociedades organizadas nestes termos, mas não irei certamente quebrar o seu segredo ao discuti-las aqui. Existem algumas pessoas que não precisam de quinze segundos no Jornal da Noite para validarem a sua existência. Evidentemente, de qualquer forma a imprensa e a rádio marginais (os únicos media em que este pequeno sermão irá aparecer) são praticamente invisíveis – certamente ainda muito opacas ao olhar do Controlo. No entanto, há o princípio da coisa: os segredos devem ser respeitados. Nem todos precisam saber tudo! Aquilo que mais falta ao século XX – e aquilo de que ele mais precisa – é tacto. Queremos substituir a epistemologia democrática pela epistemologia dadá. Ou se está no mesmo barco ou não se está no barco.
[…] O imediatismo não se preocupa com as relações de poder; nem deseja ser governado, nem governar. Por conseguinte, o Tong contemporâneo não aprecia a degenerescência das instituições em conspirações. Pretende poder para os seus próprios propósitos de mutualidade. É uma livre-associação de indivíduos que se escolheram mutuamente para sujeitos da generosidade do grupo, para a sua "expansividade" (para usarmos um termo Sufi). Se isto resulta em algum tipo de "elitismo", pois que o seja.
Se o Imediatismo começa com grupos de amigos que tentam não apenas vencer o isolamento mas também melhorar a vida de cada um, em breve pretenderá assumir uma forma mais complexa – núcleos de aliados mutuamente escolhidos, trabalhando (brincando) para ocupar cada vez mais tempo e espaço fora de todos os controlos e estruturas mediadas. Depois quererá transformar-se numa rede horizontal de semelhantes grupos autónomos – depois, numa "tendência" – depois, num "movimento" – e depois numa rede cinética de zonas autónomas temporárias [T.A.Z.]. Esforçar-se-á finalmente por se tornar no cerne de uma nova sociedade, fazendo-se nascer a si mesma dentro da casca corrupta da velha. Para todos estes propósitos, a sociedade secreta promete fornecer um enquadramento útil de clandestinidade protectora – um manto de invisibilidade que só terá de ser abandonado no caso de um confronto final com a Babilónia da Mediação…
Preparemo-nos para as Guerras Tong!»
[in Zona Autónoma Temporária: Lisboa, trad. Jorge P. Pires, frenesi, 2000]
Tuesday, October 21, 2008
Tuesday, August 26, 2008
Terra Oca
Regiões Subterrâneas do continente escavadas em cavernas ciclópicas, redes fractais espaços que parecem catedrais, túneis labirínticos em forma de gargantas, rios subterrâneos vagarosos e negros, lagos estígios imóveis puros e levemente luminescentes, estreitas cachoeiras sobre rochas alisadas pela água, cortando florestas petrificadas de estalactites e estalagmites na complexidade dos desconcertantes peixes cegos exploradores de caverna e na vastidão insondável... Quem escavou esta terra oca debaixo do gelo previsto por Poe, por certos ocultistas alemães paranóicos, e por ufólogos malucos? Teria a Terra sido colonizada na época de Gonduana ou da Lemúria por alguma raça antiga? Seus esqueletos de répteis ainda estariam se desfazendo nos labirintos mais secretos e distantes deste sistema de cavernas? Águas paradas e dormentes, canais sem saída, poços estagnados distantes dos centros da civilização como Little America, Transport City, ou Nan Chi Han, lá embaixo, nos recessos escuros e poças das cavernas da Antártida, fungos e samambaias albinas. Suspeitamos que sejam seres mutantes, com os dedos das mãos e dos pés entrelaçados como anfíbios, hábitos degenerados - kallikaks da Terra Oca, renegados lovecraftianos, eremitas, contrabandistas incestuosos e sorrateiros, criminosos fugitivos, anarquistas forçados a se esconder depois das guerras de entropia, fugitivos do puritanismo genérico, dissidentes das sociedades secretas chinesas e fanáticos do turbante amarelo, piratas das cavernas da costa da Índia, lixo brando pálido e sem vida dos proletários das majestosas indústrias de Tongue Thwait, da costa de Walgreen e da terra de Edsel-Ford - os trogloditas têm mantido viva por mais de duzentos anos a memória folclórica da Zona Autônoma, o mito de que algum dia ela aparecerá de novo... taoísmo, filosofia libertina, bruxaria da Indonésia, culto da Caverna Mãe (ou Mães), identificada por alguns estudiosos como a deusa javanesa do mar/lua Loro Kidul, por outros como um divindade menor da Seita da Estrela Polar do Sul, a ``deusa Jade''... manuscritos (escritos em Bahasa Ingliss, o dialeto pidgin das cavernas profundas) contêm citações mutiladas de Nietzsche e e Chuang-tsé... O comércio consiste em ocasionais pedras preciosas e no cultivo de papoulas brancas, fungos, cerca de uma dúzia de diferentes espécies de cogumelos ``mágicos''... O raso lago Érebo, com 5 milhas de diâmetro, polvilhado de ilhotas pinheiros negros, mantidos numa caverna tão vasta que às vezes cria seu próprio clima... A vila oficialmente pertence a Little America, mas, em sua maioria, os habitantes são troglos vivendo de seguro-desemprego - e a caverna profunda do país tribal estende-se no outro lado do lago. A ralé, artistas, viciados em drogas, feiticeiros, contrabandistas, vagabundos e pervertidos moram em hotéis de basalto e gesso caindo aos pedaços, incrustados até a metade por pálidas trepadeiras verdes; ao longo do lago, uma avenida de esquálidos cafés, empórios de pedras preciosas defendidos por ninjas armados, botecos chineses que oferecem sopa de macarrão com pequenos camarões, o hall enfeitado vistosamente de cristal para lentos dançarinos de folk ao som dos gamelões, rapazes praticando seus mudras em sonolentas tardes eletrônicas azul-escuras ao som de gongos sintéticos e metalofones... e sob o cais, talvez alguns poucos banhistas vacilantes ao largo da praia negra; perplexos, genuínos turistas de baixa renda no santuário atrás do bazar onde troglos pálidos e velhos entram em transe com fungos, babam e reviram os olhos, respiram os fumos do incenso pesado, tudo de repente parece ameaçadoramente brilhante, piscando com ênfase... uns poucos casos de dedos entrelaçados, mas os rumores de promiscuidade ritual são verdadeiros. Estava eu vivendo numa vila de pescadores troglos, do outro lado do lago de Érebo, num quarto alugado em cima da loja de iscas... preguiça rural e degenerados ritos supersticiosos de abandono sensual, o mistério larval e doentio dos troglos mutantes ctenóides e oprimidos, preguiçosos e sem viço...
Little America, tão cristã e livre de mutações, eugênica e ordeira, onde todos vivem conectados ao reino descartado de antigos softwares e holografias, tão euclidianos, newtonianos, limpos e patrióticos - Los Angeles nunca entenderá esta inocente feitiçaria suja, este ``espiritualismo material''. Esta escravidão aos desejos vulcânicos de gangues secretas de rapazes das cavernas como flores sorridentes jorrando em ereções-dínamo, pulsando pura vida, curvados e tesos como arcos, e o cheiro de água, musgo do lago, flores brancas que desabrocham durante a noite, jasmins e figueiras-do-inferno, urina, cabelo molhado de criança, esperma e lama... possuídos por espíritos das cavernas, talvez os fantasmas de alienígenas antigos agora vagando como demônios, procurando renovar prazeres da carne e de substâncias perdidos há muito. Ou talvez a Zona tenha já renascido, já um nexo de autonomia, um vírus do caos que se espalha em sua mais exuberante forma clandestina, cogumelos brancos venenosos brotando dos pontos onde garotos troglos se masturbaram sozinhos no escuro...
Little America, tão cristã e livre de mutações, eugênica e ordeira, onde todos vivem conectados ao reino descartado de antigos softwares e holografias, tão euclidianos, newtonianos, limpos e patrióticos - Los Angeles nunca entenderá esta inocente feitiçaria suja, este ``espiritualismo material''. Esta escravidão aos desejos vulcânicos de gangues secretas de rapazes das cavernas como flores sorridentes jorrando em ereções-dínamo, pulsando pura vida, curvados e tesos como arcos, e o cheiro de água, musgo do lago, flores brancas que desabrocham durante a noite, jasmins e figueiras-do-inferno, urina, cabelo molhado de criança, esperma e lama... possuídos por espíritos das cavernas, talvez os fantasmas de alienígenas antigos agora vagando como demônios, procurando renovar prazeres da carne e de substâncias perdidos há muito. Ou talvez a Zona tenha já renascido, já um nexo de autonomia, um vírus do caos que se espalha em sua mais exuberante forma clandestina, cogumelos brancos venenosos brotando dos pontos onde garotos troglos se masturbaram sozinhos no escuro...
Sonora Denúncia do Surrealismo
(Para Harry Smith)
Na Mostra de Cinema Surrealista, alguém perguntou a Stan Brakhage sobre o uso que a mídia faz do surrealismo (MTV etc.); ele respondeu que era uma ``vergonha danada''. Bem, talvez seja e talvez não seja (a kultura popular ipso fato carece de toda inspiração ?) - mas, partindo-se do princípio que, em algum nível, a apropriação que a mídia faz do surrealismo é de fato uma vergonha danada, vamos acreditar que não havia nada no surrealismo que permitisse que esse roubo acontecesse?
O retorno do reprimido significa o retorno do paleolítico - não um retorno à Idade da Pedra, mas um movimento espiral em torno de um novo nível da órbita. (Afinal, 99,9999% da experiência humana são de caça e coleta, sendo a agricultura e a indústria uma mera mancha de óleo no profundo poço da não-história.) O paleolítico equivale ao pré-Trabalho (``sociedade de lazer original''). O Pós-Trabalho (Trabalho-Zero) equivale a ``Paleolítico Psíquico''.
Todos os projetos para a ``libertação dos desejos'' (surrealismo), que permanecem emaranhados na matriz do Trabalho, podem levar apenas ao mercantilismo do desejo. O neolítico começa com o desejo por bens (excedente da agricultura), caminha para a produção do desejo (indústria) e termina com a implosão do desejo (propaganda). A libertação surrealista do desejo, apenas dos seus feitos estéticos, não vai além de ser um subconjunto da produção - daí a rendição em bloco do surrealismo ao partido comunista e sua ideologia pró-trabalho (para não mencionar sua misoginia e homofobia). O lazer moderno. Por sua vez, é simplesmente uma subdivisão do trabalho (daí seu mercantilismo) - então não é por acaso que, quando o surrealismo fechou sua fábrica, os executivos de publicidade foram os únicos clientes da liquidação.
A propaganda, usando a colonização do inconsciente feita pelo surrealismo para criar desejo, leva à implosão final do surrealismo. Não é simplesmente uma ``vergonha danada e uma desgraça'', não é uma simples apropriação. O surrealismo foi feito para a propaganda, para o mercantilismo. O surrealismo é, na verdade, uma traição ao desejo.
E, no entanto, dos abismos do significado, o desejo ainda se levanta, inocente como uma fênix recém-nascida. O dadaísmo inicial de Berlim (que rejeitou o retorno da arte-objeto), apesar se suas falhas, fornece um modelo melhor para se lidar com implosão do social do que o surrealismo jamais seria capaz de fornecer - um modelo anarquista, ou talvez (em jargão antropológico), um modelo não autoritário, uma destruição de toda ideologia, de todas as correntes da lei. Assim como a estrutura do Trabalho/Lazer sucumbe no vazio, como todas as formas de controle desaparecem na dissolução do sentido, o neolítico também parece estar destinado a desaparecer, com todos os seus templos e celeiros e polícias, para ser substituído por algum retorno à caça e coleta em termos psíquicos - uma re-nomadização. Tudo está implodindo e desaparecendo - a família edipiana, a educação, até mesmo o próprio inconsciente (como disse Andre Codrescu). Não vamos erroneamente tomar isso como o Armagedom (vamos resistir à sedução do apocalipse, à conclusão escatológica) - não é o mundo chegando ao fim - são apenas as palhas vazias do social pegando fogo e desaparecendo.
O surrealismo deve ser lançado ao lixo junto com todos os outros belos restos das primárias artimanhas clericais e os enfadonhos sistemas de controle. Ninguém sabe o que está por vir, que miséria, que espírito de selvageria, que alegria - mas a última coisa de que nós precisamos em nossa viagem é outro grupo de comissários - papas de nossos sonhos - pais. Abaixo o Surrealista...
-- Naropa, 9 de julho de 1988
Na Mostra de Cinema Surrealista, alguém perguntou a Stan Brakhage sobre o uso que a mídia faz do surrealismo (MTV etc.); ele respondeu que era uma ``vergonha danada''. Bem, talvez seja e talvez não seja (a kultura popular ipso fato carece de toda inspiração ?) - mas, partindo-se do princípio que, em algum nível, a apropriação que a mídia faz do surrealismo é de fato uma vergonha danada, vamos acreditar que não havia nada no surrealismo que permitisse que esse roubo acontecesse?
O retorno do reprimido significa o retorno do paleolítico - não um retorno à Idade da Pedra, mas um movimento espiral em torno de um novo nível da órbita. (Afinal, 99,9999% da experiência humana são de caça e coleta, sendo a agricultura e a indústria uma mera mancha de óleo no profundo poço da não-história.) O paleolítico equivale ao pré-Trabalho (``sociedade de lazer original''). O Pós-Trabalho (Trabalho-Zero) equivale a ``Paleolítico Psíquico''.
Todos os projetos para a ``libertação dos desejos'' (surrealismo), que permanecem emaranhados na matriz do Trabalho, podem levar apenas ao mercantilismo do desejo. O neolítico começa com o desejo por bens (excedente da agricultura), caminha para a produção do desejo (indústria) e termina com a implosão do desejo (propaganda). A libertação surrealista do desejo, apenas dos seus feitos estéticos, não vai além de ser um subconjunto da produção - daí a rendição em bloco do surrealismo ao partido comunista e sua ideologia pró-trabalho (para não mencionar sua misoginia e homofobia). O lazer moderno. Por sua vez, é simplesmente uma subdivisão do trabalho (daí seu mercantilismo) - então não é por acaso que, quando o surrealismo fechou sua fábrica, os executivos de publicidade foram os únicos clientes da liquidação.
A propaganda, usando a colonização do inconsciente feita pelo surrealismo para criar desejo, leva à implosão final do surrealismo. Não é simplesmente uma ``vergonha danada e uma desgraça'', não é uma simples apropriação. O surrealismo foi feito para a propaganda, para o mercantilismo. O surrealismo é, na verdade, uma traição ao desejo.
E, no entanto, dos abismos do significado, o desejo ainda se levanta, inocente como uma fênix recém-nascida. O dadaísmo inicial de Berlim (que rejeitou o retorno da arte-objeto), apesar se suas falhas, fornece um modelo melhor para se lidar com implosão do social do que o surrealismo jamais seria capaz de fornecer - um modelo anarquista, ou talvez (em jargão antropológico), um modelo não autoritário, uma destruição de toda ideologia, de todas as correntes da lei. Assim como a estrutura do Trabalho/Lazer sucumbe no vazio, como todas as formas de controle desaparecem na dissolução do sentido, o neolítico também parece estar destinado a desaparecer, com todos os seus templos e celeiros e polícias, para ser substituído por algum retorno à caça e coleta em termos psíquicos - uma re-nomadização. Tudo está implodindo e desaparecendo - a família edipiana, a educação, até mesmo o próprio inconsciente (como disse Andre Codrescu). Não vamos erroneamente tomar isso como o Armagedom (vamos resistir à sedução do apocalipse, à conclusão escatológica) - não é o mundo chegando ao fim - são apenas as palhas vazias do social pegando fogo e desaparecendo.
O surrealismo deve ser lançado ao lixo junto com todos os outros belos restos das primárias artimanhas clericais e os enfadonhos sistemas de controle. Ninguém sabe o que está por vir, que miséria, que espírito de selvageria, que alegria - mas a última coisa de que nós precisamos em nossa viagem é outro grupo de comissários - papas de nossos sonhos - pais. Abaixo o Surrealista...
-- Naropa, 9 de julho de 1988
Contra a Reprodução da Morte
Um Dos Sinais da Aproximação do Fim - que tantos parecem esperar - consiste em um fascínio por todos os detritos mais negativos e odiosos da época, um fascínio sentido pelos próprios pensadores que se consideravam os mais perspicazes sobre o assim chamado apocalipse sobre o qual nos alertam. Estou falando de pessoas que conheço muito bem - aquelas da ``direita espiritual'' (como os neoguenonianos, com sua obsessão por sinas de decadência) - e aquelas da esquerda pós-filosófica, os neutros ensaístas da morte, profundos conhecedores das artes da mutilação.
Para ambos esses grupos, toda ação possível no mundo é depreciada como mais uma manifestação da coisa de sempre - tudo se torna igualmente sem sentido. Para os tradicionalistas, nada importa a não ser preparar a alma para a morte (não apenas a sua própria, mas também a do mundo todo). Para o ``crítico cultural'', nada importa a não ser o jogo de encontrar uma razão a mais para o desespero, analisá-la, adicioná-la ao catálogo.
O Fim do Mundo é uma abstração porque nunca aconteceu. Ele não tem nenhuma existência no mundo real. Cessará de ser uma abstração apenas quando ocorrer - se ocorrer. (Não pretendo conhecer ``o pensamento de Deus'' sobre o assunto - nem possuo qualquer conhecimento científico sobre um futuro ainda não existente.) Vejo apenas uma imagem mental e suas ramificações emocionais; de tal forma que o identifico como um tipo de vírus fantasmagórico, uma estranha doença de mim mesmo, que deve ser eliminada em vez de ser hipocondriacamente cozida em banho-maria e tolerada. Desprezo o ``Fim do Mundo'' como um ícone ideológico apontado para minha cabeça pela religião, pelo Estado e pelo meio cultural, como uma razão para não se fazer nada.
Compreendo por que a religião e os ``poderes'' políticos querem manter-me tremendo de medo. Já que apenas eles oferecem a única chance de se evitar o ragnarok (através de prece, através da democracia, através do comunismo etc), devo seguir seus ditames como uma ovelha e não ousar nada por mim mesmo. No entanto, o caso dos intelectuais ``iluminados'' parece ser, à primeira vista, mais complexo. De que poder eles gozam neste rosário de medo e escuridão, sadismo e ódio?
Essencialmente, eles ganham inteligência. Qualquer ataque a eles parece estúpido, já que apenas eles têm os olhos abertos o suficiente para reconhecer a verdade, apenas eles ousam o suficiente para manifestá-la em desafio aos rudes censores jecas e liberais covardes. Se eu os condeno como parte do mesmo problema que eles clamam estar discutindo objetivamente, serei considerado um capiau, um puritano, um Pollyanna. Se admito meu ódio pelos artefatos de sua percepção (livros, obras de arte, performances), serei dispensado como um mero ser desagradável (e, é claro, psicologicamente reprimido) ou, na melhor das hipóteses, como alguém sem seriedade.
Muitas pessoas supõem que, por eu algumas vezes me expressar como um anarquista amante de rapazes, devo também ter ``interesse'' por outras idéias ultrapós-modernas, como assassinato de crianças em série, ideologia fascista, ou as fotografias de Joel P. Witkin. Pressupõem apenas dois lados para qualquer questão - o lado da moda e o lado que não está na moda. Uma marxista que fizesse objeções a todo este culto da morte como algo atiprogressista seria considerado tão tolo quanto um fundamentalista cristão que o considerasse imoral.
Sustento que (como de costume) muitos lados existem para essa questão, mais do que apenas dois. Questões bilaterais (criacionismo versus darwinismo, choice contra pro-life etc.) são todas, sem exceção, ilusões, mentiras espetaculares.
Minha posição é esta: tenho perfeita consciência das ``inteligência'' que direciona a ação. Eu mesmo a possuo em abundância. De vez em quando, no entanto, tenho conseguido me comportar como se fosse estúpido o suficiente para tentar mudar minha vida. Algumas vezes usei perigosos entorpecentes, como a religião, a maconha, o caos, o amor pelo rapazes. Em algumas poucas ocasiões alcancei algum grau de sucesso - e digo isso não para me gabar, mas para dar testemunho. Através da destruição dos ícones interiorizados do Fim do Mundo en da Futilidade de toda atividade mundana, tenho (raramente) atingido um estado que (em comparação com tudo que conheço) parece ser um estado de saúde. As imagens de morte e mutilação que fascinam nossos artistas e intelectuais me parecem - à luz da lembrança dessas experiências - tragicamente inapropriadas para o potencial real da existência e do discurso sobre a existência.
A própria existência pode ser considerada um abismo sem sentido algum. Eu não vejo isso como uma afirmação pessimista. Se for verdade, posso tomá-la somente como uma declaração de autonomia para minha imaginação e minha vontade - e para o mais belo ato que elas possam conceber, assim conferir significado para a existência.
Por que eu deveria emblemar esta liberdade com um ato como o assassinato (como fizeram os existencialistas) ou como algum dos gostos demoníacos dos anos 1980? A morte pode apenas me matar uma vez - até lá, estou livre para expressar e experimentar (ao máximo que puder) uma vida e uma arte de viver baseada em ``experiências de pico'' autovalorativas e no ``convívio'' (que também possui sua própria recompensa).
A replicação obsessiva do imaginário da morte (e sua reprodução ou mesmo mercantilismo) obstrui esse projeto tão veementemente quanto a censura ou a lavagem cerebral feita pela mídia. Ela estabelece circuitos negativos de feedback - é um tabu maligno. Não ajuda ninguém a vencer o medo da morte, e meramente inculca um medo mórbido no lugar do medo saudável que todas as criaturas sensíveis ao farejar sua própria mortalidade.
Não escrevo isso para absolver o mundo de sua fealdade, ou para negar que no mundo existam coisas verdadeiramente aterrorizantes. Mas algumas dessas coisas podem ser vencidas - desde que nós possamos construir uma estética de conquista, em vez de uma estética de medo.
Recentemente assisti a uma performance de poesia/dança gay de uma firme sofisticação: o único dançarino negro da trupe fingia foder uma ovelha morta.
Confesso que parte da minha estupidez auto-induzida é acreditar (e mesmo sentir) que a arte pode me transformar e transformar os outros. É por isso que escrevo pornografia e propaganda - para causar transformação. A arte nunca pode significar tanto quanto uma caso de amor, talvez, ou uma insurreição. Mas... até certo ponto... funciona.
Entretanto, mesmo se eu tivesse desistido de toda esperança na arte, de toda expectativa de exaltação, ainda me recusaria a tolerar uma arte que meramente exarceba minha miséria, ou se apraz no schadenfreude, ``prazer com a miséria alheia''. Eu volto as costas para certo tipo de arte como um cão ase distanciaria uivando do cadáver de seu companheiro. Gostaria de poder renunciar à sofisticação que me permite dar uma cheirada em tal cadáver - com indiferente curiosidade - como mais uma exemplo da decomposição pós-industrial.
Apenas os mortos são verdadeiramente inteligentes, verdadeiramente interessantes. Nada os toca. Enquanto eu viver, no entanto, ficarei do lado da vida sofredora, desonesta e cheia de si, com a raiva em vez do tédio, com a doce luxúria, a fome e o desleixo... contra a vanguarda gelada e suas chiques premonições do sepulcro.
Para ambos esses grupos, toda ação possível no mundo é depreciada como mais uma manifestação da coisa de sempre - tudo se torna igualmente sem sentido. Para os tradicionalistas, nada importa a não ser preparar a alma para a morte (não apenas a sua própria, mas também a do mundo todo). Para o ``crítico cultural'', nada importa a não ser o jogo de encontrar uma razão a mais para o desespero, analisá-la, adicioná-la ao catálogo.
O Fim do Mundo é uma abstração porque nunca aconteceu. Ele não tem nenhuma existência no mundo real. Cessará de ser uma abstração apenas quando ocorrer - se ocorrer. (Não pretendo conhecer ``o pensamento de Deus'' sobre o assunto - nem possuo qualquer conhecimento científico sobre um futuro ainda não existente.) Vejo apenas uma imagem mental e suas ramificações emocionais; de tal forma que o identifico como um tipo de vírus fantasmagórico, uma estranha doença de mim mesmo, que deve ser eliminada em vez de ser hipocondriacamente cozida em banho-maria e tolerada. Desprezo o ``Fim do Mundo'' como um ícone ideológico apontado para minha cabeça pela religião, pelo Estado e pelo meio cultural, como uma razão para não se fazer nada.
Compreendo por que a religião e os ``poderes'' políticos querem manter-me tremendo de medo. Já que apenas eles oferecem a única chance de se evitar o ragnarok (através de prece, através da democracia, através do comunismo etc), devo seguir seus ditames como uma ovelha e não ousar nada por mim mesmo. No entanto, o caso dos intelectuais ``iluminados'' parece ser, à primeira vista, mais complexo. De que poder eles gozam neste rosário de medo e escuridão, sadismo e ódio?
Essencialmente, eles ganham inteligência. Qualquer ataque a eles parece estúpido, já que apenas eles têm os olhos abertos o suficiente para reconhecer a verdade, apenas eles ousam o suficiente para manifestá-la em desafio aos rudes censores jecas e liberais covardes. Se eu os condeno como parte do mesmo problema que eles clamam estar discutindo objetivamente, serei considerado um capiau, um puritano, um Pollyanna. Se admito meu ódio pelos artefatos de sua percepção (livros, obras de arte, performances), serei dispensado como um mero ser desagradável (e, é claro, psicologicamente reprimido) ou, na melhor das hipóteses, como alguém sem seriedade.
Muitas pessoas supõem que, por eu algumas vezes me expressar como um anarquista amante de rapazes, devo também ter ``interesse'' por outras idéias ultrapós-modernas, como assassinato de crianças em série, ideologia fascista, ou as fotografias de Joel P. Witkin. Pressupõem apenas dois lados para qualquer questão - o lado da moda e o lado que não está na moda. Uma marxista que fizesse objeções a todo este culto da morte como algo atiprogressista seria considerado tão tolo quanto um fundamentalista cristão que o considerasse imoral.
Sustento que (como de costume) muitos lados existem para essa questão, mais do que apenas dois. Questões bilaterais (criacionismo versus darwinismo, choice contra pro-life etc.) são todas, sem exceção, ilusões, mentiras espetaculares.
Minha posição é esta: tenho perfeita consciência das ``inteligência'' que direciona a ação. Eu mesmo a possuo em abundância. De vez em quando, no entanto, tenho conseguido me comportar como se fosse estúpido o suficiente para tentar mudar minha vida. Algumas vezes usei perigosos entorpecentes, como a religião, a maconha, o caos, o amor pelo rapazes. Em algumas poucas ocasiões alcancei algum grau de sucesso - e digo isso não para me gabar, mas para dar testemunho. Através da destruição dos ícones interiorizados do Fim do Mundo en da Futilidade de toda atividade mundana, tenho (raramente) atingido um estado que (em comparação com tudo que conheço) parece ser um estado de saúde. As imagens de morte e mutilação que fascinam nossos artistas e intelectuais me parecem - à luz da lembrança dessas experiências - tragicamente inapropriadas para o potencial real da existência e do discurso sobre a existência.
A própria existência pode ser considerada um abismo sem sentido algum. Eu não vejo isso como uma afirmação pessimista. Se for verdade, posso tomá-la somente como uma declaração de autonomia para minha imaginação e minha vontade - e para o mais belo ato que elas possam conceber, assim conferir significado para a existência.
Por que eu deveria emblemar esta liberdade com um ato como o assassinato (como fizeram os existencialistas) ou como algum dos gostos demoníacos dos anos 1980? A morte pode apenas me matar uma vez - até lá, estou livre para expressar e experimentar (ao máximo que puder) uma vida e uma arte de viver baseada em ``experiências de pico'' autovalorativas e no ``convívio'' (que também possui sua própria recompensa).
A replicação obsessiva do imaginário da morte (e sua reprodução ou mesmo mercantilismo) obstrui esse projeto tão veementemente quanto a censura ou a lavagem cerebral feita pela mídia. Ela estabelece circuitos negativos de feedback - é um tabu maligno. Não ajuda ninguém a vencer o medo da morte, e meramente inculca um medo mórbido no lugar do medo saudável que todas as criaturas sensíveis ao farejar sua própria mortalidade.
Não escrevo isso para absolver o mundo de sua fealdade, ou para negar que no mundo existam coisas verdadeiramente aterrorizantes. Mas algumas dessas coisas podem ser vencidas - desde que nós possamos construir uma estética de conquista, em vez de uma estética de medo.
Recentemente assisti a uma performance de poesia/dança gay de uma firme sofisticação: o único dançarino negro da trupe fingia foder uma ovelha morta.
Confesso que parte da minha estupidez auto-induzida é acreditar (e mesmo sentir) que a arte pode me transformar e transformar os outros. É por isso que escrevo pornografia e propaganda - para causar transformação. A arte nunca pode significar tanto quanto uma caso de amor, talvez, ou uma insurreição. Mas... até certo ponto... funciona.
Entretanto, mesmo se eu tivesse desistido de toda esperança na arte, de toda expectativa de exaltação, ainda me recusaria a tolerar uma arte que meramente exarceba minha miséria, ou se apraz no schadenfreude, ``prazer com a miséria alheia''. Eu volto as costas para certo tipo de arte como um cão ase distanciaria uivando do cadáver de seu companheiro. Gostaria de poder renunciar à sofisticação que me permite dar uma cheirada em tal cadáver - com indiferente curiosidade - como mais uma exemplo da decomposição pós-industrial.
Apenas os mortos são verdadeiramente inteligentes, verdadeiramente interessantes. Nada os toca. Enquanto eu viver, no entanto, ficarei do lado da vida sofredora, desonesta e cheia de si, com a raiva em vez do tédio, com a doce luxúria, a fome e o desleixo... contra a vanguarda gelada e suas chiques premonições do sepulcro.
Instruções para Kali Yuga
A KALI YUGA ainda tem mais ou menos 200 mil anos para brincar - uma boa notícia para advogados e avatares do Caos, mas uma má notícia para brâmanes, jeovista, deuses da burocracia e seus lacaios.
Eu sabia que Darjeeling guardava alguma coisa para mim assim que ouvi o seu nome - dorje ling - cidade o trovão. Cheguei um pouco antes das monções, em 1969. Antiga estação montanhosa britânica, sede de verão para o governo de Bengala - ruas com a forma de escadas de madeira curvas, do mercado avistava-se Sikkim e o Monte Katchenhunga - templos e refugiados tibetanos - belas pessoas de porcelana amarela chamadas Lepchas (os verdadeiros aborígenes) - hindus, muçulmanos, nepaleses e budistas butaneses, além de ingleses decadentes que perderam o caminho para casa em 1947, ainda à frente de bancos antiquados e lojas de chá.
Conheci Ganesh Baba, um saddhur gordo e de barbas brancas com um hiperimpecável sotaque de Oxford - nunca vi ninguém fumar tanta maconha, um narguilé cheio após o outro, perambulávamos pelas ruas, onde ele jogava bola com crianças barulhentas ou arrumava brigas nos bares, perseguindo funcionário do comércio assustados com seu guarda-chuva, e morrendo de rir.
Ele me apresentou a Sri Kamanaransan Biswas, um homem de meia-idade, pequeno e delicado, metido num terno surrado. Era funcionário do governo de Bengala e se ofereceu para me ensinar tantra. O senhor Biswas vivia num minúsculo bangalô empoeirado num morro íngreme, enevoado e salpicado de pinheiros, onde eu o visitava diariamente com doses de conhaque barato para puja e bebericagens - ele me encorajava a fumar enquanto conversávamos, um vez que, para Kali, também a maconha é sagrada.
Em sua selvagem juventude, o senhor Biswas havia sido membro do Partido Terrorista de Bengala, que incluía tanto adoradores de Kali e místicos muçulmanos heréticos quanto anarquista e extremistas de esquerda. Ganesh Baba parecia provar esse passado secreto, como se fosse um sinal da força tântrica oculta do senhor Biswas, escondida por trás de sua aparência externa dócil e acomodada.
Nós discutimos minhas leituras de Sir John Woodruffe (Arthur Avalon) todas as tardes. Eu caminhava até lá através da neblina fria do verão, de armadilhas de espíritos tibetanas adejando na brisa úmida que surgia da bruma e dos cedros. Praticávamos o Tara-mantra e o Tara-mudra (ou Yoni-mudra), e estudávamos o diagrama Tara-iantra para fins mágicos. Um vez, visitamos um templo para o Marte hindu (como o nosso, ao mesmo tempo planeta e deus da guerra), onde ele comprou um anel de dedo feito de prego de ferradura de cavalo e me deu. Mais conhaque e maconha.
Tara: uma das formas de Kali, muito semelhante em atributos. Meio anã, nua, com quatro braços armados, dançando sobre um Shiva morto, colar de crânios de cabeças cortadas, língua gotejando sangue, pele de um profundo azul-cinzento (a cor precisa das nuvens das monções). Todo dia, mais chuva - deslizamentos de terra bloqueando as estradas. Meu visto de permanência em área fronteiriça expira. O senhor Biswas e eu descemos as deslizantes montanhas do Himalaia de jipe e de trem rumo à sua cidade natal, Siliguri, localizada nas planícies de Bengala, onde o Ganges estendeu-se num encharcado delta verdejante.
Visitamos sua esposa no hospital. No ano anterior, uma enchente havia submergido Siliguri e matado dezenas de milhares de pessoas. Houve uma epidemia de cólera, a cidade inteira parecia um naufrágio, manchada de algas e arruinada, as paredes do hospital ainda estavam empastadas de lodo, sangue, vômito, os líquidos da morte. Ela senta-se silenciosa na sua cama olhando sem piscar para destinos horrendos. O lado negro da deusa. Ele me dá uma litografia colorida de Tara que miraculosamente flutuou sobre a água e foi salva.
Naquela noite assistimos a uma cerimônia no templo local para Kali, um pequeno, humilde e meio arruinado santuário à beira da estrada - a luz proveniente de tochas era a única iluminação - cânticos e tambores com uma síncope estranha, quase africana, totalmente anticlássica, primordial e no entanto insanamente complexa. Bebemos, fumamos.
Só no cemitério, próximo a um cadáver meio-queimado, sou iniciado no Tara-Tantra. No dia seguinte, febril e distante, dou adeus e sigo Assam, para o grande templo do yoni de Shakti, em Gauhati, em tempo para o festival anual. Assam é território proibido e eu não tenho um visto. À meia-neite, em Gauhati, caio fora do trem, volto pelos trilhos sob chuva e com lama até os joelhos em total escuridão, ando às cegas até finalmente entrar na cidade e encontro um hotel cheio de insetos. Estou doente como um cão. Não durmo.
De manhã, viagem de ônibus para o templo, que fica numa montanha próxima. Torres enormes, divindades populares, pátios, edifícios anexos - centenas de milhares de peregrinos - saddhus esquisitos vindos de suas cavernas de gelo atarracados em peles de tigres e cantando. Ovelhas e pombos estão sendo abatidos aos milhares, uma verdadeira hecatombe - (nenhum outro sahib branco em vista) - as sarjetas escoam uma polegada de sangue - espadas-Kali de lâmina curva cortam cortam cortam, cabeças mortas rolam nas pedra escorregadias da rua.
Quando Shiva cortou Shakti em 53 pedaços e os espalhou sobre toda a bacia do Ganges, sua vagina caiu lá. Alguns sacerdotes amigáveis falam inglês e me ajudaram a encontrar a caverna onde o yoni está exposto. Nessas alturas, sei que estou seriamente doente, mas determinado a terminar o ritual. Uma multidão de peregrinos (todos ao menos uma cabeça mais baixos do que eu) literalmente me engolfam como a correnteza do mar e me carregam suspenso enquanto descemos umas escadas curvas, asfixiantes e trogloditas até entrarmos numa caverna-ventre claustrofóbica onde sou levando, tonto e nauseado, com alucinações, em direção a um meteorito, meio cônico, meio disforme, manchado por séculos de ghee e ocre. A multidão abre-se para mim e me permite atirar um guirlanda de jasmins sobre o yoni.
Uma semana mais tarde, em Katmandu, dei entrada no Hospital Missionário Germânico (por um mês) com hepatite. Um pequeno preço a pagar para todo aquele conhecimento - o fígado de algum coronel aposentado de uma história de Kipling! - mas eu conheço ela, eu conheço Kali. Sim, absolutamente o arquétipo de todo aquele horror, mas, para aqueles que a conhecem, ela se torna a mãe generosa. Mais tarde, numa caverna na selva além de Rishikish, meditei sobre Tara por muitos dias (com mantra, iantra, mudra, incenso e flores) e retornei à serenidade de Darjeeling e de suas visões benéficas.
Sua era deve conter horrores, pois a maioria de nós não pode compreendê-la ou alcançar a guirlanda de jasmins além do colar de crânios, percebendo até que ponto são a mesma coisa. Atravessar o caos, cavalgá-lo com um tigre, abraçá-lo (mesmo sexualmente) e absorver algo de sua shakti, sua força-vital - esses é o caminho da Kali Yuga. Niilismo criativo,. Para aqueles que seguem o caminho, ela promete iluminação e até mesmo riqueza, uma parcela de seu poder temporal.
A sexualidade e a violência servem como metáforas num poema que age diretamente sobre a consciência através da Imagem-inação - ou talvez nas circunstâncias corretas elas possam ser abertamente distribuídas e gozadas, embebidas com o sentido do sagrado de cada coisa, desde o êxtase e o vinho até o lixo e os cadáveres.
Aqueles que a ignoram ou a vêem fora de si mesmo estão arriscados de destruição. Aqueles que a adoram como ishta-devata, ou ser divino, degustam de sua Era do Ferro como se fosse ouro, conhecendo a alquimia de sua presença.
Eu sabia que Darjeeling guardava alguma coisa para mim assim que ouvi o seu nome - dorje ling - cidade o trovão. Cheguei um pouco antes das monções, em 1969. Antiga estação montanhosa britânica, sede de verão para o governo de Bengala - ruas com a forma de escadas de madeira curvas, do mercado avistava-se Sikkim e o Monte Katchenhunga - templos e refugiados tibetanos - belas pessoas de porcelana amarela chamadas Lepchas (os verdadeiros aborígenes) - hindus, muçulmanos, nepaleses e budistas butaneses, além de ingleses decadentes que perderam o caminho para casa em 1947, ainda à frente de bancos antiquados e lojas de chá.
Conheci Ganesh Baba, um saddhur gordo e de barbas brancas com um hiperimpecável sotaque de Oxford - nunca vi ninguém fumar tanta maconha, um narguilé cheio após o outro, perambulávamos pelas ruas, onde ele jogava bola com crianças barulhentas ou arrumava brigas nos bares, perseguindo funcionário do comércio assustados com seu guarda-chuva, e morrendo de rir.
Ele me apresentou a Sri Kamanaransan Biswas, um homem de meia-idade, pequeno e delicado, metido num terno surrado. Era funcionário do governo de Bengala e se ofereceu para me ensinar tantra. O senhor Biswas vivia num minúsculo bangalô empoeirado num morro íngreme, enevoado e salpicado de pinheiros, onde eu o visitava diariamente com doses de conhaque barato para puja e bebericagens - ele me encorajava a fumar enquanto conversávamos, um vez que, para Kali, também a maconha é sagrada.
Em sua selvagem juventude, o senhor Biswas havia sido membro do Partido Terrorista de Bengala, que incluía tanto adoradores de Kali e místicos muçulmanos heréticos quanto anarquista e extremistas de esquerda. Ganesh Baba parecia provar esse passado secreto, como se fosse um sinal da força tântrica oculta do senhor Biswas, escondida por trás de sua aparência externa dócil e acomodada.
Nós discutimos minhas leituras de Sir John Woodruffe (Arthur Avalon) todas as tardes. Eu caminhava até lá através da neblina fria do verão, de armadilhas de espíritos tibetanas adejando na brisa úmida que surgia da bruma e dos cedros. Praticávamos o Tara-mantra e o Tara-mudra (ou Yoni-mudra), e estudávamos o diagrama Tara-iantra para fins mágicos. Um vez, visitamos um templo para o Marte hindu (como o nosso, ao mesmo tempo planeta e deus da guerra), onde ele comprou um anel de dedo feito de prego de ferradura de cavalo e me deu. Mais conhaque e maconha.
Tara: uma das formas de Kali, muito semelhante em atributos. Meio anã, nua, com quatro braços armados, dançando sobre um Shiva morto, colar de crânios de cabeças cortadas, língua gotejando sangue, pele de um profundo azul-cinzento (a cor precisa das nuvens das monções). Todo dia, mais chuva - deslizamentos de terra bloqueando as estradas. Meu visto de permanência em área fronteiriça expira. O senhor Biswas e eu descemos as deslizantes montanhas do Himalaia de jipe e de trem rumo à sua cidade natal, Siliguri, localizada nas planícies de Bengala, onde o Ganges estendeu-se num encharcado delta verdejante.
Visitamos sua esposa no hospital. No ano anterior, uma enchente havia submergido Siliguri e matado dezenas de milhares de pessoas. Houve uma epidemia de cólera, a cidade inteira parecia um naufrágio, manchada de algas e arruinada, as paredes do hospital ainda estavam empastadas de lodo, sangue, vômito, os líquidos da morte. Ela senta-se silenciosa na sua cama olhando sem piscar para destinos horrendos. O lado negro da deusa. Ele me dá uma litografia colorida de Tara que miraculosamente flutuou sobre a água e foi salva.
Naquela noite assistimos a uma cerimônia no templo local para Kali, um pequeno, humilde e meio arruinado santuário à beira da estrada - a luz proveniente de tochas era a única iluminação - cânticos e tambores com uma síncope estranha, quase africana, totalmente anticlássica, primordial e no entanto insanamente complexa. Bebemos, fumamos.
Só no cemitério, próximo a um cadáver meio-queimado, sou iniciado no Tara-Tantra. No dia seguinte, febril e distante, dou adeus e sigo Assam, para o grande templo do yoni de Shakti, em Gauhati, em tempo para o festival anual. Assam é território proibido e eu não tenho um visto. À meia-neite, em Gauhati, caio fora do trem, volto pelos trilhos sob chuva e com lama até os joelhos em total escuridão, ando às cegas até finalmente entrar na cidade e encontro um hotel cheio de insetos. Estou doente como um cão. Não durmo.
De manhã, viagem de ônibus para o templo, que fica numa montanha próxima. Torres enormes, divindades populares, pátios, edifícios anexos - centenas de milhares de peregrinos - saddhus esquisitos vindos de suas cavernas de gelo atarracados em peles de tigres e cantando. Ovelhas e pombos estão sendo abatidos aos milhares, uma verdadeira hecatombe - (nenhum outro sahib branco em vista) - as sarjetas escoam uma polegada de sangue - espadas-Kali de lâmina curva cortam cortam cortam, cabeças mortas rolam nas pedra escorregadias da rua.
Quando Shiva cortou Shakti em 53 pedaços e os espalhou sobre toda a bacia do Ganges, sua vagina caiu lá. Alguns sacerdotes amigáveis falam inglês e me ajudaram a encontrar a caverna onde o yoni está exposto. Nessas alturas, sei que estou seriamente doente, mas determinado a terminar o ritual. Uma multidão de peregrinos (todos ao menos uma cabeça mais baixos do que eu) literalmente me engolfam como a correnteza do mar e me carregam suspenso enquanto descemos umas escadas curvas, asfixiantes e trogloditas até entrarmos numa caverna-ventre claustrofóbica onde sou levando, tonto e nauseado, com alucinações, em direção a um meteorito, meio cônico, meio disforme, manchado por séculos de ghee e ocre. A multidão abre-se para mim e me permite atirar um guirlanda de jasmins sobre o yoni.
Uma semana mais tarde, em Katmandu, dei entrada no Hospital Missionário Germânico (por um mês) com hepatite. Um pequeno preço a pagar para todo aquele conhecimento - o fígado de algum coronel aposentado de uma história de Kipling! - mas eu conheço ela, eu conheço Kali. Sim, absolutamente o arquétipo de todo aquele horror, mas, para aqueles que a conhecem, ela se torna a mãe generosa. Mais tarde, numa caverna na selva além de Rishikish, meditei sobre Tara por muitos dias (com mantra, iantra, mudra, incenso e flores) e retornei à serenidade de Darjeeling e de suas visões benéficas.
Sua era deve conter horrores, pois a maioria de nós não pode compreendê-la ou alcançar a guirlanda de jasmins além do colar de crânios, percebendo até que ponto são a mesma coisa. Atravessar o caos, cavalgá-lo com um tigre, abraçá-lo (mesmo sexualmente) e absorver algo de sua shakti, sua força-vital - esses é o caminho da Kali Yuga. Niilismo criativo,. Para aqueles que seguem o caminho, ela promete iluminação e até mesmo riqueza, uma parcela de seu poder temporal.
A sexualidade e a violência servem como metáforas num poema que age diretamente sobre a consciência através da Imagem-inação - ou talvez nas circunstâncias corretas elas possam ser abertamente distribuídas e gozadas, embebidas com o sentido do sagrado de cada coisa, desde o êxtase e o vinho até o lixo e os cadáveres.
Aqueles que a ignoram ou a vêem fora de si mesmo estão arriscados de destruição. Aqueles que a adoram como ishta-devata, ou ser divino, degustam de sua Era do Ferro como se fosse ouro, conhecendo a alquimia de sua presença.
Comunicado Especial
A AAO Anuncia Expurgos no Movimento do Caos
A Teoria do Caos deve, é claro, fluir impuramente. ``O roceiro preguiçoso ara sulcos tortos.'' Qualquer tentativa de precipitar a formação de um cristal ideológico iria gerar uma rigidez desconjuntada, fossilizações, o uso de armaduras e uma aspereza a que preferíamos então renunciar, junto com toda a ``pureza''. Sim, o Caos regozija-se numa certa falta de forma desleixada semelhante à erótica desordem daqueles que amamos por sua capacidade de destruir hábitos e revelar mutabilidades.
No entanto, essa flexibilidade não significa que a Teoria do Caos deva aceitar todo sanguessuga que procura se prender às nossas membranas sagradas. Certas definições ou deformações do Caos merecem ser denunciadas e nossa dedicação para com a desordem divina não pode nos deter em desbancar os traidores e artistas oportunistas e vampiros psíquicos que agora zumbem ao redor do Caos sob a impressão de que esta é a tendência da moda. Não propomos uma Inquisição em nome de nossas definições, mas sim um duelo, uma disputa, uma ato de violência ou de repúdio emocional, um exorcismo. Primeiro, gostaríamos de definir e mesmo nomear nossos inimigos.
Todos estes artistas, com fixação na morte e mutilação que associam o Caos exclusivamente com miséria, negatividade e uma pseudolibertinagem sem alegria - aqueles que pensam que ``além do bem e do mal'' significa fazer o mal - os intelectuais sadomasoquistas, seresteiros do apocalipse - os novos gnósticos dualistas, gente que odeia o mundo e niilistas atrozes.
Todos esses cientistas que vendem o Caos tanto como uma força destruidora (por exemplo, armas com raios de partículas) quanto como um mecanismo para impor a Ordem, como no caso do uso da matemática do Caos para estatísticas sociológicas e controle das massas.
Todos aqueles que se apropriam do Caos em nome de algum esquema New Age. Claro, nós não faremos nenhuma objeção se você quiser nos dar todo o seu dinheiro, mas vamos deixar bem claro: vamos gastá-lo comprando maconha ou viajando para o Marrocos.
Você não consegue vender água na beira do rio; o Caos é a matéria sobre a qual os alquimistas falaram, que os tolos consideram mais valiosa do que o ouro, embora possa ser encontrada em qualquer pilha de lixo. O maior inimigo nesta categoria é Werner Erhardt, fundador do EST, que agora está engarrafando ``Caos'' e tentando vender franquias para yuppóides.
Segundo, listaremos alguns dos nossos amigos, para dar uma idéia das tendências díspares que desfrutamos dentro da Teoria do caos: Caótica, a zona autônoma imaginária descoberta por Feral Faun (também conhecido por Feral Ranter); a Academia de Artes Caóticas de Tundra Wind; a revista KAOS, de Joel Birnoco; Chaos Inc., um boletim informativo associado ao trabalho de Ralph Abraham, um proeminente cientista do Caos; a Igreja de Eris; o Zen da Discórdia; a Igreja Ortodoxa Islâmica; certas facções da Igreja dos Subgênios; a Sagrada Cruzada de Nossa Senhora dos Caos Perpétuo; os escritores associados com o ``anarquismo tipo-3'' e periódicos como o Popular Reality, etc. Os Postos estão tomados. Caos não é entropia, Caos não é morte, Caos não é uma mercadoria. Caos é a criação contínua. O Caos nunca morreu.
A Teoria do Caos deve, é claro, fluir impuramente. ``O roceiro preguiçoso ara sulcos tortos.'' Qualquer tentativa de precipitar a formação de um cristal ideológico iria gerar uma rigidez desconjuntada, fossilizações, o uso de armaduras e uma aspereza a que preferíamos então renunciar, junto com toda a ``pureza''. Sim, o Caos regozija-se numa certa falta de forma desleixada semelhante à erótica desordem daqueles que amamos por sua capacidade de destruir hábitos e revelar mutabilidades.
No entanto, essa flexibilidade não significa que a Teoria do Caos deva aceitar todo sanguessuga que procura se prender às nossas membranas sagradas. Certas definições ou deformações do Caos merecem ser denunciadas e nossa dedicação para com a desordem divina não pode nos deter em desbancar os traidores e artistas oportunistas e vampiros psíquicos que agora zumbem ao redor do Caos sob a impressão de que esta é a tendência da moda. Não propomos uma Inquisição em nome de nossas definições, mas sim um duelo, uma disputa, uma ato de violência ou de repúdio emocional, um exorcismo. Primeiro, gostaríamos de definir e mesmo nomear nossos inimigos.
Todos estes artistas, com fixação na morte e mutilação que associam o Caos exclusivamente com miséria, negatividade e uma pseudolibertinagem sem alegria - aqueles que pensam que ``além do bem e do mal'' significa fazer o mal - os intelectuais sadomasoquistas, seresteiros do apocalipse - os novos gnósticos dualistas, gente que odeia o mundo e niilistas atrozes.
Todos esses cientistas que vendem o Caos tanto como uma força destruidora (por exemplo, armas com raios de partículas) quanto como um mecanismo para impor a Ordem, como no caso do uso da matemática do Caos para estatísticas sociológicas e controle das massas.
Todos aqueles que se apropriam do Caos em nome de algum esquema New Age. Claro, nós não faremos nenhuma objeção se você quiser nos dar todo o seu dinheiro, mas vamos deixar bem claro: vamos gastá-lo comprando maconha ou viajando para o Marrocos.
Você não consegue vender água na beira do rio; o Caos é a matéria sobre a qual os alquimistas falaram, que os tolos consideram mais valiosa do que o ouro, embora possa ser encontrada em qualquer pilha de lixo. O maior inimigo nesta categoria é Werner Erhardt, fundador do EST, que agora está engarrafando ``Caos'' e tentando vender franquias para yuppóides.
Segundo, listaremos alguns dos nossos amigos, para dar uma idéia das tendências díspares que desfrutamos dentro da Teoria do caos: Caótica, a zona autônoma imaginária descoberta por Feral Faun (também conhecido por Feral Ranter); a Academia de Artes Caóticas de Tundra Wind; a revista KAOS, de Joel Birnoco; Chaos Inc., um boletim informativo associado ao trabalho de Ralph Abraham, um proeminente cientista do Caos; a Igreja de Eris; o Zen da Discórdia; a Igreja Ortodoxa Islâmica; certas facções da Igreja dos Subgênios; a Sagrada Cruzada de Nossa Senhora dos Caos Perpétuo; os escritores associados com o ``anarquismo tipo-3'' e periódicos como o Popular Reality, etc. Os Postos estão tomados. Caos não é entropia, Caos não é morte, Caos não é uma mercadoria. Caos é a criação contínua. O Caos nunca morreu.
Comunicado Especial do Dia das Bruxas
Magia Negra como Ação Revolucionária
Prepare uma tintura de açafrão puro e genuíno misturado com água de rosas, adicionando, se possível, um pouco de sangue de um galo negro. Num quarto silencioso, instale um altar com uma Vasilha cheia de tintura, uma caneta com ponta de ferro, sete velas negras, incenso e um pouco de benjoim. O feitiço pode ser escrito num papel ou pergaminho virgem. Desenhe o diagrama às 4 horas da tarde de uma quarta-feira, de frente para o Norte. Copie o diagrama de sete pontas (veja ilustração) sem levantar a caneta do papel, numa operação contínua, prendendo a respiração e apertando a língua contra o céu da boca. Isso é o Barisan Laksamana, ou o Reio dos Djins. Daí desenhe a Estrela de Davi (que representa um djim de cinco pontas) e as outras partes do diagrama. Sobre a estrela de Davi, escreva o nome da pessoa ou instituição que será amaldiçoada. Mantenha o papel sobre a fumaça do benjoim e evoque os djins branco e negro dentro de você.
Bismillah ar-Rahman ar-Rahim
as-salaam alikum
Ó, Branco Djim, Resplendor de Maomé
rei de todos os espíritos dentro de mim
Ó, Negro Djim, sombra de mim mesmo
VÃO, destruam me inimigo
- e se não o fizerem
considerem-se traidores de Alá -
pelo efeito do feitiço
La illaha ill’Allah
-- Mohammad ar-Rasul Allah
Se a maldição for direcionada para uma pessoa opressora, uma boneca de cera pode ser preparada e o feitiço, instalado.
Sete agulhas devem ser inseridas de cima para baixo no topo da cabeça, nas axilas esquerda e direita, quadris esquerdo e direito, lábios ou narinas. Embrulhe a boneca numa mortalha branca e enterre-a no solo sobre o qual o inimigo com certeza passará. Enquanto isso, recrute a ajuda dos espíritos da terra do local:
Bismillah ar-rahman ar-Rahim
Ó, Djim da Terra, Espírito-sujo
Ó, Negro Djim que vive debaixo da terra
escute, vampiro do solo
Eu vos ordeno que marque e destrua
o corpo e a alma de _____________
Obedeça minha ordens
pois eu sou o verdadeiro e original feiticeiro
pelo efeito do feitiço
La illaha ill’Allah
-- Mohammad ar-Rasul Allah
Se, no entanto, a maldição for direcionada a uma instituição ou empresa, colete os seguintes itens: um ovo cozido, um prego de ferro e três alfinetes de ferro (enfie o prego e os alfinetes no ovo); um escorpião, lagarto e/ou besouros secos; uma pequena bolsa de camurça com terra de cemitério, retalhos de ferro magnetizado, goma fétida e enxofre, e amarrada com uma laço vermelho. Costure o feitiço numa seda amarela e sele-o com cera vermelha. Coloque tudo isso numa garrafa de boca larga, feche com rolhas e sele com cera.
A garrafa pode agora ser cuidadosamente empacotada e enviada pelo correio para a instituição-alvo - por exemplo, um programa de televisão evangélico, o New York Post, a empresa MUZAK, uma escola ou universidade - com uma cópia da seguinte declaração (cópias extras podem ser enviadas para os funcionários , e/ou espalhadas de forma furtiva pelo prédio):
Maldição do Djim Negro Maldito
Estas instalações foram amaldiçoadas por magia negra. A maldição foi realizada de acordo com rituais corretos. Estas instituição é amaldiçoada porque tem oprimido a Imaginação e desonrado o Intelecto, degradado as arte a fim de estupidificá-las e promovido a escravidão espiritual, a propaganda para o Estado e o Capital, reações puritanas, lucros injustos, mentiras e arruinamento estético. Os funcionários desta instituição agora correm perigo. Nenhum indivíduo foi amaldiçoado, mas o local foi infectado com má sorte e malignidade. Aqueles que não despertarem e partirem, ou que não começarem a sabotar o local de trabalho, irão gradualmente sofrer os efeitos desta feitiçaria. Destruir ou remover o instrumento deste feitiço não surtirá nenhum efeito. Ele foi visto neste local, e o local está amaldiçoado. Recupere sua humanidade e revolte-se em nome da Imaginação - ou será considerado (sob o espelho deste feitiço) um inimigo da raça humana.
Sugerimos que o ``crédito'' desta ação seja dado a alguma outra instituição culturalmente ofensiva, como a Sociedade Poética Americana ou a Cruzada de Mulheres contra a Pornografia (dê o endereço completo).
Para contrabalançar o efeito que a evocação do djim negro pessoal possa ter sobre você, também sugerimos que envie uma benção mágica para alguém ou algum grupo que você ame e/ou admire. Faça isso anonimamente, e envie um belo presente. Não é necessário seguir nenhum ritual preciso, mas você deve permitir que o imaginário brote da fonte da consciência num estado meditativo intuitivo/espontâneo. Use incenso aromático, velas vermelhas e brancas, balas coloridas, vinho, flores etc. Se possível, inclua no presente prata, ouro ou jóias.
Este manual da Maldição do Djim Negro Malaio foi preparado pelo Comitê de Terrorismo Cultural da Câmara dos Adeptos da HMOCA2.19 (``Terceiro Paraíso'') de acordo com rituais autênticos e completos. Nós somos Esotéricos Nazari-ismaelitas; ou seja, xiitas heréticos e fanáticos cuja linhagem espiritual provém de Hassan-i Sabbah através de Aladdin Mohammad III, ``o Louco'', sétimo e último Pir de Alamut (e não através da linhagem da Aga Khans). Adotamos o monismo radical e o antinominalismo puro, e nos opomos a todas as formas de lei e autoridade, em nome do Caos.
Atualmente, por razões estratégicas, não recomendamos violência ou feitiçaria contra indivíduos. Proclamamos ações contra instituições e idéias - arte-sabotagem e propaganda clandestina (incluindo rituais mágicos e ``pornografia tântrica'') - e especialmente contra a venenosa mídia do Império das Mentiras. A Maldição do Djim Negro representa apenas o primeiro passo na campanha do Terrorismo Poético, que - acreditamos - vai gerar outras formas menos sutis de insurreição.
Prepare uma tintura de açafrão puro e genuíno misturado com água de rosas, adicionando, se possível, um pouco de sangue de um galo negro. Num quarto silencioso, instale um altar com uma Vasilha cheia de tintura, uma caneta com ponta de ferro, sete velas negras, incenso e um pouco de benjoim. O feitiço pode ser escrito num papel ou pergaminho virgem. Desenhe o diagrama às 4 horas da tarde de uma quarta-feira, de frente para o Norte. Copie o diagrama de sete pontas (veja ilustração) sem levantar a caneta do papel, numa operação contínua, prendendo a respiração e apertando a língua contra o céu da boca. Isso é o Barisan Laksamana, ou o Reio dos Djins. Daí desenhe a Estrela de Davi (que representa um djim de cinco pontas) e as outras partes do diagrama. Sobre a estrela de Davi, escreva o nome da pessoa ou instituição que será amaldiçoada. Mantenha o papel sobre a fumaça do benjoim e evoque os djins branco e negro dentro de você.
Bismillah ar-Rahman ar-Rahim
as-salaam alikum
Ó, Branco Djim, Resplendor de Maomé
rei de todos os espíritos dentro de mim
Ó, Negro Djim, sombra de mim mesmo
VÃO, destruam me inimigo
- e se não o fizerem
considerem-se traidores de Alá -
pelo efeito do feitiço
La illaha ill’Allah
-- Mohammad ar-Rasul Allah
Se a maldição for direcionada para uma pessoa opressora, uma boneca de cera pode ser preparada e o feitiço, instalado.
Sete agulhas devem ser inseridas de cima para baixo no topo da cabeça, nas axilas esquerda e direita, quadris esquerdo e direito, lábios ou narinas. Embrulhe a boneca numa mortalha branca e enterre-a no solo sobre o qual o inimigo com certeza passará. Enquanto isso, recrute a ajuda dos espíritos da terra do local:
Bismillah ar-rahman ar-Rahim
Ó, Djim da Terra, Espírito-sujo
Ó, Negro Djim que vive debaixo da terra
escute, vampiro do solo
Eu vos ordeno que marque e destrua
o corpo e a alma de _____________
Obedeça minha ordens
pois eu sou o verdadeiro e original feiticeiro
pelo efeito do feitiço
La illaha ill’Allah
-- Mohammad ar-Rasul Allah
Se, no entanto, a maldição for direcionada a uma instituição ou empresa, colete os seguintes itens: um ovo cozido, um prego de ferro e três alfinetes de ferro (enfie o prego e os alfinetes no ovo); um escorpião, lagarto e/ou besouros secos; uma pequena bolsa de camurça com terra de cemitério, retalhos de ferro magnetizado, goma fétida e enxofre, e amarrada com uma laço vermelho. Costure o feitiço numa seda amarela e sele-o com cera vermelha. Coloque tudo isso numa garrafa de boca larga, feche com rolhas e sele com cera.
A garrafa pode agora ser cuidadosamente empacotada e enviada pelo correio para a instituição-alvo - por exemplo, um programa de televisão evangélico, o New York Post, a empresa MUZAK, uma escola ou universidade - com uma cópia da seguinte declaração (cópias extras podem ser enviadas para os funcionários , e/ou espalhadas de forma furtiva pelo prédio):
Maldição do Djim Negro Maldito
Estas instalações foram amaldiçoadas por magia negra. A maldição foi realizada de acordo com rituais corretos. Estas instituição é amaldiçoada porque tem oprimido a Imaginação e desonrado o Intelecto, degradado as arte a fim de estupidificá-las e promovido a escravidão espiritual, a propaganda para o Estado e o Capital, reações puritanas, lucros injustos, mentiras e arruinamento estético. Os funcionários desta instituição agora correm perigo. Nenhum indivíduo foi amaldiçoado, mas o local foi infectado com má sorte e malignidade. Aqueles que não despertarem e partirem, ou que não começarem a sabotar o local de trabalho, irão gradualmente sofrer os efeitos desta feitiçaria. Destruir ou remover o instrumento deste feitiço não surtirá nenhum efeito. Ele foi visto neste local, e o local está amaldiçoado. Recupere sua humanidade e revolte-se em nome da Imaginação - ou será considerado (sob o espelho deste feitiço) um inimigo da raça humana.
Sugerimos que o ``crédito'' desta ação seja dado a alguma outra instituição culturalmente ofensiva, como a Sociedade Poética Americana ou a Cruzada de Mulheres contra a Pornografia (dê o endereço completo).
Para contrabalançar o efeito que a evocação do djim negro pessoal possa ter sobre você, também sugerimos que envie uma benção mágica para alguém ou algum grupo que você ame e/ou admire. Faça isso anonimamente, e envie um belo presente. Não é necessário seguir nenhum ritual preciso, mas você deve permitir que o imaginário brote da fonte da consciência num estado meditativo intuitivo/espontâneo. Use incenso aromático, velas vermelhas e brancas, balas coloridas, vinho, flores etc. Se possível, inclua no presente prata, ouro ou jóias.
Este manual da Maldição do Djim Negro Malaio foi preparado pelo Comitê de Terrorismo Cultural da Câmara dos Adeptos da HMOCA2.19 (``Terceiro Paraíso'') de acordo com rituais autênticos e completos. Nós somos Esotéricos Nazari-ismaelitas; ou seja, xiitas heréticos e fanáticos cuja linhagem espiritual provém de Hassan-i Sabbah através de Aladdin Mohammad III, ``o Louco'', sétimo e último Pir de Alamut (e não através da linhagem da Aga Khans). Adotamos o monismo radical e o antinominalismo puro, e nos opomos a todas as formas de lei e autoridade, em nome do Caos.
Atualmente, por razões estratégicas, não recomendamos violência ou feitiçaria contra indivíduos. Proclamamos ações contra instituições e idéias - arte-sabotagem e propaganda clandestina (incluindo rituais mágicos e ``pornografia tântrica'') - e especialmente contra a venenosa mídia do Império das Mentiras. A Maldição do Djim Negro representa apenas o primeiro passo na campanha do Terrorismo Poético, que - acreditamos - vai gerar outras formas menos sutis de insurreição.
Comunicado #11
A Associação para a Anarquia Ontológica conclama um boicote de todos os produtos comercializados sob a senha de LIGHT - cerveja, carne, doces, cosméticos, música, ``estilos de vida'' pré-fabricados, o que for.
O conceito de LIGHT (no jargão situacionista) desdobra um complexo de simbolismo através do qual o Espetáculo espera controlar toda a repulsa contra o seu mercantilismo do desejo. O produto ``natural'', ``orgânico'', ``saudável'', é designado para um setor do mercado constituído por pessoas levemente insatisfeitas que apresentam um quadro mediano de horror do futuro e possuem uma aspiração mediana por uma autenticidade tépida. Um nicho foi preparado para você, suavemente iluminado pelas ilusões de simplicidade, limpeza, elegância, uma pitada de ascetismo e autonegação. Claro, custa um pouco mais... afinal, o que é LIGHT não foi feito para primitivos pobre e famintos que ainda consideram comida nutrição e não décor. Tem de custar mais - senão, você não compraria.
A classe média americana (não sofisme, você sabe o que quero dizer) divide-se naturalmente em duas facções opostas, mas complementares: os exércitos da Anorexia e os da Bulimia. Casos clínicos dessas doenças representam apenas a espuma psicossomática sobre a onda de uma patologia cultural profunda, difusa e amplamente inconsciente. Os que sofrem de bulimia são os yuppies que se fartam com margaritas e videocassetes, e depois se purgam com alimentos LIGHT, jogging e ginástica (an)aeróbica. Os anorexos são rebeldes por um ``estilo de vida'', seguidores da última moda em alimentação, comedores de algas, tristes, desespiritualizados e abatidos - mas presunçosos em seu zelo puritano e em seus instrumentos de autoflagelo com design sofisticado.
A grotesca junk food simplesmente representa o outro lado da vampiresca health food: - nada tem gosto de nada que não seja isopor ou aditivos - tudo é ou entediante ou cancerígeno - ou ambos - e incrivelmente estúpido.
Seja ela crua ou cozida, a comida não pode escapar do simbolismo. Ela é, e simultaneamente também representa, aquilo que é. Toda comida é comida para a alma; ignorar isso é cortejar uma indigestão, tanto crônica quanto metafísica.
Mas na abóbada sem ar da nossa civilização, em que praticamente toda experiência é mediada, em que a realidade é filtrada através da malha mortífera da percepção-consenso, perdemos o contato com a comida como nutrição; começamos a construir para nós mesmos personas baseadas naquilo que consumimos, tratando produtos como projeções da nossa aspiração pelo autêntico.
A AAO às vezes visualiza o CAOS como uma cornucópia de criação contínua, um tipo de gêiser de generosidade cósmica. Portanto evitamos advocar qualquer dieta específica, a última coisa que queremos é ofender a Sagrada Multiplicidade e a Divina Subjetividade. Não vamos azucriná-los com mais uma prescrição New Age para a saúde perfeita (só os mortos têm saúde perfeita); temos interesse pela vida, não por ``estilos de vida''.
Adoramos leveza verdadeira, e o denso e elaborado nos deleitam na sua hora apropriada. O excesso nos cai perfeitamente; a moderação nos agrada, e aprendemos que a fome pode ser o mais fino dos temperos. Tudo é leve, e as flores mais exuberantes crescem ao redor da privada. Sonhamos com mesas falansterianas e com cafés de Bolo’Bolo onde todo grupo festivo de convivas compartilhará a genialidade individual de um Brillat-Savarin (aquele santo do bom gosto).
O xeque Abu Sa'id nunca economizou dinheiro ou mesmo guardou-o de um dia para o outro - portanto, sempre que algum patrono doava uma quantia generosa para a sua fraternidade de religiosos, os dervixes celebravam com uma banquete; e, nos outros dias, todos passavam fome. A idéias era apreciar os dois estados, cheio e vazio...
O produto LIGHT faz uma paródia do vazio espiritual da iluminação, assim como o McDonald's traveste o imaginário da completitude e da celebração. O espírito humano (para não mencionar a fome) pode conquistar e transcender todo esse fetichismo - a alegria pode irromper mesmo num Burger King, e até uma cerveja LIGHT talvez esconda uma dose dionisíaca. Mas por que deveríamos continuar lutando contra esta maré suja de produtos insossos, fajutos e caros, quando poderíamos estar bebendo vinho do Paraíso agora mesmo, sob nossas próprias parreiras e figueiras?
A comida pertence ao reino da vida diária, a arena principal de todo ato insurrecional de tornar-se poderoso, de toda auto-elevação espiritual, de toda retomada do prazer, de toda revolta contra a Máquina Planetária do Trabalho e seus desejos de imitação. Mantenhamo-nos longe de todo dogmatismo. Que o caçador de uma tribo indígena americana possa alimentar sua alegria com um esquilo frito; e o anarco-taoísta, com um punhado de damascos secos. Milarepa, o tibetano, depois de dez anos de sopa de macarrão. Comeu um bolo de manteiga e alcançou a iluminação.
Um bronco não percebe eros nenhum num champanhe fino; um feiticeiro pode se embriagar com um copo d’água.
Nossa cultura, asfixiando-se em seus próprios poluentes, grita (como Goethe gritou por luz ao morrer) ``Mais LIGHT!'' - como se esses efluentes poliinsaturados pudessem de algum modo aliviar nosso sofrimento, como se a sua insossa falta de peso, paladar e características pudesse nos proteger da escuridão crescente.
Não! Esta última ilusão finalmente nos parece cruel demais. Apesar de nossas Próprias tendências indolentes somos forçados a nos posicionar e protestar. Boicote! Boicote! ABAIXO O LIGHT!
Apêndice: Cardápio para um Banquete Negro Anarquista (vegetariano e não vegetariano)
Caviar e blinis, ovos com mais de cem anos; lulas e arroz cozido na tinta; beringelas cozidas com casca com alho preto em conserva; arroz silvestre com nozes negras e cogumelos negros; trufas na manteiga enegrecida; carne de caça marinada em vinho do porto, grelhada no carvão, servida com fatias de pão preto e guarnecida com castanhas assadas. Cuba-libres, Guiness-e-champanhe; chá preto chinês. Musse de chocola- te amargo, café turco, uvas negras, ameixas, cerejas etc.
O conceito de LIGHT (no jargão situacionista) desdobra um complexo de simbolismo através do qual o Espetáculo espera controlar toda a repulsa contra o seu mercantilismo do desejo. O produto ``natural'', ``orgânico'', ``saudável'', é designado para um setor do mercado constituído por pessoas levemente insatisfeitas que apresentam um quadro mediano de horror do futuro e possuem uma aspiração mediana por uma autenticidade tépida. Um nicho foi preparado para você, suavemente iluminado pelas ilusões de simplicidade, limpeza, elegância, uma pitada de ascetismo e autonegação. Claro, custa um pouco mais... afinal, o que é LIGHT não foi feito para primitivos pobre e famintos que ainda consideram comida nutrição e não décor. Tem de custar mais - senão, você não compraria.
A classe média americana (não sofisme, você sabe o que quero dizer) divide-se naturalmente em duas facções opostas, mas complementares: os exércitos da Anorexia e os da Bulimia. Casos clínicos dessas doenças representam apenas a espuma psicossomática sobre a onda de uma patologia cultural profunda, difusa e amplamente inconsciente. Os que sofrem de bulimia são os yuppies que se fartam com margaritas e videocassetes, e depois se purgam com alimentos LIGHT, jogging e ginástica (an)aeróbica. Os anorexos são rebeldes por um ``estilo de vida'', seguidores da última moda em alimentação, comedores de algas, tristes, desespiritualizados e abatidos - mas presunçosos em seu zelo puritano e em seus instrumentos de autoflagelo com design sofisticado.
A grotesca junk food simplesmente representa o outro lado da vampiresca health food: - nada tem gosto de nada que não seja isopor ou aditivos - tudo é ou entediante ou cancerígeno - ou ambos - e incrivelmente estúpido.
Seja ela crua ou cozida, a comida não pode escapar do simbolismo. Ela é, e simultaneamente também representa, aquilo que é. Toda comida é comida para a alma; ignorar isso é cortejar uma indigestão, tanto crônica quanto metafísica.
Mas na abóbada sem ar da nossa civilização, em que praticamente toda experiência é mediada, em que a realidade é filtrada através da malha mortífera da percepção-consenso, perdemos o contato com a comida como nutrição; começamos a construir para nós mesmos personas baseadas naquilo que consumimos, tratando produtos como projeções da nossa aspiração pelo autêntico.
A AAO às vezes visualiza o CAOS como uma cornucópia de criação contínua, um tipo de gêiser de generosidade cósmica. Portanto evitamos advocar qualquer dieta específica, a última coisa que queremos é ofender a Sagrada Multiplicidade e a Divina Subjetividade. Não vamos azucriná-los com mais uma prescrição New Age para a saúde perfeita (só os mortos têm saúde perfeita); temos interesse pela vida, não por ``estilos de vida''.
Adoramos leveza verdadeira, e o denso e elaborado nos deleitam na sua hora apropriada. O excesso nos cai perfeitamente; a moderação nos agrada, e aprendemos que a fome pode ser o mais fino dos temperos. Tudo é leve, e as flores mais exuberantes crescem ao redor da privada. Sonhamos com mesas falansterianas e com cafés de Bolo’Bolo onde todo grupo festivo de convivas compartilhará a genialidade individual de um Brillat-Savarin (aquele santo do bom gosto).
O xeque Abu Sa'id nunca economizou dinheiro ou mesmo guardou-o de um dia para o outro - portanto, sempre que algum patrono doava uma quantia generosa para a sua fraternidade de religiosos, os dervixes celebravam com uma banquete; e, nos outros dias, todos passavam fome. A idéias era apreciar os dois estados, cheio e vazio...
O produto LIGHT faz uma paródia do vazio espiritual da iluminação, assim como o McDonald's traveste o imaginário da completitude e da celebração. O espírito humano (para não mencionar a fome) pode conquistar e transcender todo esse fetichismo - a alegria pode irromper mesmo num Burger King, e até uma cerveja LIGHT talvez esconda uma dose dionisíaca. Mas por que deveríamos continuar lutando contra esta maré suja de produtos insossos, fajutos e caros, quando poderíamos estar bebendo vinho do Paraíso agora mesmo, sob nossas próprias parreiras e figueiras?
A comida pertence ao reino da vida diária, a arena principal de todo ato insurrecional de tornar-se poderoso, de toda auto-elevação espiritual, de toda retomada do prazer, de toda revolta contra a Máquina Planetária do Trabalho e seus desejos de imitação. Mantenhamo-nos longe de todo dogmatismo. Que o caçador de uma tribo indígena americana possa alimentar sua alegria com um esquilo frito; e o anarco-taoísta, com um punhado de damascos secos. Milarepa, o tibetano, depois de dez anos de sopa de macarrão. Comeu um bolo de manteiga e alcançou a iluminação.
Um bronco não percebe eros nenhum num champanhe fino; um feiticeiro pode se embriagar com um copo d’água.
Nossa cultura, asfixiando-se em seus próprios poluentes, grita (como Goethe gritou por luz ao morrer) ``Mais LIGHT!'' - como se esses efluentes poliinsaturados pudessem de algum modo aliviar nosso sofrimento, como se a sua insossa falta de peso, paladar e características pudesse nos proteger da escuridão crescente.
Não! Esta última ilusão finalmente nos parece cruel demais. Apesar de nossas Próprias tendências indolentes somos forçados a nos posicionar e protestar. Boicote! Boicote! ABAIXO O LIGHT!
Apêndice: Cardápio para um Banquete Negro Anarquista (vegetariano e não vegetariano)
Caviar e blinis, ovos com mais de cem anos; lulas e arroz cozido na tinta; beringelas cozidas com casca com alho preto em conserva; arroz silvestre com nozes negras e cogumelos negros; trufas na manteiga enegrecida; carne de caça marinada em vinho do porto, grelhada no carvão, servida com fatias de pão preto e guarnecida com castanhas assadas. Cuba-libres, Guiness-e-champanhe; chá preto chinês. Musse de chocola- te amargo, café turco, uvas negras, ameixas, cerejas etc.
Comunicado #10
Sessão Plenária Levantas Novas Denúncias - Expurgos são Esperados
Para contrabalançar qualquer carma viscoso que possamos ter adquirido com o nosso irado sermãozinho de púlpito contra os cristãos e outros desagradáveis adeptos do fim do mundo ver o último comunicado) e apenas para deixar tudo muito claro: a AAO também denuncia todos os ateus renascidos imbecis e sua fétida bagagem vitoriana de materialismo científico vulgar.
//// Nós aplaudimos os sentimentos anticristãos, é claro - e todos os ataques a todas religiões organizadas. Mas... ao ouvir alguns anarquistas falarem, pode-se pensar que os anos 1960 nunca aconteceram e que ninguém tomou LSD.
//// A maioria dos cientistas, com Alice nos Loucos Países do Quantum e da Teoria do Caos, parte para o taoísmo e para o vedanta (para não falar no dadaísmo) - e ainda assim, se lermos The Match ou Freedom, poderemos pensar que a ciência foi embalsamada com o príncipe Kropotkin - e a ``religião'', com o bispo Ussher.
//// É claro que desprezamos os nazistas da era de Aquário, o tipo de guru louvado recentemente pelo The New York Times por sua contribuição aos Grandes Negócios, o culto aos zumbis yuppies que outorgam franquias, a metafísica anoréxica da banalidade New Age... mas NOSSO esoterismo continua indefinível para esses medíocres contadores de dinheiro e seus servos descerebrados.
//// Os míticos heréticos e antinomianos do Oriente e do Ocidente desenvolveram sistemas fundamentados na libertação interior. Alguns desses sistemas estão maculados pelo misticismo religioso ou ``psicológicos'' - e alguns até mesmo se cristalizaram em movimentos revolucionários (os igualitários milenaristas, os Assassinos, os taoístas de turbante amarelo etc.). Quaisquer que sejam suas falhas, eles têm uma certa arma mágica que o anarquismo dolorosamente não possui:
(1) Um sentido de meta-racional (``metanóia''), formas de ir além do pensamento fragmentado, para se chegar a um pensamento e percepção uniformes (ou nômandes, ou ``caóticos''); (2) uma definição verdadeira da consciência auto-realizada ou liberada, uma descrição positiva de sua estrutura, e as técnicas utilizadas para se chegar até ela; (3) uma visão arquetípica coerente da epistemologia - ou seja, uma forma de conhecimento (sobre história, por exemplo) que usa a fenomenologia hermenêutica para descobrir padrões de significado (algo como a ``crítica paranóica'' dos surrealistas); (4) um ensinamento sobre sexualidade (nos aspectos ``tântricos'' de várias doutrinas) que valoriza o prazer em vez da autonegação, não apenas por puro deleite, mas também como meio para uma consciência ou ``libertação'' aprimoradas;
(5) uma atitude de celebração, que pode ser chamada de ``conceito de júbilo'', o cancelamento de débitos psíquicos por meios de uma generosidade inerente à própria realidade; (6) uma linguagem (incluindo gestos, rituais, intenção) com a qual ativar e comunicar esses cinco aspectos da cognição; e (7) um silêncio. //// Não é surpresa alguma descobrir quantos anarquistas são ex-católicos, padres e freiras à paisana, ex-coroinhas, batistas renascidos que escapuliram ou mesmo ex-xiitas fanáticos.
O anarquismo oferece uma missa negra (e vermelha) para des-ritualizar todos os cérebros assombrados por fantasmas - um exorcismo secular -, mas então trai a si mesmo ao criar com remendos sua própria Igreja, toda ela coberta pelas teias de aranha do Humanismo Ético, do Pensamento Livre, do Ateísmo Muscular e da rude Lógica Cartesiana Fundamentalista. //// Há duas décadas demos início ao projeto de nos tornar Cosmopolitas Desenraizados, determinados a peneirar os detritos de todas as tribos, culturas e civilizações (inclusive a nossa) atrás de fragmentos viáveis - e sintetizar, dessa bagunça pós-ortodoxias, o nosso próprio sistema de vida - a última coisa que queremos (como advertiu Blake) é nos tornar escravos de alguém. //// Se algum feiticeiro javanês ou xamã de uma tribo de índios americanos possuir algum fragmento precioso que eu necessite para minha própria ``maleta de médico'', devo eu olhá-lo com desprezo, zombar dele e citar a frase de Bakunin sobre enforcar padres com as vísceras dos banqueiros? Ou devo lembrar-me de que a anarquia não conhece dogma, que o Caos não pode ser mapeado - e servir-me de tudo sem me sentir acorrentado? /// Encontramos as primeiras definições de anarquia no Chuang Tzu e outros textos taoístas; o ``anarquismo-místico'' ostenta uma linhagem bem mais antiga do que o racionalismo grego. Quando Nietzsche escreveu sobre os ``hiperboreanos'', acho que estava profetizando a nós - que fomos além da morte de Deus - e do renascimento da Deusa - a atingir um reino onde o espírito e a matéria são uma coisa só. Toda manifestação desta hierogamia, todo objeto material e toda vida, tornam-se não apenas ``sagrados'' em si mesmos, mas também algo simbólico de sua própria ``essência divina''. //// O ateísmo nada mais é do que o ópio do povo (ou melhor, o paladino que ele mesmo escolheu) - e não uma droga muito fascinante ou sensual. Se formos seguir o conselho de Baudelaire e ``estarmos constantemente embriagados'', a AAO preferia algo como os cogumelos, muito obrigado. O Caos é o mais velho de todos os deuses - e o Caos nunca morreu.
Para contrabalançar qualquer carma viscoso que possamos ter adquirido com o nosso irado sermãozinho de púlpito contra os cristãos e outros desagradáveis adeptos do fim do mundo ver o último comunicado) e apenas para deixar tudo muito claro: a AAO também denuncia todos os ateus renascidos imbecis e sua fétida bagagem vitoriana de materialismo científico vulgar.
//// Nós aplaudimos os sentimentos anticristãos, é claro - e todos os ataques a todas religiões organizadas. Mas... ao ouvir alguns anarquistas falarem, pode-se pensar que os anos 1960 nunca aconteceram e que ninguém tomou LSD.
//// A maioria dos cientistas, com Alice nos Loucos Países do Quantum e da Teoria do Caos, parte para o taoísmo e para o vedanta (para não falar no dadaísmo) - e ainda assim, se lermos The Match ou Freedom, poderemos pensar que a ciência foi embalsamada com o príncipe Kropotkin - e a ``religião'', com o bispo Ussher.
//// É claro que desprezamos os nazistas da era de Aquário, o tipo de guru louvado recentemente pelo The New York Times por sua contribuição aos Grandes Negócios, o culto aos zumbis yuppies que outorgam franquias, a metafísica anoréxica da banalidade New Age... mas NOSSO esoterismo continua indefinível para esses medíocres contadores de dinheiro e seus servos descerebrados.
//// Os míticos heréticos e antinomianos do Oriente e do Ocidente desenvolveram sistemas fundamentados na libertação interior. Alguns desses sistemas estão maculados pelo misticismo religioso ou ``psicológicos'' - e alguns até mesmo se cristalizaram em movimentos revolucionários (os igualitários milenaristas, os Assassinos, os taoístas de turbante amarelo etc.). Quaisquer que sejam suas falhas, eles têm uma certa arma mágica que o anarquismo dolorosamente não possui:
(1) Um sentido de meta-racional (``metanóia''), formas de ir além do pensamento fragmentado, para se chegar a um pensamento e percepção uniformes (ou nômandes, ou ``caóticos''); (2) uma definição verdadeira da consciência auto-realizada ou liberada, uma descrição positiva de sua estrutura, e as técnicas utilizadas para se chegar até ela; (3) uma visão arquetípica coerente da epistemologia - ou seja, uma forma de conhecimento (sobre história, por exemplo) que usa a fenomenologia hermenêutica para descobrir padrões de significado (algo como a ``crítica paranóica'' dos surrealistas); (4) um ensinamento sobre sexualidade (nos aspectos ``tântricos'' de várias doutrinas) que valoriza o prazer em vez da autonegação, não apenas por puro deleite, mas também como meio para uma consciência ou ``libertação'' aprimoradas;
(5) uma atitude de celebração, que pode ser chamada de ``conceito de júbilo'', o cancelamento de débitos psíquicos por meios de uma generosidade inerente à própria realidade; (6) uma linguagem (incluindo gestos, rituais, intenção) com a qual ativar e comunicar esses cinco aspectos da cognição; e (7) um silêncio. //// Não é surpresa alguma descobrir quantos anarquistas são ex-católicos, padres e freiras à paisana, ex-coroinhas, batistas renascidos que escapuliram ou mesmo ex-xiitas fanáticos.
O anarquismo oferece uma missa negra (e vermelha) para des-ritualizar todos os cérebros assombrados por fantasmas - um exorcismo secular -, mas então trai a si mesmo ao criar com remendos sua própria Igreja, toda ela coberta pelas teias de aranha do Humanismo Ético, do Pensamento Livre, do Ateísmo Muscular e da rude Lógica Cartesiana Fundamentalista. //// Há duas décadas demos início ao projeto de nos tornar Cosmopolitas Desenraizados, determinados a peneirar os detritos de todas as tribos, culturas e civilizações (inclusive a nossa) atrás de fragmentos viáveis - e sintetizar, dessa bagunça pós-ortodoxias, o nosso próprio sistema de vida - a última coisa que queremos (como advertiu Blake) é nos tornar escravos de alguém. //// Se algum feiticeiro javanês ou xamã de uma tribo de índios americanos possuir algum fragmento precioso que eu necessite para minha própria ``maleta de médico'', devo eu olhá-lo com desprezo, zombar dele e citar a frase de Bakunin sobre enforcar padres com as vísceras dos banqueiros? Ou devo lembrar-me de que a anarquia não conhece dogma, que o Caos não pode ser mapeado - e servir-me de tudo sem me sentir acorrentado? /// Encontramos as primeiras definições de anarquia no Chuang Tzu e outros textos taoístas; o ``anarquismo-místico'' ostenta uma linhagem bem mais antiga do que o racionalismo grego. Quando Nietzsche escreveu sobre os ``hiperboreanos'', acho que estava profetizando a nós - que fomos além da morte de Deus - e do renascimento da Deusa - a atingir um reino onde o espírito e a matéria são uma coisa só. Toda manifestação desta hierogamia, todo objeto material e toda vida, tornam-se não apenas ``sagrados'' em si mesmos, mas também algo simbólico de sua própria ``essência divina''. //// O ateísmo nada mais é do que o ópio do povo (ou melhor, o paladino que ele mesmo escolheu) - e não uma droga muito fascinante ou sensual. Se formos seguir o conselho de Baudelaire e ``estarmos constantemente embriagados'', a AAO preferia algo como os cogumelos, muito obrigado. O Caos é o mais velho de todos os deuses - e o Caos nunca morreu.
Comunicado #9
I. Kristianismo
Uma vez mais esperamos que aquele cadáver moralista finalmente dê seu último suspiro rançoso e se transforme definitivamente em abóbora. Uma vez mais imaginamos a derrota daquele obsceno espectro da morte pregando nas paredes de nossas salas de estar, nunca mais a lamentar sobre nossos pecados...
mas, uma vez mais, ele ressuscita e volta, arrastando-se para nos caçar como o vilão de um chatíssimo filme pornô de quinta categoria - a milésima refilmagem de A Noite dos Mortos Vivos - trilhando seu rastro de lesma de humilhação lacrimosa... logo quando você pensou que estava salvo no inconsciente... eis as MANDÍBULAS de JESUS. Atenção! É o ataque dos Batistas Barra-Pesada da Serra Elétrica!
e os Esquerdista, nostálgicos pelo Ponto Ômega de seu paraíso dialético, saúdam cada renascimento galvanizado da fé putrefata com arrulhos de delírio: Vamos dançar um tango com todos os bispos marxistas da América Latina - cantar uma balada para os pios estivadores poloneses - sussurrar canções espirituais para o mais recente e promissor afro-metodista presidenciável do Cinturão da Bíblia...
A AAO denuncia a Teologia da Libertação como uma conspiração das freiras stalinistas - o acordo secreto escarlate da Puta da Babilônia com o fascismo vermelho dos trópicos. Solidarnosc? O próprio sindicato do Papa - apoiado pela Federação Americana do Trabalho/Congresso de Organizações Industriais (AFL-CIO), pelo Banco do Vaticano, pelo Gabinete de Propaganda da Maçonaria e pela Máfia. E, se nós alguma vez votarmos, jamais gastaremos esse gesto vazio com algum cão kristão, não importa sua raça ou cor.
Quanto aos kristãos reais, esses tediosos fanáticos autolobotomizados, esses mórmons assassinos de crianças, esses Guerreiros Estelares da Escravidão pela Moralidade, televangelistas outoflageladores, esquadrões de zumbis da Abençoada Virgem Maria (que paira numa nuvem cor-de-rosa sobre o Bronx, vomitando ódio, excomunhões e bile sobre a sexualidade das crianças, das adolescentes grávidas e das bichas)...
Quanto aos que cultuam verdadeiramente a morte, canibais ritualísticos, freaks do Armagedom - a Direita Cristã - só podemos rezar para que o ÊXTASE ACONTEÇA e arranque-os de detrás dos volantes de seus carros, dos Programas de auditório e das camas castas, leve-os todos para o céu e deixe-nos viver nossa vida humana.
II. Pró-aborto e Antiaborto
Os Capiaus Retrógrados que jogam bombas em clínicas de aborto pertencem à mesma categoria grotesca de estupidez depravada que os bispos que pregam a Paz e ainda assim condenam a sexualidade humana. A natureza humana não tem leis (``apenas hábitos''), e todas as leis não são naturais. Tudo pertence à esfera da moralidade pessoal/imaginária - até mesmos o assassinato.
No entanto, segundo a Teoria do Caos, nós não somos obrigados a gostar e aprovar o assassinato - ou o aborto. O Caos gostaria de ver toda criança bastarda gerada e nascida; óvulo e esperma, separados, são apenas secreções adoráveis, mas combinados em DNA tornar-se consciência em potencial, a entropia negativa, alegria.
Se ``comer carne é assassinato'', como os vegetarianos afirmam, o que é o aborto? Os totemistas que dançavam para os animais que caçavam, que meditavam para se unir ao seu alimento vivo e compartilhavam de sua tragédia, demonstravam valores muito mais humanos do que a média da classe das feministas liberais ``pró-aborto''.
Em toda ``questão'' a ser considerada para debate no livro de regras do Espetáculo, ambos os lados são invariavelmente cheios de merda. A ``questão do aborto'' não é uma exceção.
Uma vez mais esperamos que aquele cadáver moralista finalmente dê seu último suspiro rançoso e se transforme definitivamente em abóbora. Uma vez mais imaginamos a derrota daquele obsceno espectro da morte pregando nas paredes de nossas salas de estar, nunca mais a lamentar sobre nossos pecados...
mas, uma vez mais, ele ressuscita e volta, arrastando-se para nos caçar como o vilão de um chatíssimo filme pornô de quinta categoria - a milésima refilmagem de A Noite dos Mortos Vivos - trilhando seu rastro de lesma de humilhação lacrimosa... logo quando você pensou que estava salvo no inconsciente... eis as MANDÍBULAS de JESUS. Atenção! É o ataque dos Batistas Barra-Pesada da Serra Elétrica!
e os Esquerdista, nostálgicos pelo Ponto Ômega de seu paraíso dialético, saúdam cada renascimento galvanizado da fé putrefata com arrulhos de delírio: Vamos dançar um tango com todos os bispos marxistas da América Latina - cantar uma balada para os pios estivadores poloneses - sussurrar canções espirituais para o mais recente e promissor afro-metodista presidenciável do Cinturão da Bíblia...
A AAO denuncia a Teologia da Libertação como uma conspiração das freiras stalinistas - o acordo secreto escarlate da Puta da Babilônia com o fascismo vermelho dos trópicos. Solidarnosc? O próprio sindicato do Papa - apoiado pela Federação Americana do Trabalho/Congresso de Organizações Industriais (AFL-CIO), pelo Banco do Vaticano, pelo Gabinete de Propaganda da Maçonaria e pela Máfia. E, se nós alguma vez votarmos, jamais gastaremos esse gesto vazio com algum cão kristão, não importa sua raça ou cor.
Quanto aos kristãos reais, esses tediosos fanáticos autolobotomizados, esses mórmons assassinos de crianças, esses Guerreiros Estelares da Escravidão pela Moralidade, televangelistas outoflageladores, esquadrões de zumbis da Abençoada Virgem Maria (que paira numa nuvem cor-de-rosa sobre o Bronx, vomitando ódio, excomunhões e bile sobre a sexualidade das crianças, das adolescentes grávidas e das bichas)...
Quanto aos que cultuam verdadeiramente a morte, canibais ritualísticos, freaks do Armagedom - a Direita Cristã - só podemos rezar para que o ÊXTASE ACONTEÇA e arranque-os de detrás dos volantes de seus carros, dos Programas de auditório e das camas castas, leve-os todos para o céu e deixe-nos viver nossa vida humana.
II. Pró-aborto e Antiaborto
Os Capiaus Retrógrados que jogam bombas em clínicas de aborto pertencem à mesma categoria grotesca de estupidez depravada que os bispos que pregam a Paz e ainda assim condenam a sexualidade humana. A natureza humana não tem leis (``apenas hábitos''), e todas as leis não são naturais. Tudo pertence à esfera da moralidade pessoal/imaginária - até mesmos o assassinato.
No entanto, segundo a Teoria do Caos, nós não somos obrigados a gostar e aprovar o assassinato - ou o aborto. O Caos gostaria de ver toda criança bastarda gerada e nascida; óvulo e esperma, separados, são apenas secreções adoráveis, mas combinados em DNA tornar-se consciência em potencial, a entropia negativa, alegria.
Se ``comer carne é assassinato'', como os vegetarianos afirmam, o que é o aborto? Os totemistas que dançavam para os animais que caçavam, que meditavam para se unir ao seu alimento vivo e compartilhavam de sua tragédia, demonstravam valores muito mais humanos do que a média da classe das feministas liberais ``pró-aborto''.
Em toda ``questão'' a ser considerada para debate no livro de regras do Espetáculo, ambos os lados são invariavelmente cheios de merda. A ``questão do aborto'' não é uma exceção.
Comunicado #8
A Teoria do Caos e A Família Nuclear
Domingo no Parque de Riverside, os pais colocam se filhos no lugar certo, ``pregando-os'' à grama como se por mágica, com sinistros olhares enfeitiçantes de camaradagem leitosa, e os forçam a jogar bolas de beisebol para um lado e para o outro durante horas. Os garotos quase parecem pequenos São Sebastião perfurados por flechas de tédio.
Os pretensiosos rituais de diversão familiar transformam todos os úmidos gramados do verão em parques temáticos; cada filho, uma alegoria inconsciente da riqueza do pai, uma representação pálida, duas ou três vezes distanciadas da realidade: a criança como metáfora de uma-coisa-ou-outra.
E aqui eu chego ao cair da tarde, chapado de pó de cogumelos, meio convencido de que essas centenas de vaga-lumes surgem da minha própria consciência - Onde andavam eles todos esses anos? Por que tantos, tão de repente? - cada um ascendendo num momento de incandescência, descrevendo rápidos arcos como gráficos abstratos da energia do esperma.
``Famílias! Os avaros do amor! Como eu as odeio!'' Bolas de beisebol voam sem rumo da luz vespertina, algumas se perdem, as vozes elevam-se em exaustão mendigada, mas ainda assim os Pais insistem em estender o tépido poslúdio de seu sacrifício patriarcal até a hora do jantar, até que as sombras comam a grama.
Entre os filhos da plebe há um cujo olhar por um momento cruza com o meu - transmito telepaticamente a imagem da doce licença, o cheiro do TEMPO liberto de todas as amarras da escola, das lições de música, dos acampamentos de férias, das noites familiares ao redor da TV, dos domingos no parque com papai - tempo autêntico, tempo caótico.
Agora a família está deixando o parque, um pequeno batalhão de insatisfação. Mas aquele menino se volta e sorri para mim, em cumplicidade - ``Mensagem Recebida'' - e dança atrás de um vaga-lumes, encorajado por meu desejo. O pai ladra um mantra que dissipa meus poderes.
O momento passa. O garoto é engolido pela textura da semana - desaparece como um pirata seminu ou um índio que foi levado prisioneiro pelos missionários. O parque sabe quem eu sou, mexe-se sob mim como um jaguar gigante pronto para despertar para sua meditação noturna. A tristeza ainda o detém, mas ele continua indomado na sua essência mais profunda: uma estranha desordem no coração da noite da cidade.
Domingo no Parque de Riverside, os pais colocam se filhos no lugar certo, ``pregando-os'' à grama como se por mágica, com sinistros olhares enfeitiçantes de camaradagem leitosa, e os forçam a jogar bolas de beisebol para um lado e para o outro durante horas. Os garotos quase parecem pequenos São Sebastião perfurados por flechas de tédio.
Os pretensiosos rituais de diversão familiar transformam todos os úmidos gramados do verão em parques temáticos; cada filho, uma alegoria inconsciente da riqueza do pai, uma representação pálida, duas ou três vezes distanciadas da realidade: a criança como metáfora de uma-coisa-ou-outra.
E aqui eu chego ao cair da tarde, chapado de pó de cogumelos, meio convencido de que essas centenas de vaga-lumes surgem da minha própria consciência - Onde andavam eles todos esses anos? Por que tantos, tão de repente? - cada um ascendendo num momento de incandescência, descrevendo rápidos arcos como gráficos abstratos da energia do esperma.
``Famílias! Os avaros do amor! Como eu as odeio!'' Bolas de beisebol voam sem rumo da luz vespertina, algumas se perdem, as vozes elevam-se em exaustão mendigada, mas ainda assim os Pais insistem em estender o tépido poslúdio de seu sacrifício patriarcal até a hora do jantar, até que as sombras comam a grama.
Entre os filhos da plebe há um cujo olhar por um momento cruza com o meu - transmito telepaticamente a imagem da doce licença, o cheiro do TEMPO liberto de todas as amarras da escola, das lições de música, dos acampamentos de férias, das noites familiares ao redor da TV, dos domingos no parque com papai - tempo autêntico, tempo caótico.
Agora a família está deixando o parque, um pequeno batalhão de insatisfação. Mas aquele menino se volta e sorri para mim, em cumplicidade - ``Mensagem Recebida'' - e dança atrás de um vaga-lumes, encorajado por meu desejo. O pai ladra um mantra que dissipa meus poderes.
O momento passa. O garoto é engolido pela textura da semana - desaparece como um pirata seminu ou um índio que foi levado prisioneiro pelos missionários. O parque sabe quem eu sou, mexe-se sob mim como um jaguar gigante pronto para despertar para sua meditação noturna. A tristeza ainda o detém, mas ele continua indomado na sua essência mais profunda: uma estranha desordem no coração da noite da cidade.
Comunicado #6
I. São do Apocalipse: ``Teatro Secreto''
Conquanto nenhum Stalin fungue em nossos pescoços, por que não fazer alguma arte a serviço de... um insurreição?
Não importa se é ``impossível''. O que mais devemos aspirar atingir senão o ``impossível''? Devemos esperar que outras pessoas revelem nossos verdadeiros desejos?
Se a arte morreu, ou o público desapareceu, então nos encontramos livres de dois pesos mortos. Em potencial, todos nós somos algum tipo de artista - e potencialmente todo público recuperou sua inocência, sua capacidade de tornar-se a arte que experiência.
Desde que possamos escapar dos museus que carregamos dentro de nós mesmos, desde que conseguimos parar de nos vender ingressos para as galerias que existem dentro de nossos próprios crânios, poderemos começar a contemplar uma arte que recrie o objetivo do feiticeiro: mudar a estrutura da realidade pela manipulação dos símbolos vivos (neste caso, as imagens que nos foram ``dadas'' pelos organizadores desse salão - assassinato, guerra, fome e ganância).
Podemos agora contemplar ações estéticas que possuam um pouco da ressonância do terrorismo (ou ``crueldade'', como definiu Artaud) e cujo objetivo é destruir as abstrações em vez de destruir as pessoas, a libertação em vez do poder, o prazer em lugar do lucro, a alegria e não o medo. ``Terrorismo Poético.''
As imagens que escolhemos têm a potência da escuridão - mas todas as imagens são máscaras, e por trás dessas máscaras existem energias que podemos direcionar para a luz e o prazer.
Por exemplo, o homem que inventou o aikido era um samurai que se tornou pacifista e se recusou a lutar pelo imperialismo japonês. Ele acabou virando um eremita, vivia numa montanha sentado sob uma árvore...
Um dia, um ex-colega samurai foi visitá-lo e acusou-o de traição, covardia, etc. O eremita não disse nada, apenas continuou sentado - e então o soldado, irado, puxou sua espada e atacou-o. Espontaneamente, o mestre desarmado tomou a espada do soldado e devolveu-a em seguida. Várias vezes o soldado tentou matá-lo, usando todos os golpes mais sutis de seu repertório - mas a partir de sua mente vazia o eremita inventava, todas as vezes, novas maneiras de desramá-lo.
O soldado, é claro, tornou-se seu primeiro discípulo. Mais tarde, eles aprenderam a esquivarem-se de balas. Podemos contemplar alguma forma de metadrama criado para capturar um pouco do sabor dessa atuação, que deu origem a uma arte totalmente nova, um modo totalmente não violento de luta - guerra sem assassinato - ``a espada da vida'', e não a da morte.
Uma conspiração de artistas, anônima como qualquer bombardeador maluco, mas voltada para um ato de generosidade gratuita no lugar da violência - para o milênio em vez de para o apocalipse - ou, ainda, apontada para o presente momento de choque estético a serviço da realização e liberação.
A arte conta maravilhosas mentiras que se tornam realidade.
É possível criar um TEATRO SECRETO onde o artista quanto a audiência desaparecem completamente - apenas para reaparecer em outro plano, onde a vida e a arte se tornam a mesma coisa, puro oferecimento das dádivas?
II. Assassinato - Guerra - Fome - Ganância
Os Maniqueus e os Cátaros acreditavam que o corpo pode ser espiritualizado - ou melhor, que o corpo simplesmente contamina o espírito puro e portanto deve ser rejeitado totalmente. Os gnósticos perfecti (dualistas radicais) não se alimentavam até morrer para escapar do corpo e retornar ao pleroma da luz pura.
Então: para fugir dos malefícios da carne - assassinato, guerra, fome ganância - paradoxalmente apenas existe um caminho: o assassinato do próprio corpo, guerra contra a carne, fome até a morte, ganância por salvação.
Os monistas radicais, no entanto (ismaelitas, ranters, antinomianos), consideram que corpo e espírito são uma coisa só, que o mesmo espírito que impregna uma pedra negra também infunde a carne com sua luz; que vive e tudo é vida.
``As coisas são o que são espontaneamente... tudo é natural... tudo está em movimento como se existisse um Verdadeiro Senhor para movê-las - mas, se procuramos por evidências desse Senhor, não conseguiremos encontrá-las.'' (Kuo Hsiang)
Paradoxalmente, o caminho monista também não pode ser seguido sem algum tipo de ``assassinato, guerra, fome, ganância'': a transformação da morte em vida (comida, entropia negativa) - guerra contra o Império das Mentiras - ``o jejum da alma'', ou a renúncia à Mentira, a tudo que não é vida - e ganância pela própria vida, o poder absoluto do desejo.
Mais ainda: sem o conhecimento da escuridão (``conhecimento carnal'') não pode existir o conhecimento da luz (``gnose''). Os dois conhecimentos não são meramente complementares: são idênticos, como a mesma nota tocada em duas oitavas diferentes. Heráclito afirma que a realidade persiste num estado de ``guerra''. Apenas notas opostas podem construir a harmonia. (``O Caos é a soma de todas as ordens.'')
Dê cada um desses quatro termos uma máscara de linguagem diferente (chamar as Fúrias de ``as Gentis'' não é um mero eufemismo, mas uma maneira de revelar ainda mais significados).
Mascarados, ritualizados, percebidos como arte, os termos assumem sua beleza tenebrosa, sua ``Luz Negra''.
Em vez de assassinato, diga caçada, a pura economia paleolítica de todas sociedades tribais arcaicas e não autoritárias - venery, tanto a caça e o consumo da carne quanto o encanto de Vênus, do desejo. Em vez de guerra, diga insurreição, não a revolução de classes e poderes, mas a do eterno rebelde, o sombrio que revela a luz. Em vez de ganância, diga ânsia, desejo inconquistável, amor louco. E, em vez de fome, que é um tipo de mutilação, fale de completitude, inteireza, superanbundância, generosidade do eu sobe em espirais em direção ao Outro.
Sem esse baile de máscaras, nada seria criado. A mais antiga mitologia faz de Eros o primeiro rebento do Caos. Eros, o selvagem que pode domar, é a porta pela qual o artista volta ao Caos, ao Uno, e depois retorna, reaparece novamente, trazendo uma das formas da beleza. O artista, o caçador, o guerreiro: aquele que é ao mesmo tempo apaixonado e equilibrado, ganancioso e altruísta ao extremo. Devemos ser salvos de todas as salvações que querem salvar-nos de nós mesmos, do animal que é também nossa anima, nossa própria força de vida, e também nosso animus, nosso auto-apoderamento vitalizador, que pode até mesmo se manifestar como raiva e ganância.
A BABILÔNIA ensinou-nos que a nossa carne é imunda - escravizou-nos com esse argumento e a promessa de salvação. Mas, se a carne já estiver ``salva'', já for luz - e se até mesmo a própria consciência for um tipo de carne, um éter simultaneamente palpável e vivo -, então não precisamos de nenhum poder para interceder a nosso favor. A selva, como diz Omar, é o paraíso agora mesmo.
A verdadeira posse do assassinato pertence ao Império, pois apenas a liberdade é vida completa. A guerra também é babilônica - nenhuma pessoa livre morrerá pelo engrandecimento de uma outra. A fome passa a existir apenas com a civilização dos salvadores, os reis-padres - não foi José quem ensinou ao faraó a especular sobre as colheitas futuras? A ganância - pela terra, pela riqueza simbólica, pelo poder de deformar os corpos e as almas dos outros para sua própria salvação - a ganância tampouco surge da ``natureza natural'', mas do represamento e da canalização de todas as energia para a glória do Império.
Contra tudo isso, o artista tem o baile de máscaras, a radicalização total da linguagem, a invenção de um ``Terrorismo Poético'' que vai atacar não seres humanos, mas idéias malignas, pesos mortos na tampa do caixão dos nossos desejos. A arquitetura da asfixia e da paralisia será destruída apenas pela nossa celebração total de tudo - incluindo a escuridão.
-- Solstício de Verão, 1986
Conquanto nenhum Stalin fungue em nossos pescoços, por que não fazer alguma arte a serviço de... um insurreição?
Não importa se é ``impossível''. O que mais devemos aspirar atingir senão o ``impossível''? Devemos esperar que outras pessoas revelem nossos verdadeiros desejos?
Se a arte morreu, ou o público desapareceu, então nos encontramos livres de dois pesos mortos. Em potencial, todos nós somos algum tipo de artista - e potencialmente todo público recuperou sua inocência, sua capacidade de tornar-se a arte que experiência.
Desde que possamos escapar dos museus que carregamos dentro de nós mesmos, desde que conseguimos parar de nos vender ingressos para as galerias que existem dentro de nossos próprios crânios, poderemos começar a contemplar uma arte que recrie o objetivo do feiticeiro: mudar a estrutura da realidade pela manipulação dos símbolos vivos (neste caso, as imagens que nos foram ``dadas'' pelos organizadores desse salão - assassinato, guerra, fome e ganância).
Podemos agora contemplar ações estéticas que possuam um pouco da ressonância do terrorismo (ou ``crueldade'', como definiu Artaud) e cujo objetivo é destruir as abstrações em vez de destruir as pessoas, a libertação em vez do poder, o prazer em lugar do lucro, a alegria e não o medo. ``Terrorismo Poético.''
As imagens que escolhemos têm a potência da escuridão - mas todas as imagens são máscaras, e por trás dessas máscaras existem energias que podemos direcionar para a luz e o prazer.
Por exemplo, o homem que inventou o aikido era um samurai que se tornou pacifista e se recusou a lutar pelo imperialismo japonês. Ele acabou virando um eremita, vivia numa montanha sentado sob uma árvore...
Um dia, um ex-colega samurai foi visitá-lo e acusou-o de traição, covardia, etc. O eremita não disse nada, apenas continuou sentado - e então o soldado, irado, puxou sua espada e atacou-o. Espontaneamente, o mestre desarmado tomou a espada do soldado e devolveu-a em seguida. Várias vezes o soldado tentou matá-lo, usando todos os golpes mais sutis de seu repertório - mas a partir de sua mente vazia o eremita inventava, todas as vezes, novas maneiras de desramá-lo.
O soldado, é claro, tornou-se seu primeiro discípulo. Mais tarde, eles aprenderam a esquivarem-se de balas. Podemos contemplar alguma forma de metadrama criado para capturar um pouco do sabor dessa atuação, que deu origem a uma arte totalmente nova, um modo totalmente não violento de luta - guerra sem assassinato - ``a espada da vida'', e não a da morte.
Uma conspiração de artistas, anônima como qualquer bombardeador maluco, mas voltada para um ato de generosidade gratuita no lugar da violência - para o milênio em vez de para o apocalipse - ou, ainda, apontada para o presente momento de choque estético a serviço da realização e liberação.
A arte conta maravilhosas mentiras que se tornam realidade.
É possível criar um TEATRO SECRETO onde o artista quanto a audiência desaparecem completamente - apenas para reaparecer em outro plano, onde a vida e a arte se tornam a mesma coisa, puro oferecimento das dádivas?
II. Assassinato - Guerra - Fome - Ganância
Os Maniqueus e os Cátaros acreditavam que o corpo pode ser espiritualizado - ou melhor, que o corpo simplesmente contamina o espírito puro e portanto deve ser rejeitado totalmente. Os gnósticos perfecti (dualistas radicais) não se alimentavam até morrer para escapar do corpo e retornar ao pleroma da luz pura.
Então: para fugir dos malefícios da carne - assassinato, guerra, fome ganância - paradoxalmente apenas existe um caminho: o assassinato do próprio corpo, guerra contra a carne, fome até a morte, ganância por salvação.
Os monistas radicais, no entanto (ismaelitas, ranters, antinomianos), consideram que corpo e espírito são uma coisa só, que o mesmo espírito que impregna uma pedra negra também infunde a carne com sua luz; que vive e tudo é vida.
``As coisas são o que são espontaneamente... tudo é natural... tudo está em movimento como se existisse um Verdadeiro Senhor para movê-las - mas, se procuramos por evidências desse Senhor, não conseguiremos encontrá-las.'' (Kuo Hsiang)
Paradoxalmente, o caminho monista também não pode ser seguido sem algum tipo de ``assassinato, guerra, fome, ganância'': a transformação da morte em vida (comida, entropia negativa) - guerra contra o Império das Mentiras - ``o jejum da alma'', ou a renúncia à Mentira, a tudo que não é vida - e ganância pela própria vida, o poder absoluto do desejo.
Mais ainda: sem o conhecimento da escuridão (``conhecimento carnal'') não pode existir o conhecimento da luz (``gnose''). Os dois conhecimentos não são meramente complementares: são idênticos, como a mesma nota tocada em duas oitavas diferentes. Heráclito afirma que a realidade persiste num estado de ``guerra''. Apenas notas opostas podem construir a harmonia. (``O Caos é a soma de todas as ordens.'')
Dê cada um desses quatro termos uma máscara de linguagem diferente (chamar as Fúrias de ``as Gentis'' não é um mero eufemismo, mas uma maneira de revelar ainda mais significados).
Mascarados, ritualizados, percebidos como arte, os termos assumem sua beleza tenebrosa, sua ``Luz Negra''.
Em vez de assassinato, diga caçada, a pura economia paleolítica de todas sociedades tribais arcaicas e não autoritárias - venery, tanto a caça e o consumo da carne quanto o encanto de Vênus, do desejo. Em vez de guerra, diga insurreição, não a revolução de classes e poderes, mas a do eterno rebelde, o sombrio que revela a luz. Em vez de ganância, diga ânsia, desejo inconquistável, amor louco. E, em vez de fome, que é um tipo de mutilação, fale de completitude, inteireza, superanbundância, generosidade do eu sobe em espirais em direção ao Outro.
Sem esse baile de máscaras, nada seria criado. A mais antiga mitologia faz de Eros o primeiro rebento do Caos. Eros, o selvagem que pode domar, é a porta pela qual o artista volta ao Caos, ao Uno, e depois retorna, reaparece novamente, trazendo uma das formas da beleza. O artista, o caçador, o guerreiro: aquele que é ao mesmo tempo apaixonado e equilibrado, ganancioso e altruísta ao extremo. Devemos ser salvos de todas as salvações que querem salvar-nos de nós mesmos, do animal que é também nossa anima, nossa própria força de vida, e também nosso animus, nosso auto-apoderamento vitalizador, que pode até mesmo se manifestar como raiva e ganância.
A BABILÔNIA ensinou-nos que a nossa carne é imunda - escravizou-nos com esse argumento e a promessa de salvação. Mas, se a carne já estiver ``salva'', já for luz - e se até mesmo a própria consciência for um tipo de carne, um éter simultaneamente palpável e vivo -, então não precisamos de nenhum poder para interceder a nosso favor. A selva, como diz Omar, é o paraíso agora mesmo.
A verdadeira posse do assassinato pertence ao Império, pois apenas a liberdade é vida completa. A guerra também é babilônica - nenhuma pessoa livre morrerá pelo engrandecimento de uma outra. A fome passa a existir apenas com a civilização dos salvadores, os reis-padres - não foi José quem ensinou ao faraó a especular sobre as colheitas futuras? A ganância - pela terra, pela riqueza simbólica, pelo poder de deformar os corpos e as almas dos outros para sua própria salvação - a ganância tampouco surge da ``natureza natural'', mas do represamento e da canalização de todas as energia para a glória do Império.
Contra tudo isso, o artista tem o baile de máscaras, a radicalização total da linguagem, a invenção de um ``Terrorismo Poético'' que vai atacar não seres humanos, mas idéias malignas, pesos mortos na tampa do caixão dos nossos desejos. A arquitetura da asfixia e da paralisia será destruída apenas pela nossa celebração total de tudo - incluindo a escuridão.
-- Solstício de Verão, 1986
Comunicado #5
``Sadomasoquismo Intelectual é o Fascismo dos Anos 1980 - A Vanguarda Come Merda e Gosta''
CAMARADAS!
Recentemente uma certa confusão sobre ``Caos'', levantada por certos setores revanchistas, importunou a AAO, forçando-nos (a nós, que desprezamos polêmicas) a enfim participar de uma Sessão Plenária devotada para denúncias ex cathedra, nefastas como o inferno; nossas faces de retórica, perdigotos voando de nossos lábios, as veias do pescoço inchadas com o fervor do púlpito. Devemos, por fim, nos resumir com cartazes com slogans raivosos (em caracteres de 1930) declarando o que a Anarquia Ontológica não é.
Lembrem-se de que só na física clássica o Caos tem qualquer coisa a ver com entropia, morte térmica e decadência. Em nossa física (Teoria do Caos), o Caos identifica-se com o Tao, mais além tanto do yin-como-entropia quanto do yang-como-energia, sendo mais um princípio de criação do que qualquer nihil, um vazio no sentido de potentia, não exaustão. (Caos como ``a soma de todas as ordens''.)
Dessa alquimia, quintessencializamos uma teoria estética. A arte do Caos pode ser aterrorizante, pode até atuar num grand guignol, mas jamais pode deixar-se encharcar em negatividade pútrida, tanatologia, schadenfreude (deleite com o sofrimento dos outros), sussurrando sobre memorabilia nazista e assassinatos em série. A Anarquia Ontológica não coleciona filmes pedantes e entedia-se profundamente com elites que vomitam filosofia francesa. (``Não há esperança alguma e eu já sabia disso antes de você, seu merda. Há!'')
Wilhelm Reich foi quase levado à loucura total e assassinado por agentes da Praga Emocional. Talvez metade de sua trabalho deveria da mais absoluta paranóia (conspirações de OVNIs, homofobia, até mesmo sua teoria sobre o orgasmo), MAS em um ponto nós concordamos completamente - sexpol: repressão sexual alimenta a obsessão pela morte, o que leva à más políticas.
Uma grande parte da arte de vanguarda está saturada com Raios de Orgônio Mortal (ROM). A Anarquia Ontológica tem como objetivo construir detonadores de nuvens estéticas (armas-RO) para dispensar o miasma do sadomasoquismo cerebral que hoje em dia é considerado moderno, brilhante, inteligente, o máximo, o novo. Artistas ``performáticos'' automutiladores são para nós banais e estúpidos - sua arte deixa todo mundo mais infeliz. Que tipo de bosta barata conivente... que artistas babacas com cérebro de minhoca prepararam esse cozido apocalíptico?
É claro que a vanguarda parece ``inteligente'' - como Marinetti e os Futuristas, como Pound e Celine. Em comparação com esse tipo de inteligência, preferimos a estupidez real, a idiotice insossa e bucólica do New Age - preferimos ser idiotas a ficar obcecados pela morte. Mas, felizmente, não precisamos esvaziar o cérebro para alcançar nosso tipo raro de satori. Todas as faculdades, todos os nossos sentidos são nossos, nossa propriedade - coração e cabeça, espírito e intelecto, alma e corpo. A nossa não é uma arte de mutilação, mas de excesso, superabundância, assombro.
Os distribuidores da melancolia sem sentido são os Esquadrões da Morte da estética contemporânea - e nós os ``desaparecidos''. Seu salão de bailes de fantasia com ocultos bricabraques do Terceiro Reich e assassinatos de crianças atrai os manipuladores do Espetáculo - a morte fica melhor na TV do que na vida - e nós, artistas do Caos, que pregamos uma alegria rebelde, somos encurralados e mantidos no silêncio.
Não é precisos dizer que rejeitamos toda a censura da Igreja e do Estado - mas, ``depois da revolução'', de bom grado assumiremos a responsabilidade individual e pessoal pela queima de todo o embolorado lixo artístico dos Esquadrões da Morte e pela sua expulsão da cidade em caravana. (No contexto anarquista, a crítica torna-se uma ação direta.) Em meu espaço não cabe em Jesus e seus senhores das moscas nem Charles Manson e seus admiradores literários. Eu não quero nenhuma polícia mundana - nem assassinos cósmicos e seus machados; nenhum massacre com serra elétrica na TV, nenhum sensível romance pós-estruturalista sobre necrofilia.
No momento, a AAO nutre vaguíssimas esperanças de poder sabotar o mecanismo sufocante do Estado e seu circuito fantasmagórico - mas podemos chegar a ser capazes de fazer algo para diminuir as manifestações da praga dos ROM, como os comedores de cadáveres do Lower East Side e outros lixos artísticos. Apoiamos artistas que usam materiais aterradores para alguma ``causa nobre'' - que usam material sexual/afetivo de qualquer tipo, não importa se chocante ou ilegal - que usam sua raiva e asco e seus desejos verdadeiros de caminhar em direção à auto-realização, beleza e aventura. ``Niilismo Social'', sim - mas não o niilismo morto do autodesprezo gnóstico. Mesmo se for violento e abrasivo, qualquer um com um vestígio do terceiro olho consegue enxergar as diferenças entre a arte revolucionária pró-vida e a arte reacionária pró-morte. Os ROM fedem, e o nariz do artista do Caos pode senti-lo da mesma forma que discerne o perfume da alegria espiritual/sexual, mesmo quanto soterrado ou mascarado sob outros odores sombrios. Mesmo a Direita Radical, com todo seu horror da carne e dos sentidos, ocasionalmente aparece com um momento de percepção e aprimoramento da consciência - mas os Esquadrões da Morte, com todo seu cansativo discurso e suas abstrações revolucionárias modernas, oferecem-nos tanta energia libertária quanto o FBI, o FDA e os batistas recalcados.
Vivemos numa sociedade que faz propaganda de suas mercadorias mais caras com imagens de morte e mutilação, enviada diretamente para a parte sub-reptícia do cérebro das multidões através de aparelhos carcinógenos geradores de ondas alfa que distorcem a realidade - enquanto algumas imagens da vida (como a nossa favorita, de uma criança se masturbando) são banidas e punidas com uma ferocidade incrível. Não é preciso coragem para ser um Sádico da Arte, pois a morte libidinosa está no centro estético do Paradigma do Consenso.
``Esquerdistas'' que gostam de se fantasiar e brincar de polícia e ladrão, pessoas que se masturbam olhando para fotos de atrocidades, pessoas que gostam de pensar e intelectualizar sobre a arte ``qualquer jeito'', a pretensiosa falta total de esperança, monstruosidade terrível, as desgraças dos outros - tais ``artistas'' não são nada além de policiais-sem-poder (uma definição perfeita também para muitos ``revolucionários'') Nós temos uma bomba negra para esses fascistas estéticos - ela explode em espuma e estalos, ervas hilariantes e pirataria, estranhas heresias xiitas e fontes paradisíacas borbulhantes, ritmos complexos, pulsações da vida, tudo o que for sem forma e raro.
Acorde! Respire! Sinta o hálito do mundo em sua pele! Aproveite o dia! Respire! Respire!
(Nossos agradecimentos a J. Mander por seu livro Four Arguments for the Abolition Of Television, a Adam Exit e ao mouro cosmopolita de Williamsburg.)
CAMARADAS!
Recentemente uma certa confusão sobre ``Caos'', levantada por certos setores revanchistas, importunou a AAO, forçando-nos (a nós, que desprezamos polêmicas) a enfim participar de uma Sessão Plenária devotada para denúncias ex cathedra, nefastas como o inferno; nossas faces de retórica, perdigotos voando de nossos lábios, as veias do pescoço inchadas com o fervor do púlpito. Devemos, por fim, nos resumir com cartazes com slogans raivosos (em caracteres de 1930) declarando o que a Anarquia Ontológica não é.
Lembrem-se de que só na física clássica o Caos tem qualquer coisa a ver com entropia, morte térmica e decadência. Em nossa física (Teoria do Caos), o Caos identifica-se com o Tao, mais além tanto do yin-como-entropia quanto do yang-como-energia, sendo mais um princípio de criação do que qualquer nihil, um vazio no sentido de potentia, não exaustão. (Caos como ``a soma de todas as ordens''.)
Dessa alquimia, quintessencializamos uma teoria estética. A arte do Caos pode ser aterrorizante, pode até atuar num grand guignol, mas jamais pode deixar-se encharcar em negatividade pútrida, tanatologia, schadenfreude (deleite com o sofrimento dos outros), sussurrando sobre memorabilia nazista e assassinatos em série. A Anarquia Ontológica não coleciona filmes pedantes e entedia-se profundamente com elites que vomitam filosofia francesa. (``Não há esperança alguma e eu já sabia disso antes de você, seu merda. Há!'')
Wilhelm Reich foi quase levado à loucura total e assassinado por agentes da Praga Emocional. Talvez metade de sua trabalho deveria da mais absoluta paranóia (conspirações de OVNIs, homofobia, até mesmo sua teoria sobre o orgasmo), MAS em um ponto nós concordamos completamente - sexpol: repressão sexual alimenta a obsessão pela morte, o que leva à más políticas.
Uma grande parte da arte de vanguarda está saturada com Raios de Orgônio Mortal (ROM). A Anarquia Ontológica tem como objetivo construir detonadores de nuvens estéticas (armas-RO) para dispensar o miasma do sadomasoquismo cerebral que hoje em dia é considerado moderno, brilhante, inteligente, o máximo, o novo. Artistas ``performáticos'' automutiladores são para nós banais e estúpidos - sua arte deixa todo mundo mais infeliz. Que tipo de bosta barata conivente... que artistas babacas com cérebro de minhoca prepararam esse cozido apocalíptico?
É claro que a vanguarda parece ``inteligente'' - como Marinetti e os Futuristas, como Pound e Celine. Em comparação com esse tipo de inteligência, preferimos a estupidez real, a idiotice insossa e bucólica do New Age - preferimos ser idiotas a ficar obcecados pela morte. Mas, felizmente, não precisamos esvaziar o cérebro para alcançar nosso tipo raro de satori. Todas as faculdades, todos os nossos sentidos são nossos, nossa propriedade - coração e cabeça, espírito e intelecto, alma e corpo. A nossa não é uma arte de mutilação, mas de excesso, superabundância, assombro.
Os distribuidores da melancolia sem sentido são os Esquadrões da Morte da estética contemporânea - e nós os ``desaparecidos''. Seu salão de bailes de fantasia com ocultos bricabraques do Terceiro Reich e assassinatos de crianças atrai os manipuladores do Espetáculo - a morte fica melhor na TV do que na vida - e nós, artistas do Caos, que pregamos uma alegria rebelde, somos encurralados e mantidos no silêncio.
Não é precisos dizer que rejeitamos toda a censura da Igreja e do Estado - mas, ``depois da revolução'', de bom grado assumiremos a responsabilidade individual e pessoal pela queima de todo o embolorado lixo artístico dos Esquadrões da Morte e pela sua expulsão da cidade em caravana. (No contexto anarquista, a crítica torna-se uma ação direta.) Em meu espaço não cabe em Jesus e seus senhores das moscas nem Charles Manson e seus admiradores literários. Eu não quero nenhuma polícia mundana - nem assassinos cósmicos e seus machados; nenhum massacre com serra elétrica na TV, nenhum sensível romance pós-estruturalista sobre necrofilia.
No momento, a AAO nutre vaguíssimas esperanças de poder sabotar o mecanismo sufocante do Estado e seu circuito fantasmagórico - mas podemos chegar a ser capazes de fazer algo para diminuir as manifestações da praga dos ROM, como os comedores de cadáveres do Lower East Side e outros lixos artísticos. Apoiamos artistas que usam materiais aterradores para alguma ``causa nobre'' - que usam material sexual/afetivo de qualquer tipo, não importa se chocante ou ilegal - que usam sua raiva e asco e seus desejos verdadeiros de caminhar em direção à auto-realização, beleza e aventura. ``Niilismo Social'', sim - mas não o niilismo morto do autodesprezo gnóstico. Mesmo se for violento e abrasivo, qualquer um com um vestígio do terceiro olho consegue enxergar as diferenças entre a arte revolucionária pró-vida e a arte reacionária pró-morte. Os ROM fedem, e o nariz do artista do Caos pode senti-lo da mesma forma que discerne o perfume da alegria espiritual/sexual, mesmo quanto soterrado ou mascarado sob outros odores sombrios. Mesmo a Direita Radical, com todo seu horror da carne e dos sentidos, ocasionalmente aparece com um momento de percepção e aprimoramento da consciência - mas os Esquadrões da Morte, com todo seu cansativo discurso e suas abstrações revolucionárias modernas, oferecem-nos tanta energia libertária quanto o FBI, o FDA e os batistas recalcados.
Vivemos numa sociedade que faz propaganda de suas mercadorias mais caras com imagens de morte e mutilação, enviada diretamente para a parte sub-reptícia do cérebro das multidões através de aparelhos carcinógenos geradores de ondas alfa que distorcem a realidade - enquanto algumas imagens da vida (como a nossa favorita, de uma criança se masturbando) são banidas e punidas com uma ferocidade incrível. Não é preciso coragem para ser um Sádico da Arte, pois a morte libidinosa está no centro estético do Paradigma do Consenso.
``Esquerdistas'' que gostam de se fantasiar e brincar de polícia e ladrão, pessoas que se masturbam olhando para fotos de atrocidades, pessoas que gostam de pensar e intelectualizar sobre a arte ``qualquer jeito'', a pretensiosa falta total de esperança, monstruosidade terrível, as desgraças dos outros - tais ``artistas'' não são nada além de policiais-sem-poder (uma definição perfeita também para muitos ``revolucionários'') Nós temos uma bomba negra para esses fascistas estéticos - ela explode em espuma e estalos, ervas hilariantes e pirataria, estranhas heresias xiitas e fontes paradisíacas borbulhantes, ritmos complexos, pulsações da vida, tudo o que for sem forma e raro.
Acorde! Respire! Sinta o hálito do mundo em sua pele! Aproveite o dia! Respire! Respire!
(Nossos agradecimentos a J. Mander por seu livro Four Arguments for the Abolition Of Television, a Adam Exit e ao mouro cosmopolita de Williamsburg.)
Comunicado #4
A AAO declara-se oficialmente entediada com o Fim do Mundo. A versão canônica tem sido usada desde 1945 para nos manter acovardados diante do medo da Inevitável Destruição Mútua e em chorosa servidão aos nossos políticos super-heróis ( os únicos capazes de lidar com a fatal Criptonita Verde)...
Qual a importância de termos descoberto uma forma de destruir a vida na Terra? Quase nenhuma. Nós imaginamos isso como uma forma de fuga da contemplação de nossas próprias mortes individuais. Criamos um emblema para servir como imagem-espelho de uma imortalidade descartada. Como ditadores dementes, desfalecemos ao pensar em levar tudo conosco para o fundo do Abismo.
A versão não oficial do Apocalipse envolve uma nostalgia lasciva pelo Fim e por um Éden pós-Holocausto onde os sobreviventes (ou os 144 mil eleitos das Revelações) podem se entregar indolentemente às orgias de histeria dualista, aos intermináveis confrontos finais com um demônio sedutor...
Vimos o fantasma de René Guénon, cadavérico e usando um fez (como Boris Karloff interpretando Ardis Bey em A Múmia), liderando uma funérea banda de rock noise industrial em altos zumbidos de moscas negras pela morte da Cultura e do Cosmos: o fetichismo elitista de niilistas patéticos, o autodesprezo gnóstico dos intelectualóides ``pós-sexuais''.
Não seriam essas baladas sombrias simplesmente imagens-espelhos de todas as mentiras e superficialidades sobre o Progresso e o Futuro, berradas em todos os alto-falantes, e emitidas, no mundo do Consenso, como ondas cerebrais paranóicas de qualquer livro escolar e da TV? A tanatologia dos sofisticados milenaristas brota como pus da falsa saúde do Paraíso de Trabalhadores e Consumidores.
Qualquer um que pode ler a história com os dois hemisférios do cérebro sabe que um mundo termina a todo instante - as ondas do tempo lavam tudo e deixam apenas as memórias de um passado fechado e petrificado - memória imperfeita, ela mesma moribunda e autonal. E a todo instante também é gerado um mundo novo - apesar dos protestos dos filósofos e dos cientistas cujos corpos se paralisaram - uma atualidade na qual todas as impossibilidades se renovam, em que arrependimentos e premonições dissipam-se em nada num único gesto presencial, psicomântrico e hologramático.
O passado ``normativo'' ou a futura morte do universo significam tão pouco para nós quanto o PIB do ano passado ou a degeneração do Estado. Todos os passados Ideais, todos os futuros que ainda não passaram, simplesmente obstruem a nossa consciência da vívida presença total.
Certas seitas acredita, que o mundo (ou ``um'' mundo) já chegou ao fim. Para as Testemunhas de Jeová, aconteceu em 1914 (isso mesmo, senhores, estamos vivendo o Livro das Revelações agora). Para certos ocultistas orientais, aconteceu durante a grande Conjunção dos Planetas em 1962. Joaquim de Fiore proclamou a Terceira Era, a do Espírito Santo, que substituiu a do Pai e do Filho. Hassan II de Alamut proclamou a Grande Ressurreição, a imanência do eschaton, o paraíso na Terra. O tempo profano terminou em algum ponto da Idade Média. Desde então, vivemos em tempos angelicais - só que a maioria de nós não sabe disso.
Ou, partimos de um ponto de vista monista ainda mais radical: o Tempo nunca começou. O Caos nunca morreu. O Império nunca foi fundado. Não somos e nunca fomos escravos do passado ou reféns do futuro.
Sugerimos que o Fim do Mundo seja declarado um fait acompli; a data exata não importa. Os ranters, em 1650, sabiam que o Milênio se inicia agora em cada alma que desperta para si mesma, para o seu próprio centro e divindade. ``Regozije-se, companheiro'', era o cumprimento que usavam. ``Tudo é nosso!''
Eu não quero participar de qualquer outro Fim do Mundo. Um garoto sorri para mim na rua. Um corvo negro pousa numa árvore de magnólias rosadas, grasnando enquanto o orgônio se acumula e é liberado numa fração de segundo sobre a cidade... o verão começa. Eu posso ser seu amante... mas cuspo em cima do seu Milênio.
Qual a importância de termos descoberto uma forma de destruir a vida na Terra? Quase nenhuma. Nós imaginamos isso como uma forma de fuga da contemplação de nossas próprias mortes individuais. Criamos um emblema para servir como imagem-espelho de uma imortalidade descartada. Como ditadores dementes, desfalecemos ao pensar em levar tudo conosco para o fundo do Abismo.
A versão não oficial do Apocalipse envolve uma nostalgia lasciva pelo Fim e por um Éden pós-Holocausto onde os sobreviventes (ou os 144 mil eleitos das Revelações) podem se entregar indolentemente às orgias de histeria dualista, aos intermináveis confrontos finais com um demônio sedutor...
Vimos o fantasma de René Guénon, cadavérico e usando um fez (como Boris Karloff interpretando Ardis Bey em A Múmia), liderando uma funérea banda de rock noise industrial em altos zumbidos de moscas negras pela morte da Cultura e do Cosmos: o fetichismo elitista de niilistas patéticos, o autodesprezo gnóstico dos intelectualóides ``pós-sexuais''.
Não seriam essas baladas sombrias simplesmente imagens-espelhos de todas as mentiras e superficialidades sobre o Progresso e o Futuro, berradas em todos os alto-falantes, e emitidas, no mundo do Consenso, como ondas cerebrais paranóicas de qualquer livro escolar e da TV? A tanatologia dos sofisticados milenaristas brota como pus da falsa saúde do Paraíso de Trabalhadores e Consumidores.
Qualquer um que pode ler a história com os dois hemisférios do cérebro sabe que um mundo termina a todo instante - as ondas do tempo lavam tudo e deixam apenas as memórias de um passado fechado e petrificado - memória imperfeita, ela mesma moribunda e autonal. E a todo instante também é gerado um mundo novo - apesar dos protestos dos filósofos e dos cientistas cujos corpos se paralisaram - uma atualidade na qual todas as impossibilidades se renovam, em que arrependimentos e premonições dissipam-se em nada num único gesto presencial, psicomântrico e hologramático.
O passado ``normativo'' ou a futura morte do universo significam tão pouco para nós quanto o PIB do ano passado ou a degeneração do Estado. Todos os passados Ideais, todos os futuros que ainda não passaram, simplesmente obstruem a nossa consciência da vívida presença total.
Certas seitas acredita, que o mundo (ou ``um'' mundo) já chegou ao fim. Para as Testemunhas de Jeová, aconteceu em 1914 (isso mesmo, senhores, estamos vivendo o Livro das Revelações agora). Para certos ocultistas orientais, aconteceu durante a grande Conjunção dos Planetas em 1962. Joaquim de Fiore proclamou a Terceira Era, a do Espírito Santo, que substituiu a do Pai e do Filho. Hassan II de Alamut proclamou a Grande Ressurreição, a imanência do eschaton, o paraíso na Terra. O tempo profano terminou em algum ponto da Idade Média. Desde então, vivemos em tempos angelicais - só que a maioria de nós não sabe disso.
Ou, partimos de um ponto de vista monista ainda mais radical: o Tempo nunca começou. O Caos nunca morreu. O Império nunca foi fundado. Não somos e nunca fomos escravos do passado ou reféns do futuro.
Sugerimos que o Fim do Mundo seja declarado um fait acompli; a data exata não importa. Os ranters, em 1650, sabiam que o Milênio se inicia agora em cada alma que desperta para si mesma, para o seu próprio centro e divindade. ``Regozije-se, companheiro'', era o cumprimento que usavam. ``Tudo é nosso!''
Eu não quero participar de qualquer outro Fim do Mundo. Um garoto sorri para mim na rua. Um corvo negro pousa numa árvore de magnólias rosadas, grasnando enquanto o orgônio se acumula e é liberado numa fração de segundo sobre a cidade... o verão começa. Eu posso ser seu amante... mas cuspo em cima do seu Milênio.
Comunicado #3
``Preciso apenas mencionar en passant que existe um curioso ressurgimento da tradição de bagres na popular série de filmes Godzilla, surgida após o caos nuclear lançado sobre o Japão. Na verdade, os detalhes simbólicos da evolução Godzilla no cinema de cultura pop são surpreendentemente paralelos aos mais tradicionais e folclóricos temas japoneses e chineses de combate a uma ambivalente criatura do caos (alguns dos filmes, como Mothra, lembram diretamente os antigos motivos do ovo/cabaça/casulo cósmico) que é geralmente domesticada, após o fracasso da ordem civilizada, pela ação especial e indireta de uma criança.'' Girardot , Myth e Meaning in Early Taoism: The Theme of Chaos (hun-tun).
Em algum antigo Templo da Ciência Islâmica (em Chicago ou Baltimore), um antigo amigo afirmou Ter visto um altar secreto no qual descansavam pares combinados de seis revólveres (em caixas de veludo) e um fez negro. Supostamente, a iniciação ao círculo mais secreto requer do neófito mouro o assassino de pelo menos um policial. /// E Louis Lingg? Foi ele um precursor do Anarquismo Ontológico? ``Eu o desprezo'' - não podemos deixar de admitir tais sentimentos. Mas o homem se dinamitou aos 22 anos para enganar a força... esses não é exatamente o caminho que escolhemos.
/// A IDÉIA de POLÍCIA é como a hidra em que crescem cem novas cabeças para cada uma que é decepada - e todas essa cabeças são policiais vivos. Cortar fora as cabeças não nos ajuda em nada, apenas aumenta o poder da besta até que ela nos engula. /// Primeiro assassine a IDÉIA - exploda o monumento dentro de nós - e então, talvez... o equilíbrio do poder se inverterá. Quando o último tira em nosso cérebro for assassinado pelo último desejo não satisfeito - talvez até mesmo a paisagem ao nosso redor comece a mudar... /// O Terrorismo Poético propõe tal sabotagem dos arquétipos como ávidos pela derrubada (por qualquer meio) de toda polícia, aiatolás, banqueiros, carrascos, padres etc., reservamo-nos a opção de venerar até mesmo os ``fracassos'' do excesso radical. /// Uns poucos dias liberto do Império das Mentiras pode muito bem valer um sacrifício considerável; um momento de realização exaltada pode pesar mais do que uma vida inteira de trabalho e tédio microcefálico. /// Mas esse momento deve tornar-se nosso - e nossa posse sobre ele é seriamente comprometida se precisamos cometer suicídio para preservar sua integridade. Então, misturamos ironia à nossa veneração - não é o martírio que propomos, mas a coragem do dinamitador, a autoconfiança de um monstro do Caos, a realização de prazeres criminosos e ilegais.''
Em algum antigo Templo da Ciência Islâmica (em Chicago ou Baltimore), um antigo amigo afirmou Ter visto um altar secreto no qual descansavam pares combinados de seis revólveres (em caixas de veludo) e um fez negro. Supostamente, a iniciação ao círculo mais secreto requer do neófito mouro o assassino de pelo menos um policial. /// E Louis Lingg? Foi ele um precursor do Anarquismo Ontológico? ``Eu o desprezo'' - não podemos deixar de admitir tais sentimentos. Mas o homem se dinamitou aos 22 anos para enganar a força... esses não é exatamente o caminho que escolhemos.
/// A IDÉIA de POLÍCIA é como a hidra em que crescem cem novas cabeças para cada uma que é decepada - e todas essa cabeças são policiais vivos. Cortar fora as cabeças não nos ajuda em nada, apenas aumenta o poder da besta até que ela nos engula. /// Primeiro assassine a IDÉIA - exploda o monumento dentro de nós - e então, talvez... o equilíbrio do poder se inverterá. Quando o último tira em nosso cérebro for assassinado pelo último desejo não satisfeito - talvez até mesmo a paisagem ao nosso redor comece a mudar... /// O Terrorismo Poético propõe tal sabotagem dos arquétipos como ávidos pela derrubada (por qualquer meio) de toda polícia, aiatolás, banqueiros, carrascos, padres etc., reservamo-nos a opção de venerar até mesmo os ``fracassos'' do excesso radical. /// Uns poucos dias liberto do Império das Mentiras pode muito bem valer um sacrifício considerável; um momento de realização exaltada pode pesar mais do que uma vida inteira de trabalho e tédio microcefálico. /// Mas esse momento deve tornar-se nosso - e nossa posse sobre ele é seriamente comprometida se precisamos cometer suicídio para preservar sua integridade. Então, misturamos ironia à nossa veneração - não é o martírio que propomos, mas a coragem do dinamitador, a autoconfiança de um monstro do Caos, a realização de prazeres criminosos e ilegais.''
Comunicado #2
O Memorial Bolo Kallikak e O Caos Ashram: Uma Proposta
Alimentando uma obsessão por trailers Airstream - aqueles clássicos dirigíveis em miniatura sobre rodas - e também pela região de Pine Barrens em Nova Jersey, por suas infindáveis vastidões desertas de riachos arenosos e pinheiros negros, brejos de groselhas silvestres e cidades fantasmas, população em torno de catorze pessoas por milha quadrada, estradas não pavimentadas onde samambaias crescem sem controle, cabanas de pinho e casas sobre rodas, enferrujadas e isoladas, com carros enguiçados no quintal da frente.
Terra dos míticos Kallikaks - famílias da região estudadas pelos eugenistas na década de 1920 para justificar a campanha de esterilização dos pobres da área rural. Alguns Kallikaks fizeram bons casamentos, prosperaram e tornaram-se burgueses, graças aos bons genes - outros, no entanto, nunca tiveram emprego de verdade e viviam dos bosques - incestos, sodomia, deficiências mentais abundantes - fotografias retocadas para fazê-los parecer absortos e morosos - descendentes de índios vagabundos, mercenários de Hesse, ladrões pés-de-chinelo, desertores - degenerados lovecraftianos.
Pensando bem, os Kallikaks talvez tenham produzido alguns seguidores do Caos, percursores do sexo radical, profetas do Trabalho-Zero. Como outras paisagens monótonas (desertos, mares, pântanos), a região de Pine Barrens parece estar imbuída de um poder erótico - que não é nem viril nem orgiástica, mas que transmite uma desordem lânguida, quase um desmazelo da Natureza, como se aquele solo e aquela água fossem feitos de carne sensual, membranas, tecidos esponjosos eréteis. Queremos acampar neste lugar, talvez numa cabana de pesca e caça abandonada com um velho fogão de lenha e banheiro externo - ou em decadentes cabanas de férias em alguma estrada secundária fora de uso - ou simplesmente num lugar onde podemos estacionar dois ou três Airstreams escondidos por detrás dos pinheiros e Perto de um poço grande o suficiente para nadar. Será que os kallikaks estavam por dentro de algo bom? Vamos descobri.
em algum lugar, garotos sonham que extraterrestres virão resgatá-los de suas famílias, talvez desintegrando seus pais com um tipo de raio alienígena. Então, bem... Trama de Seqüestro do Pirata Espacial é Descoberta - ``Alienígena'' Desmascarado é Poeta Homossexual Xiita Fanático - OVNIs avistados sobre Pine Barrens - ``Garotos Perdidos Deixarão a Terra'', afirma Hakim Bey, o Assim Chamado Profeta do Caos.
garotos fugitivos, bagunça e desordem, êxtase e Indolência, nadar nus, infância como insurreição permanente - coleções de sapos, lesmas, folhas - mijar da lua - 11, 12, 13 - crescidos o suficiente para tomar as rédeas da própria história da mão dos pais, da escola, da previdência social, da TV - Venham viver conosco no Pine Barrens - nós cultivaremos um tipo local de beberagem para financiar nossa luxúria e contemplação da alquimia do verão - e além disso não produziremos nada a não ser artefatos de Terrorismo-Poético e recordações de nossos prazeres.
dar voltas sem destino na velha picape, pescar e coletar alimentos, deitar na sombra lendo quadrinhos e comendo uvas - essa é a nossa Economia. A realidade das coisas quando libertas da Lei, cada molécula uma orquídea, cada átomo uma pérola para a consciência alerta - esse é nosso culto. O Airstream tem tapetes persa em todas suas paredes, a grama está cheia de ervas satisfeitas.
a casa na árvore torna-se uma nave espacial na nudez de julho e à meia-noite, semi-aberta às estrelas, aquecidas por um suor epicuriano, apressada e depois tranqüilizada pela respiração dos pinheirais.
(Caro Diário de Bordo Bolo: Você pediu uma utopia prática e possível - aqui está ela, não apenas uma fantasia pós-holocausto, nada de castelos da lua de Júpiter - um esquema que poderíamos adotar amanhã - a não ser pelo fato de que todos os seus aspectos violam certas leias, revelam alguns dos tabus absolutos da sociedade norte-americana, ameaçam a própria trama social etc. etc. etc. Azar. Esse é nosso desejo verdadeiro e para realizá-lo precisamos contemplar não apenas uma vida de arte pura, mas também o crime puro, a insurreição pura. Amém.)
(Nossos agradecimentos a Grim Reaper e a outros membros do Templo Si Fan da Divina Providência em prol de YALU, GANO, SILA e suas idéias.)
Alimentando uma obsessão por trailers Airstream - aqueles clássicos dirigíveis em miniatura sobre rodas - e também pela região de Pine Barrens em Nova Jersey, por suas infindáveis vastidões desertas de riachos arenosos e pinheiros negros, brejos de groselhas silvestres e cidades fantasmas, população em torno de catorze pessoas por milha quadrada, estradas não pavimentadas onde samambaias crescem sem controle, cabanas de pinho e casas sobre rodas, enferrujadas e isoladas, com carros enguiçados no quintal da frente.
Terra dos míticos Kallikaks - famílias da região estudadas pelos eugenistas na década de 1920 para justificar a campanha de esterilização dos pobres da área rural. Alguns Kallikaks fizeram bons casamentos, prosperaram e tornaram-se burgueses, graças aos bons genes - outros, no entanto, nunca tiveram emprego de verdade e viviam dos bosques - incestos, sodomia, deficiências mentais abundantes - fotografias retocadas para fazê-los parecer absortos e morosos - descendentes de índios vagabundos, mercenários de Hesse, ladrões pés-de-chinelo, desertores - degenerados lovecraftianos.
Pensando bem, os Kallikaks talvez tenham produzido alguns seguidores do Caos, percursores do sexo radical, profetas do Trabalho-Zero. Como outras paisagens monótonas (desertos, mares, pântanos), a região de Pine Barrens parece estar imbuída de um poder erótico - que não é nem viril nem orgiástica, mas que transmite uma desordem lânguida, quase um desmazelo da Natureza, como se aquele solo e aquela água fossem feitos de carne sensual, membranas, tecidos esponjosos eréteis. Queremos acampar neste lugar, talvez numa cabana de pesca e caça abandonada com um velho fogão de lenha e banheiro externo - ou em decadentes cabanas de férias em alguma estrada secundária fora de uso - ou simplesmente num lugar onde podemos estacionar dois ou três Airstreams escondidos por detrás dos pinheiros e Perto de um poço grande o suficiente para nadar. Será que os kallikaks estavam por dentro de algo bom? Vamos descobri.
em algum lugar, garotos sonham que extraterrestres virão resgatá-los de suas famílias, talvez desintegrando seus pais com um tipo de raio alienígena. Então, bem... Trama de Seqüestro do Pirata Espacial é Descoberta - ``Alienígena'' Desmascarado é Poeta Homossexual Xiita Fanático - OVNIs avistados sobre Pine Barrens - ``Garotos Perdidos Deixarão a Terra'', afirma Hakim Bey, o Assim Chamado Profeta do Caos.
garotos fugitivos, bagunça e desordem, êxtase e Indolência, nadar nus, infância como insurreição permanente - coleções de sapos, lesmas, folhas - mijar da lua - 11, 12, 13 - crescidos o suficiente para tomar as rédeas da própria história da mão dos pais, da escola, da previdência social, da TV - Venham viver conosco no Pine Barrens - nós cultivaremos um tipo local de beberagem para financiar nossa luxúria e contemplação da alquimia do verão - e além disso não produziremos nada a não ser artefatos de Terrorismo-Poético e recordações de nossos prazeres.
dar voltas sem destino na velha picape, pescar e coletar alimentos, deitar na sombra lendo quadrinhos e comendo uvas - essa é a nossa Economia. A realidade das coisas quando libertas da Lei, cada molécula uma orquídea, cada átomo uma pérola para a consciência alerta - esse é nosso culto. O Airstream tem tapetes persa em todas suas paredes, a grama está cheia de ervas satisfeitas.
a casa na árvore torna-se uma nave espacial na nudez de julho e à meia-noite, semi-aberta às estrelas, aquecidas por um suor epicuriano, apressada e depois tranqüilizada pela respiração dos pinheirais.
(Caro Diário de Bordo Bolo: Você pediu uma utopia prática e possível - aqui está ela, não apenas uma fantasia pós-holocausto, nada de castelos da lua de Júpiter - um esquema que poderíamos adotar amanhã - a não ser pelo fato de que todos os seus aspectos violam certas leias, revelam alguns dos tabus absolutos da sociedade norte-americana, ameaçam a própria trama social etc. etc. etc. Azar. Esse é nosso desejo verdadeiro e para realizá-lo precisamos contemplar não apenas uma vida de arte pura, mas também o crime puro, a insurreição pura. Amém.)
(Nossos agradecimentos a Grim Reaper e a outros membros do Templo Si Fan da Divina Providência em prol de YALU, GANO, SILA e suas idéias.)
Comunicado #1 (Primavera de 1986)
I. Slogans e Motes para Pichar no Metrô e para Outros Propósitos
COSMOPOLITISMO DESENRAIZADO
TERRORISMO POÉTICO
(para rabiscar ou carimbar em outdoors publicitários:)
ESTE É O SEU VERDADEIRO DESEJO
MARXISMO-STIRNERISMO
ENTRE EM GREVE PELA INDOLÊNCIA e BELEZA ESPIRITUAL
CRIANCINHAS TÊM PÉS LINDOS
AS CORRENTES DA LEI FORAM QUEBRADAS
PORNOGRAFIA TÂNTRICA
ARISTOCRATISMO RADICAL
GUERRILHA URBANA PARA A LIBERTAÇÃO DAS CRIANÇAS
XIITAS FANÁTICOS IMAGINÁRIOS
BOLO’BOLO
SIONISMO GAY
(SODOMA PARA OS SODOMITAS)
UTOPIAS PIRATAS
O CAOS NUNCA MORREU
Alguns desses slogans da Associação para a Anarquia Ontológica (AAO) são ``sinceros'' - outros têm como objetivo despertar temores e apreensão pública - mas não sabemos bem qual é qual. Nossos agradecimentos a Stalin, Anon, Bob Black, Pir Hassan (ao seu nome ser mencionado, que reine em paz), F. Nietzsche, Hank Purcell Jr., ``P.M.'' e irmãos Abu Jehad al-Salah do Templo Islâmico de Dagon.
II. Algumas Idéias Poético-Terroristas que ainda Continuam em Triste Languidez no Reino da ``Arte Conceitual''
Entre na área dos caixas eletrônicos do Citibank ou do Chembank numa hora de muito movimento, cague no chão e vá embora.
Chicago, Maio de 1886: organize uma procissão ``religiosa'' para os ``mártires'' do Haymarket - grandes faixas com retratos sentimentais coroados com flores e transbordando de fitas e lantejoulas, carregadas por penitentes vestidos em trajes com capuzes negros no estilo KKKatólico - escandalosos e efeminados acólitos de TV borrifam a multidão com água benta e incenso - anarquistas com rostos emplastrados de cinzas flagelam-se com pequenos relhos e chicotes - um ``Papa'' de túnica negra abençoa minúsculos caixões simbólicos carregados reverentemente para o cemitério por punks chorosos. Um espetáculo desse tipo deve ofender quase todo mundo.
Cole em lugares públicos um cartaz xerocado com a foto de um lindo garoto de 12 anos, nu e se masturbando, com o título bem à vista: A FACE DE DEUS.
Envie elaboradas e requintadas ``bênçãos'' mágicas pelo correio, anonimamente, para pessoas ou os grupos que você admira, por exemplo, por sua capacidade política ou espiritual, por sua beleza física ou por seu sucesso no mundo do crime etc. Siga o mesmo procedimento descrito no item 5 a seguir, mas utilize uma estética de bons votos, amor ou felicidade, o que for mais apropriado.
Rogue uma praga horrível contra uma instituição maligna, tal como o New York Post ou a empresa MUZAK. Aqui, uma técnica adaptada dos feiticeiros da Malásia: envie para a empresa um pacote com uma garrafa tampada e selada com cera negra. E dentro dela: insetos mortos, escorpiões, lagartos e coisas do tipo; um saco com terra de cemitério (``gris-gris'' na terminologia vodu), junto com outras substâncias nocivas; um ovo perfurado por pregos e alfinetes de ferro; um pergaminho onde está desenhado um emblema.
(Esse iantra ou veve invoca o Djim Negro, a sombra do Eu. Detalhes completos podem ser obtidos na AAO.) Um bilhete explica que a bruxaria é contra a instituição e não contra os indivíduos - mas, a menos que a instituição deixe de ser maligna, a praga (como um espelho) começará a infectar as dependências com um destino terrível, um miasma de negatividade. Prepare um ``comunicado'' explicando a maldição e atribuindo a sua autoridade à Sociedade Poética Americana. Envie cópias para todos os empregados da instituição e para a mídia. Na noite anterior à chegada dessas cartas, cole nas paredes da instituição cópias do emblema do Djim Negro em locais que sejam visíveis a todos os empregados quando eles chegarem ao trabalho pela manhã.
(Nossos agradecimentos novamente a Abu Jehad e a Sri Anamananda - o Castelão Mouro do Belvedere Weather Tower - e aos outros camaradas da zona autônoma do Central Park e do Templo Número 1 do Brooklyn.)
COSMOPOLITISMO DESENRAIZADO
TERRORISMO POÉTICO
(para rabiscar ou carimbar em outdoors publicitários:)
ESTE É O SEU VERDADEIRO DESEJO
MARXISMO-STIRNERISMO
ENTRE EM GREVE PELA INDOLÊNCIA e BELEZA ESPIRITUAL
CRIANCINHAS TÊM PÉS LINDOS
AS CORRENTES DA LEI FORAM QUEBRADAS
PORNOGRAFIA TÂNTRICA
ARISTOCRATISMO RADICAL
GUERRILHA URBANA PARA A LIBERTAÇÃO DAS CRIANÇAS
XIITAS FANÁTICOS IMAGINÁRIOS
BOLO’BOLO
SIONISMO GAY
(SODOMA PARA OS SODOMITAS)
UTOPIAS PIRATAS
O CAOS NUNCA MORREU
Alguns desses slogans da Associação para a Anarquia Ontológica (AAO) são ``sinceros'' - outros têm como objetivo despertar temores e apreensão pública - mas não sabemos bem qual é qual. Nossos agradecimentos a Stalin, Anon, Bob Black, Pir Hassan (ao seu nome ser mencionado, que reine em paz), F. Nietzsche, Hank Purcell Jr., ``P.M.'' e irmãos Abu Jehad al-Salah do Templo Islâmico de Dagon.
II. Algumas Idéias Poético-Terroristas que ainda Continuam em Triste Languidez no Reino da ``Arte Conceitual''
Entre na área dos caixas eletrônicos do Citibank ou do Chembank numa hora de muito movimento, cague no chão e vá embora.
Chicago, Maio de 1886: organize uma procissão ``religiosa'' para os ``mártires'' do Haymarket - grandes faixas com retratos sentimentais coroados com flores e transbordando de fitas e lantejoulas, carregadas por penitentes vestidos em trajes com capuzes negros no estilo KKKatólico - escandalosos e efeminados acólitos de TV borrifam a multidão com água benta e incenso - anarquistas com rostos emplastrados de cinzas flagelam-se com pequenos relhos e chicotes - um ``Papa'' de túnica negra abençoa minúsculos caixões simbólicos carregados reverentemente para o cemitério por punks chorosos. Um espetáculo desse tipo deve ofender quase todo mundo.
Cole em lugares públicos um cartaz xerocado com a foto de um lindo garoto de 12 anos, nu e se masturbando, com o título bem à vista: A FACE DE DEUS.
Envie elaboradas e requintadas ``bênçãos'' mágicas pelo correio, anonimamente, para pessoas ou os grupos que você admira, por exemplo, por sua capacidade política ou espiritual, por sua beleza física ou por seu sucesso no mundo do crime etc. Siga o mesmo procedimento descrito no item 5 a seguir, mas utilize uma estética de bons votos, amor ou felicidade, o que for mais apropriado.
Rogue uma praga horrível contra uma instituição maligna, tal como o New York Post ou a empresa MUZAK. Aqui, uma técnica adaptada dos feiticeiros da Malásia: envie para a empresa um pacote com uma garrafa tampada e selada com cera negra. E dentro dela: insetos mortos, escorpiões, lagartos e coisas do tipo; um saco com terra de cemitério (``gris-gris'' na terminologia vodu), junto com outras substâncias nocivas; um ovo perfurado por pregos e alfinetes de ferro; um pergaminho onde está desenhado um emblema.
(Esse iantra ou veve invoca o Djim Negro, a sombra do Eu. Detalhes completos podem ser obtidos na AAO.) Um bilhete explica que a bruxaria é contra a instituição e não contra os indivíduos - mas, a menos que a instituição deixe de ser maligna, a praga (como um espelho) começará a infectar as dependências com um destino terrível, um miasma de negatividade. Prepare um ``comunicado'' explicando a maldição e atribuindo a sua autoridade à Sociedade Poética Americana. Envie cópias para todos os empregados da instituição e para a mídia. Na noite anterior à chegada dessas cartas, cole nas paredes da instituição cópias do emblema do Djim Negro em locais que sejam visíveis a todos os empregados quando eles chegarem ao trabalho pela manhã.
(Nossos agradecimentos novamente a Abu Jehad e a Sri Anamananda - o Castelão Mouro do Belvedere Weather Tower - e aos outros camaradas da zona autônoma do Central Park e do Templo Número 1 do Brooklyn.)
Comunicados da AAO
Comunicado #1 (Primavera de 1986)
I. Slogans e Motes para Pichar no Metrô e para Outros Propósitos
II. Algumas Idéias Poético-Terroristas que ainda Continuam em Triste Languidez no Reino da ``Arte Conceitual''
Comunicado #2
O Memorial Bolo Kallikak e O Caos Ashram: Uma Proposta
Comunicado #3
O Tema Haymarket
Comunicado #4
O Fim do Mundo
Comunicado #5
``Sadomasoquismo Intelectual é o Fascismo dos Anos 1980 - A Vanguarda Come Merda e Gosta''
Comunicado #6
I. São do Apocalipse: ``Teatro Secreto''
II. Assassinato - Guerra - Fome - Ganância
Comunicado #7
Paleolitismo Psíquico e Alta Tecnologia: Um Ensaio de Posicionamento
Comunicado #8
A Teoria do Caos e A Família Nuclear
Comunicado #9
Duplas Denúncias
I. Kristianismo
II. Pró-aborto e Antiaborto
Comunicado #10
Sessão Plenária Levantas Novas Denúncias - Expurgos são Esperados
Comunicado #11
Especial e Bombástica Declaração de Férias Sobre Alimentos: Abaixo o Light!
Comunicado Especial do Dia das Bruxas
Magia Negra como Ação Revolucionária
Comunicado Especial
A AAO Anuncia Expurgos no Movimento do Caos
I. Slogans e Motes para Pichar no Metrô e para Outros Propósitos
II. Algumas Idéias Poético-Terroristas que ainda Continuam em Triste Languidez no Reino da ``Arte Conceitual''
Comunicado #2
O Memorial Bolo Kallikak e O Caos Ashram: Uma Proposta
Comunicado #3
O Tema Haymarket
Comunicado #4
O Fim do Mundo
Comunicado #5
``Sadomasoquismo Intelectual é o Fascismo dos Anos 1980 - A Vanguarda Come Merda e Gosta''
Comunicado #6
I. São do Apocalipse: ``Teatro Secreto''
II. Assassinato - Guerra - Fome - Ganância
Comunicado #7
Paleolitismo Psíquico e Alta Tecnologia: Um Ensaio de Posicionamento
Comunicado #8
A Teoria do Caos e A Família Nuclear
Comunicado #9
Duplas Denúncias
I. Kristianismo
II. Pró-aborto e Antiaborto
Comunicado #10
Sessão Plenária Levantas Novas Denúncias - Expurgos são Esperados
Comunicado #11
Especial e Bombástica Declaração de Férias Sobre Alimentos: Abaixo o Light!
Comunicado Especial do Dia das Bruxas
Magia Negra como Ação Revolucionária
Comunicado Especial
A AAO Anuncia Expurgos no Movimento do Caos
Publicidade
O que isso diz a você não é prosa. Pode ser pendurado no quadro de avisos, mas ainda está vivo e retorcendo-se. Não pretende seduzi-lo, a não ser que você seja de extrema juventude e beleza (anexe uma foto recente).
Hakim Bey mora num decadente hotel chinês onde os proprietários balançam a cabeça de um lado para o outro enquanto lêem os jornais e escutam transmissões estridentes da Ópera de Pequim. O ventilador de teto gira como um dervixe indolente - suor pinga sobre a página - o cafetã do poeta está encardido, seus cinzeiros derramam cinzas no tapete - seus monólogos parecem desconexos e levemente sinistros - por trás das janelas fechadas, o gueto desaparece entre palmeiras, o ingênuo oceano azul, a filosofia do tropicalismo.
Numa estrada em algum lugar a leste de Baltimore, você passa por um trailer Airstream, e enxerga uma grande placa plantada na grama: LEITURAS ESPIRITUAIS, com a imagem de uma rude mão negra sobre um fundo vermelho. Lá dentro, você encontra livros sobre sonhos e numerologia, panfletos sobre vodu e macumba, revistas de nudismo velhas e empoeiradas, um pilha de Boy's Life, tratados sobre briga de galos... e este livro, Caos. Como palavras ditas num sonho, portentosas, evanescentes, transformando-se em perfumes, pássaros, cores, música esquecida.
Este livro se mantém a distância por uma certa impassibilidade em sua superfície, quase que visível através de um vidro. Ele não abana o rabo e não grunhe, mas morde e estraga a mobília. Ele não tem um número ISBN e não o quer como discípulo, mas pode seqüestrar seus filhos.
Este livro é nervoso como o café ou a malária - ele cria, entre si e seus leitores, uma rede de desertores e outsiders - mas é tão cara-de-pau eliteral que praticamente se codifica - fuma a si próprio em estupor.
Uma máscara, uma automitologia, um mapa sem nome de lugar algum - hirto como uma pintura egípcia que, no entanto, logra acariciar o rosto de alguém e, de repente, encontra-se na rua, num corpo, envolvido em luz, andando, acordado, quase satisfeito.
-- Nova York, 1 de maio a 4 de julho de 1984
Hakim Bey mora num decadente hotel chinês onde os proprietários balançam a cabeça de um lado para o outro enquanto lêem os jornais e escutam transmissões estridentes da Ópera de Pequim. O ventilador de teto gira como um dervixe indolente - suor pinga sobre a página - o cafetã do poeta está encardido, seus cinzeiros derramam cinzas no tapete - seus monólogos parecem desconexos e levemente sinistros - por trás das janelas fechadas, o gueto desaparece entre palmeiras, o ingênuo oceano azul, a filosofia do tropicalismo.
Numa estrada em algum lugar a leste de Baltimore, você passa por um trailer Airstream, e enxerga uma grande placa plantada na grama: LEITURAS ESPIRITUAIS, com a imagem de uma rude mão negra sobre um fundo vermelho. Lá dentro, você encontra livros sobre sonhos e numerologia, panfletos sobre vodu e macumba, revistas de nudismo velhas e empoeiradas, um pilha de Boy's Life, tratados sobre briga de galos... e este livro, Caos. Como palavras ditas num sonho, portentosas, evanescentes, transformando-se em perfumes, pássaros, cores, música esquecida.
Este livro se mantém a distância por uma certa impassibilidade em sua superfície, quase que visível através de um vidro. Ele não abana o rabo e não grunhe, mas morde e estraga a mobília. Ele não tem um número ISBN e não o quer como discípulo, mas pode seqüestrar seus filhos.
Este livro é nervoso como o café ou a malária - ele cria, entre si e seus leitores, uma rede de desertores e outsiders - mas é tão cara-de-pau eliteral que praticamente se codifica - fuma a si próprio em estupor.
Uma máscara, uma automitologia, um mapa sem nome de lugar algum - hirto como uma pintura egípcia que, no entanto, logra acariciar o rosto de alguém e, de repente, encontra-se na rua, num corpo, envolvido em luz, andando, acordado, quase satisfeito.
-- Nova York, 1 de maio a 4 de julho de 1984
Feitiçaria
O universo quer brincar. Aqueles que por ganância espiritual se recusam a jogar e escolhem a pura contemplação negligenciam sua humanidade - aqueles que evitam a brincadeira por causa de uma angústia tola, aqueles que hesitam, desperdiçam sua oportunidade de divindade - aqueles que fabricam para si máscaras cegas de Idéias e vagam por aí à procura de uma prova para sua própria solidez acabam vendo o mundo através dos olhos de um morto.
Feitiçaria: o cultivo sistemático de uma consciência aprimorada ou de uma percepção incomum e sua aplicação no mundo das ações e objetos a fim de se conseguir os resultados desejados.
O aumento da amplitude da percepção gradualmente bane os falsos eus, nossos fantasmas cacofônicos - a ``magia negra'' da inveja e da vingança volta-se contra o autor porque o Desejo não pode ser forçado. Quando o nosso conhecimento da beleza harmoniza-se com o ludus naturae, a feitiçaria começa.
Não, não se trata de entortar colheres ou fazer horóscopos, não é a ``Aurora Dourada'' nem um xamanismo de brincadeira, projeção astral ou uma Missa Satânica - se você quer mistificação, procure as coisas reais, bancos, política, ciência social - não esta baboseira barata da Madame Blavatsky.
A feitiçaria funciona criando ao redor de si um espaço físico/psíquico ou aberturas para um espaço de expressão sem barreiras - a metamorfose do lugar cotidiano numa esfera angelical. Isso envolve a manipulação de símbolos (que também são coisas) e de pessoas (que também são simbólicas) - os arquétipos fornecem um vocabulário para esse processo e portanto, são tratados ao mesmo tempo como reais e irreais, como as palavras. Ioga da Imagem.
O feiticeiro é um Autêntico Realista: o mundo é real - mas a consciência também o deve ser, já que seus efeitos são tão tangíveis. Um obtuso acha que até mesmo o vinho não tem gosto, mas o feiticeiro pode se embriagar simplesmente olhando para a água. A qualidade da percepção define o mundo do inebriamento - mas, sustentá-lo e expandi-lo, para incluir os outros, exige um certo tipo de atividade - feitiçaria.
A feitiçaria não infringe nenhuma lei da natureza porque não existe nenhuma Lei Natural, apenas a espontaneidade da natura naturans, o Tao. A feitiçaria viola as leis que procuram deter se fluxo - padres, reais, hierofantes, místicos, cientistas e vendedores consideram a feitiçaria uma inimiga porque ela representa uma ameaça ao poder de suas charadas e à resistência de sua teia ilusória.
Um poema pode agir como um feitiço e vice-versa - mas a feitiçaria recusa-se a ser uma metáfora para uma mera literatura - ela insiste que os símbolos devem provocar incidentes assim como epifanias particulares. Não é uma crítica, mas um refazer. Ela rejeita toda escatologia e metafísica da remoção, tudo que é apenas nostalgia turva e futurismo estridente, em favor de um paroxismo ou captura da presença.
Incenso e cristal, adaga e espada, certo, túnicas, rum, charutos, velas, ervas como sonhos secos - o garoto virgem com olhar fixo num pote de tinta - vinho e haxixe, carne, iantras e rituais de prazer, o jardim de huris e sagüis - o feiticeiro escala essas serpentes e escadas até o momento totalmente saturado por sua própria cor, em que montanhas são montanhas e árvores são árvores, em que o corpo torna-se eternidade e o amado torna-se vastidão.
As táticas do anarquismo ontológico estão enraizadas nesta Arte secreta - os objetivos ao anarquismo ontológico aparecem no seu florescimento. O Caos enfeitiça seus inimigos e recompensa seus devotos... este estranho panfleto amarelado, pseudonímico e manchado de pó, revela tudo... passe-o adiante por um segundo de eternidade.
Feitiçaria: o cultivo sistemático de uma consciência aprimorada ou de uma percepção incomum e sua aplicação no mundo das ações e objetos a fim de se conseguir os resultados desejados.
O aumento da amplitude da percepção gradualmente bane os falsos eus, nossos fantasmas cacofônicos - a ``magia negra'' da inveja e da vingança volta-se contra o autor porque o Desejo não pode ser forçado. Quando o nosso conhecimento da beleza harmoniza-se com o ludus naturae, a feitiçaria começa.
Não, não se trata de entortar colheres ou fazer horóscopos, não é a ``Aurora Dourada'' nem um xamanismo de brincadeira, projeção astral ou uma Missa Satânica - se você quer mistificação, procure as coisas reais, bancos, política, ciência social - não esta baboseira barata da Madame Blavatsky.
A feitiçaria funciona criando ao redor de si um espaço físico/psíquico ou aberturas para um espaço de expressão sem barreiras - a metamorfose do lugar cotidiano numa esfera angelical. Isso envolve a manipulação de símbolos (que também são coisas) e de pessoas (que também são simbólicas) - os arquétipos fornecem um vocabulário para esse processo e portanto, são tratados ao mesmo tempo como reais e irreais, como as palavras. Ioga da Imagem.
O feiticeiro é um Autêntico Realista: o mundo é real - mas a consciência também o deve ser, já que seus efeitos são tão tangíveis. Um obtuso acha que até mesmo o vinho não tem gosto, mas o feiticeiro pode se embriagar simplesmente olhando para a água. A qualidade da percepção define o mundo do inebriamento - mas, sustentá-lo e expandi-lo, para incluir os outros, exige um certo tipo de atividade - feitiçaria.
A feitiçaria não infringe nenhuma lei da natureza porque não existe nenhuma Lei Natural, apenas a espontaneidade da natura naturans, o Tao. A feitiçaria viola as leis que procuram deter se fluxo - padres, reais, hierofantes, místicos, cientistas e vendedores consideram a feitiçaria uma inimiga porque ela representa uma ameaça ao poder de suas charadas e à resistência de sua teia ilusória.
Um poema pode agir como um feitiço e vice-versa - mas a feitiçaria recusa-se a ser uma metáfora para uma mera literatura - ela insiste que os símbolos devem provocar incidentes assim como epifanias particulares. Não é uma crítica, mas um refazer. Ela rejeita toda escatologia e metafísica da remoção, tudo que é apenas nostalgia turva e futurismo estridente, em favor de um paroxismo ou captura da presença.
Incenso e cristal, adaga e espada, certo, túnicas, rum, charutos, velas, ervas como sonhos secos - o garoto virgem com olhar fixo num pote de tinta - vinho e haxixe, carne, iantras e rituais de prazer, o jardim de huris e sagüis - o feiticeiro escala essas serpentes e escadas até o momento totalmente saturado por sua própria cor, em que montanhas são montanhas e árvores são árvores, em que o corpo torna-se eternidade e o amado torna-se vastidão.
As táticas do anarquismo ontológico estão enraizadas nesta Arte secreta - os objetivos ao anarquismo ontológico aparecem no seu florescimento. O Caos enfeitiça seus inimigos e recompensa seus devotos... este estranho panfleto amarelado, pseudonímico e manchado de pó, revela tudo... passe-o adiante por um segundo de eternidade.
Crime
A justiça não pode ser obtida sob nenhuma Lei que seja - uma ação que está de com a natureza espontânea, uma ação justa, não pode ser definida por dogmas. Os crimes defendidos nestes panfletos não podem ser cometidos contra o ``si mesmo'' ou o ``outro'', mas apenas contra a mordaz cristalização de Idéias em estruturas de Tronos e Dominações venenosas.
Ou seja, não crimes contra a natureza ou contra a humanidade, mas contra a ordem legal. Mais cedo ou mais tarde, o descobrimento e a revelação de ser/natureza transformam uma pessoa num bandoleiro - como se ela visitasse outros mundos e, ao retornar, descobrisse que foi declarada traidora, herege, um ser exilado.
A Lei espera até que você tropece num modo de ser, uma alma diferente do padrão de ``carne apropriada para consumo'' aprovado pelo Sistema de Inspeção Federal - e, assim que você começa a agir de acordo com a natureza, a Lei o garroteia e o estrangula - portanto, não dê uma de mártir abençoado e liberal da classe média - aceite o fato de que você é um criminoso e esteja preparado para agir como tal.
Paradoxo: adotar o Caos não é escorregar para a entropia, mas emergir para uma energia semelhante à das estrelas, um espécime de graça instantânea - uma organização orgânica espontânea completamente diferente das pirâmides sociais putrefatas dos sultão, muftis, cádis e carrascos.
Depois do Caos, vem o Eros - o princípio da ordem implícito no vazio do Uno inqualificável. O amor é estrutura, sistema, o único código não contaminado pela escravidão e pelo sono drogado. Precisamos nos tornar vigaristas e persuasivos para proteger sua beleza espiritual num bisel de clandestinidade, num secreto jardim de espionagem.
Não apenas sobreviva, enquanto espera que a revolução de alguém ilumine as suas idéias, não se aliste no exército da anorexia ou bulimia - aja como se já fosse livre, calcule as probabilidades, pule fora, lembre-se das regras de duelo - Fume Maconha/Coma Galinha/Tome Chá. Todo homem tem sua própria vinha e sua figueira (Circle Seven Koran, Noble Drew Ali) - carregue seu passaporte mouro com orgulho, não fique parado no meio do fogo cruzado, proteja-se - mas arrisque-se, dance antes que fique calcificado.
O modelo social natural para o anarquismo ontológico é uma gangue de crianças ou um bando de ladrões de banco. O dinheiro é uma mentira - esta aventura deve ser possível sem ele - o resultado das pilhagens e saques deve ser gasto antes que se torne pó novamente. Hoje é o Dia da Ressurreição - o dinheiro gasto com a beleza será alquimicamente transformado num elixir. Como o meu tio Melvin dizia, melancias roubadas são mais doces.
O mundo já foi recriado segundo o desejo do coração - mas a civilização é dona de todas as locações e da maioria das armas. Nossos anjos ferozes exigem que invadamos a propriedade alheia, porque se manifestam apenas em solo proibido. O Ladrão de Estrada. A ioga da clandestinidade, o assalto relâmpago, o desfrute do tesouro.
Ou seja, não crimes contra a natureza ou contra a humanidade, mas contra a ordem legal. Mais cedo ou mais tarde, o descobrimento e a revelação de ser/natureza transformam uma pessoa num bandoleiro - como se ela visitasse outros mundos e, ao retornar, descobrisse que foi declarada traidora, herege, um ser exilado.
A Lei espera até que você tropece num modo de ser, uma alma diferente do padrão de ``carne apropriada para consumo'' aprovado pelo Sistema de Inspeção Federal - e, assim que você começa a agir de acordo com a natureza, a Lei o garroteia e o estrangula - portanto, não dê uma de mártir abençoado e liberal da classe média - aceite o fato de que você é um criminoso e esteja preparado para agir como tal.
Paradoxo: adotar o Caos não é escorregar para a entropia, mas emergir para uma energia semelhante à das estrelas, um espécime de graça instantânea - uma organização orgânica espontânea completamente diferente das pirâmides sociais putrefatas dos sultão, muftis, cádis e carrascos.
Depois do Caos, vem o Eros - o princípio da ordem implícito no vazio do Uno inqualificável. O amor é estrutura, sistema, o único código não contaminado pela escravidão e pelo sono drogado. Precisamos nos tornar vigaristas e persuasivos para proteger sua beleza espiritual num bisel de clandestinidade, num secreto jardim de espionagem.
Não apenas sobreviva, enquanto espera que a revolução de alguém ilumine as suas idéias, não se aliste no exército da anorexia ou bulimia - aja como se já fosse livre, calcule as probabilidades, pule fora, lembre-se das regras de duelo - Fume Maconha/Coma Galinha/Tome Chá. Todo homem tem sua própria vinha e sua figueira (Circle Seven Koran, Noble Drew Ali) - carregue seu passaporte mouro com orgulho, não fique parado no meio do fogo cruzado, proteja-se - mas arrisque-se, dance antes que fique calcificado.
O modelo social natural para o anarquismo ontológico é uma gangue de crianças ou um bando de ladrões de banco. O dinheiro é uma mentira - esta aventura deve ser possível sem ele - o resultado das pilhagens e saques deve ser gasto antes que se torne pó novamente. Hoje é o Dia da Ressurreição - o dinheiro gasto com a beleza será alquimicamente transformado num elixir. Como o meu tio Melvin dizia, melancias roubadas são mais doces.
O mundo já foi recriado segundo o desejo do coração - mas a civilização é dona de todas as locações e da maioria das armas. Nossos anjos ferozes exigem que invadamos a propriedade alheia, porque se manifestam apenas em solo proibido. O Ladrão de Estrada. A ioga da clandestinidade, o assalto relâmpago, o desfrute do tesouro.
Mitos do Caos
Caos invisível (po-te-kitea)
Indomável, intransponível
Caos da escuridão absoluta
Intocado e intocável
-- canto Maori
O Caos empoleira-se numa montanha de céu: um pássaro gigantesco, como uma asa-delta amarela ou uma bola de fogo vermelha, com seis pés e quatro asas - ele não tem rosto, mas dança e canta.
Ou o Caos é um cão negro de pêlos compridos, cego e surdo, sem as cinco vísceras. Caos, o Abismo, é anterior a tudo, depois vem a Terra/Gaia, e então o Desejo/Eros. Desses três surgiram dois pares - Érebo e Noite ancestral, Éter e Luz diurna.
Nem Ser, nem Não-ser
Nem ar, nem terra, nem espaço:
o que estava escondido? onde? sob a proteção de quem?
O que era a água, profunda, insondável?
Nem morte, nem imortalidade, dia ou noite...
mas o UNO soprado por si mesmo, sem vento.
Nada mais. Escuridão envolvendo escuridão,
água não-manifesta.
O UNO, escondido pelo vazio,
sentiu a geração do calor, tornou-se ser
na forma de Desejo, primeira semente da Mente...
O que estava por cima e o que, por baixo?
Existiam semeadores, existiam poderes:
energia embaixo, impulso em cima.
Mas quem pode ter certeza?
-- Rig Veda
Tiamar, o Oceano de Caos, expele lentamente de seu ventre Lama e Saliva, os Horizontes, o Céu e Sabedoria líquida. Esses rebentos crescem barulhentos e pretensiosos - ela pensa em destruí-los.
Mas Marduk, o deus da guerra babilônico, levanta-se em rebelião contra a Velha Bruxa e seus Monstros do Caos, totens infernais - o Verme, a Ogre Fêmea, o Grande Leão, o Cachorro Louco, o Homem Escorpião, a Tempestade Trovejante - dragões vestindo suas glórias como deuses - e a própria Tiamat é uma serpente marinha gigante.
Marduk a acusa de fazer os filhos se rebelarem contra os pais - ela ama Neblina e Nuvens, princípios da desordem. Marduk será o primeiro a reinar, a inventar o governo. Durante a batalha, ele trucida Tiamat e com o seu corpo encomenda o universo material. Inaugura o império da Babilônia - e então, com os miúdos e as tripas sangrentas do filho incestuoso de Tiamat, ele cria a raça humana para servir aos deuses para sempre e aos altos sacerdotes e reis sacramentados.
Zeus Pai e os deuses do Olimpo travam guerra contra Mãe Gaia e os Titãs, esses partidários do Caos, da velhas formas de caça e coleta, das longas andanças sem destino, da androginia e da licenciosidade das bestas.
Amon-Ra (Ser) senta-se sozinho no Oceano do Caos primordial da MADRE masturbando-se e criando todo os outros deuses - mas o Caos também se manifesta como o dragão Apophis a quem Ra deve destruir (juntamente com seu estado de glória, sua sombra e sua mágica) para que o faraó possa governar com segurança - um ritual de vitória recriado diariamente nos templos Imperiais para confundir os inimigos do Estado, da Ordem cósmica.
Caos é Hun Tun, Imperador do Centro. Um dia, o Mar do Sul, Imperador Shu, e o Mar do Norte, Imperador Hu (shu hu - relâmpago), visitaram Hun Tun, que sempre os recebeu bem. Desejando retribuir sua gentileza, eles disseram: ``Todos os seres têm sete orifícios para ver, ouvir, comer, cagar etc. - mas o pobre velho Hun Tun não tem nenhuma! Vamos perfurar alguns nele!'' E assim fizeram - um orifício por dia - até que, no sétimo dia, o Caos morreu.
Mas... o Caos também é um enorme ovo de galinha. Dentro dele, P’an-ku nasce e cresce por 18 mil anos - finalmente o ovo se abre, divide-se entre céu e terra, yin e yang. Então P’an-ku transforma-se na coluna que sustenta o universo - ou talvez se torna o universo (respiração - vento, olhos - sol e lua, sangue e fluídos - rios e mares, cabelo e cílios - estrelas e planetas, esperma - pérolas, medula - jade, suas pulgas - seres humanos etc.).
Ou, ainda, transforma-se no homem/monstro, Imperador Amarelo. Ou transforma-se em Lao-tsé, profeta do Tao. Na verdade, o pobre velho Hun Tun é o próprio Tao.
``A música da natureza não existe além das coisas. As várias aberturas, gaitas, flautas, todos os seres vivos, juntos, formam a natureza. O ‘EU’ não pode produzir coisas e as coisas não podem produzir o ‘EU’, que existe por si mesmo. As coisas são o que são espontaneamente, não por causa de alguma outra coisa. Tudo é natural sem saber por que o é. As 10 mil coisas tem 1o mil estados diferentes, todos em movimento como se existisse um Senhor Verdadeiro para movê-las - mas, se procuramos por evidências desse Senhor, não conseguimos encontrá-las.'' (Kuo Hsiang).
Cada consciência iluminada é um ``imperador'', cuja única forma de reinado é não fazer nada para não atrapalhar a espontaneidade da natureza, o Tao. O ``sábio'' não é o próprio Caos, mas um dos seus servidores leais - uma das pulgas de P’an-ku, um pedaço de carne do filho monstruoso de Tiamat. ``Céu é Terra'', diz Chunag-tsé, ``nasceram no mesmo momento em que eu nasci, e eu e as 10 mil coisas formamos um ser único''.
O Anarquismo Ontológico tende a discordar apenas da total quietude do taoísmo. Em nosso mundo, o aos tem sido destituído por jovens deuses, moralistas, falocratas, padres-banqueiros, senhores adequados para escravos. Se a rebelião provar-se impossível, pelo menos algum tipo de guerra santa clandestina deve ser iniciada. Que ela siga as bandeiras da guerra do dragão negro anarquistas, Tiamat, Hun Tun.
O Caos nunca morreu.
Indomável, intransponível
Caos da escuridão absoluta
Intocado e intocável
-- canto Maori
O Caos empoleira-se numa montanha de céu: um pássaro gigantesco, como uma asa-delta amarela ou uma bola de fogo vermelha, com seis pés e quatro asas - ele não tem rosto, mas dança e canta.
Ou o Caos é um cão negro de pêlos compridos, cego e surdo, sem as cinco vísceras. Caos, o Abismo, é anterior a tudo, depois vem a Terra/Gaia, e então o Desejo/Eros. Desses três surgiram dois pares - Érebo e Noite ancestral, Éter e Luz diurna.
Nem Ser, nem Não-ser
Nem ar, nem terra, nem espaço:
o que estava escondido? onde? sob a proteção de quem?
O que era a água, profunda, insondável?
Nem morte, nem imortalidade, dia ou noite...
mas o UNO soprado por si mesmo, sem vento.
Nada mais. Escuridão envolvendo escuridão,
água não-manifesta.
O UNO, escondido pelo vazio,
sentiu a geração do calor, tornou-se ser
na forma de Desejo, primeira semente da Mente...
O que estava por cima e o que, por baixo?
Existiam semeadores, existiam poderes:
energia embaixo, impulso em cima.
Mas quem pode ter certeza?
-- Rig Veda
Tiamar, o Oceano de Caos, expele lentamente de seu ventre Lama e Saliva, os Horizontes, o Céu e Sabedoria líquida. Esses rebentos crescem barulhentos e pretensiosos - ela pensa em destruí-los.
Mas Marduk, o deus da guerra babilônico, levanta-se em rebelião contra a Velha Bruxa e seus Monstros do Caos, totens infernais - o Verme, a Ogre Fêmea, o Grande Leão, o Cachorro Louco, o Homem Escorpião, a Tempestade Trovejante - dragões vestindo suas glórias como deuses - e a própria Tiamat é uma serpente marinha gigante.
Marduk a acusa de fazer os filhos se rebelarem contra os pais - ela ama Neblina e Nuvens, princípios da desordem. Marduk será o primeiro a reinar, a inventar o governo. Durante a batalha, ele trucida Tiamat e com o seu corpo encomenda o universo material. Inaugura o império da Babilônia - e então, com os miúdos e as tripas sangrentas do filho incestuoso de Tiamat, ele cria a raça humana para servir aos deuses para sempre e aos altos sacerdotes e reis sacramentados.
Zeus Pai e os deuses do Olimpo travam guerra contra Mãe Gaia e os Titãs, esses partidários do Caos, da velhas formas de caça e coleta, das longas andanças sem destino, da androginia e da licenciosidade das bestas.
Amon-Ra (Ser) senta-se sozinho no Oceano do Caos primordial da MADRE masturbando-se e criando todo os outros deuses - mas o Caos também se manifesta como o dragão Apophis a quem Ra deve destruir (juntamente com seu estado de glória, sua sombra e sua mágica) para que o faraó possa governar com segurança - um ritual de vitória recriado diariamente nos templos Imperiais para confundir os inimigos do Estado, da Ordem cósmica.
Caos é Hun Tun, Imperador do Centro. Um dia, o Mar do Sul, Imperador Shu, e o Mar do Norte, Imperador Hu (shu hu - relâmpago), visitaram Hun Tun, que sempre os recebeu bem. Desejando retribuir sua gentileza, eles disseram: ``Todos os seres têm sete orifícios para ver, ouvir, comer, cagar etc. - mas o pobre velho Hun Tun não tem nenhuma! Vamos perfurar alguns nele!'' E assim fizeram - um orifício por dia - até que, no sétimo dia, o Caos morreu.
Mas... o Caos também é um enorme ovo de galinha. Dentro dele, P’an-ku nasce e cresce por 18 mil anos - finalmente o ovo se abre, divide-se entre céu e terra, yin e yang. Então P’an-ku transforma-se na coluna que sustenta o universo - ou talvez se torna o universo (respiração - vento, olhos - sol e lua, sangue e fluídos - rios e mares, cabelo e cílios - estrelas e planetas, esperma - pérolas, medula - jade, suas pulgas - seres humanos etc.).
Ou, ainda, transforma-se no homem/monstro, Imperador Amarelo. Ou transforma-se em Lao-tsé, profeta do Tao. Na verdade, o pobre velho Hun Tun é o próprio Tao.
``A música da natureza não existe além das coisas. As várias aberturas, gaitas, flautas, todos os seres vivos, juntos, formam a natureza. O ‘EU’ não pode produzir coisas e as coisas não podem produzir o ‘EU’, que existe por si mesmo. As coisas são o que são espontaneamente, não por causa de alguma outra coisa. Tudo é natural sem saber por que o é. As 10 mil coisas tem 1o mil estados diferentes, todos em movimento como se existisse um Senhor Verdadeiro para movê-las - mas, se procuramos por evidências desse Senhor, não conseguimos encontrá-las.'' (Kuo Hsiang).
Cada consciência iluminada é um ``imperador'', cuja única forma de reinado é não fazer nada para não atrapalhar a espontaneidade da natureza, o Tao. O ``sábio'' não é o próprio Caos, mas um dos seus servidores leais - uma das pulgas de P’an-ku, um pedaço de carne do filho monstruoso de Tiamat. ``Céu é Terra'', diz Chunag-tsé, ``nasceram no mesmo momento em que eu nasci, e eu e as 10 mil coisas formamos um ser único''.
O Anarquismo Ontológico tende a discordar apenas da total quietude do taoísmo. Em nosso mundo, o aos tem sido destituído por jovens deuses, moralistas, falocratas, padres-banqueiros, senhores adequados para escravos. Se a rebelião provar-se impossível, pelo menos algum tipo de guerra santa clandestina deve ser iniciada. Que ela siga as bandeiras da guerra do dragão negro anarquistas, Tiamat, Hun Tun.
O Caos nunca morreu.
Pirotecnia
Inventadas pelos chineses, mas nunca desenvolvida para a guerra - um bom exemplo de Terrorismo Poético - uma arma usada para disparar choques estéticos em vez de matar - os chineses odiavam a guerra e costumavam entrar em luto quando os exércitos se levantavam - a pólvora era mais útil para espantar demônios malignos, deleitar crianças, saturar o ar com uma bruma de bravura e com o cheiro de perigo.
Rojões de terceira categoria da província de Kwantung, foguetes, borboletas, M-80’s, girassóis, ``Uma Floresta na Primavera'' - clima de revolução - acenda seu cigarro com a espoleta chamuscada de um rojão negro - imagine o ar repleto de lêmures e íncubos, espíritos opressores, policiais fantasmas.
Chame um garoto com um bastão em brasa ou um fósforo aceso - apóstolo-xamã de enredos de verão de pólvora - estilhace a noite escura com pitadas e cascatas de estrelas infladas, arsênico e antimônio, sódio e calomelano, um corisco de magnésio e um silvo estridente de picrato de potassa.
Mande brasa (negro-de-fumo e salitre) a ferro e fogo - ataque o banco ou a horrível igreja de seu bairro com velas romanas e foguetes púrpura-dourados, de sopetão e anonimamente (talvez lançados da carroceria de uma picape em movimento).
Construa estruturas entrelaçadas com vigas de metal nos tetos dos edifícios de companhias de seguro ou escola - serpente cundalini ou dragão do Caos verde-bário enrolado contra um fundo de amarelo-sódio - Não Pise em Mim - ou monstros copulando e arremessando bolas de fogo na casa de velhos batistas.
Escultura de nuvens, escultura de fumaça e bandeiras = Arte do Ar. Obras de Terra. Fontes = Arte da Água. E fogos de artifício. Não se apresente patrocinando pelos Rockefeller e com a autorização da polícia para uma audiência de amantes da cultura. Evanescentes bombas-mentais incendiárias, mandalas assustadoras inflamando-se em esfumaçadas noites suburbanas, alienígenas nuvens verdades da peste emocional detonadas por raios vajra azuis de orgônio, feux d'artifice a laser.
Cometas que explodem com odor de haxixe e carvão radioativo - demônios do pântano e fogos-fátuos assombrando os parques públicos - falso fogo-de-santelmo piscando sobre a arquitetura da burguesia - correntes de pequenos fogos de artifício caindo no chão da Assembléia Legislativa - salamandras-elementais atacando conhecidos reformados de moral.
Goma-laca flamejante, açúcar do leite, estrôncio, piche, água viscosa, fogo chinês - por alguns momentos o ar é puro ozônio - uma nuvem opala de pungente fumaça de dragão/fênix se espalhando. Por um instante, o Império cai, seus príncipes e governadores fogem para sua podridão satânica e nebulosa, penachos de enxofre dos elfos atiradores de chamas queimando suas bundas chamuscadas, enquanto eles recuam. O Assassino-criança, psique de fogo, mantém o poder por uma breve noite escaldante da estrela Sírio.
Rojões de terceira categoria da província de Kwantung, foguetes, borboletas, M-80’s, girassóis, ``Uma Floresta na Primavera'' - clima de revolução - acenda seu cigarro com a espoleta chamuscada de um rojão negro - imagine o ar repleto de lêmures e íncubos, espíritos opressores, policiais fantasmas.
Chame um garoto com um bastão em brasa ou um fósforo aceso - apóstolo-xamã de enredos de verão de pólvora - estilhace a noite escura com pitadas e cascatas de estrelas infladas, arsênico e antimônio, sódio e calomelano, um corisco de magnésio e um silvo estridente de picrato de potassa.
Mande brasa (negro-de-fumo e salitre) a ferro e fogo - ataque o banco ou a horrível igreja de seu bairro com velas romanas e foguetes púrpura-dourados, de sopetão e anonimamente (talvez lançados da carroceria de uma picape em movimento).
Construa estruturas entrelaçadas com vigas de metal nos tetos dos edifícios de companhias de seguro ou escola - serpente cundalini ou dragão do Caos verde-bário enrolado contra um fundo de amarelo-sódio - Não Pise em Mim - ou monstros copulando e arremessando bolas de fogo na casa de velhos batistas.
Escultura de nuvens, escultura de fumaça e bandeiras = Arte do Ar. Obras de Terra. Fontes = Arte da Água. E fogos de artifício. Não se apresente patrocinando pelos Rockefeller e com a autorização da polícia para uma audiência de amantes da cultura. Evanescentes bombas-mentais incendiárias, mandalas assustadoras inflamando-se em esfumaçadas noites suburbanas, alienígenas nuvens verdades da peste emocional detonadas por raios vajra azuis de orgônio, feux d'artifice a laser.
Cometas que explodem com odor de haxixe e carvão radioativo - demônios do pântano e fogos-fátuos assombrando os parques públicos - falso fogo-de-santelmo piscando sobre a arquitetura da burguesia - correntes de pequenos fogos de artifício caindo no chão da Assembléia Legislativa - salamandras-elementais atacando conhecidos reformados de moral.
Goma-laca flamejante, açúcar do leite, estrôncio, piche, água viscosa, fogo chinês - por alguns momentos o ar é puro ozônio - uma nuvem opala de pungente fumaça de dragão/fênix se espalhando. Por um instante, o Império cai, seus príncipes e governadores fogem para sua podridão satânica e nebulosa, penachos de enxofre dos elfos atiradores de chamas queimando suas bundas chamuscadas, enquanto eles recuam. O Assassino-criança, psique de fogo, mantém o poder por uma breve noite escaldante da estrela Sírio.
Os Assassinos
Atravessando o brilho do deserto e ganhando as montanhas policromadas, nuas e ocre, violeta pardo e terracota, no alto de um vale dissecado azul, os viajantes encontram um oásis artificial, um castelo fortificado em estilo sarraceno, guardando um jardim escondido.
Como convidados de Hassan-i Sabbah, o Velho da Montanha, eles sobem os degraus cortados na pedra que levam até o castelo. Aqui, o Dia da Ressurreição veio e passou - os do lado de dentro vivem fora do Tempo profano, que é mantido a distância com lanças e veneno.
Por trás de torres crenuladas e de longas janelas talhadas, estudiosos e fedains velam em estreitas celas monolíticas. Mapas do céu, astrolábios, destiladores e retortas, pilhas de livros abertos sob a luz da manhã - uma cimitarra descoberta.
Cada um dos que entram no reino do Imã-de-seu-próprio-ser transforma-se num sultão de revelação inversa, num monarca da anulação e da apostasia. Num aposento central, entrecortado pela luz e adornado com uma tapeçaria de arabescos, eles se recostam em almofadas e fumam longos narguilés de haxixe perfumado com ópio e âmbar.
Para eles, a hierarquia do ser compactou-se num ponto adimensional do real - as correntes da Lei foram quebradas - eles terminam seu jejum com vinho. Para eles, o exterior de todas as coisas é o interior delas, sua face verdadeira revela-se diretamente. Mas os portões do jardim estão camuflados com terrorismo, espelhos, rumores de assassinos, trompe l'oeil, lendas.
Ramãs, vários tipos de amoras, caquis, a melancolia erótica dos ciprestes, rosas de Shiraz de delicadas pétalas cor-de-rosa, jardineiras com aloé e benjoim de Meca, os caules rígidos das tulipas otomanas, tapetes abertos como jardins artificiais sobre gramados verdadeiros - um pavilhão inteiro decorado com um mosaico de caligramas - um salgueiro, um riacho repleto de agriões do brejo - uma fonte sob cristais geométricos - o escândalo metafísico que são as odaliscas banhando-se os criados negros brincando de esconde-esconde, molhados, por entre a folhagem - ``água, verdura, belos rostos''.
Ao cair da noite, Hassan-i Sabbah, como um lobo civilizado de turbante, debruça-se no parapeito sobre o jardim e contempla o céu, estudando pequenos asterismos de heresia no ar fresco e sem rumo do deserto. É verdade que nesse mito alguns discípulos aspirantes podem receber o comando de arremessarem-se do alto das muralhas para a escuridão - mas também é verdade que alguns deles vão aprender a voar como feiticeiros.
O emblema de Alamut persiste em nossas mentes, uma mandala ou circulo mágico perdido na história, mas entalhado ou impresso na consciência. O Velho passa rapidamente, como um fantasma, por dentro das tendas dos reis e dos aposentos dos teólogos, atravessa todas as trancas e passa por todas as sentinelas que usam técnicas ninja/muçulmanas já esquecidas, deixando pesadelos, estiletes sobre os travesseiros, subornos poderosos.
O perfume de sua propaganda embebe-se nos sonhos criminosos do anarquismo ontológico, a heráldica de nossas obsessões exibe as lustrosas bandeiras negras dos Assassinos... todos pretendentes ao trono de um Egito Imaginário, um contínuo espaço/luz oculto consumido por liberdades ainda não imaginadas.
Como convidados de Hassan-i Sabbah, o Velho da Montanha, eles sobem os degraus cortados na pedra que levam até o castelo. Aqui, o Dia da Ressurreição veio e passou - os do lado de dentro vivem fora do Tempo profano, que é mantido a distância com lanças e veneno.
Por trás de torres crenuladas e de longas janelas talhadas, estudiosos e fedains velam em estreitas celas monolíticas. Mapas do céu, astrolábios, destiladores e retortas, pilhas de livros abertos sob a luz da manhã - uma cimitarra descoberta.
Cada um dos que entram no reino do Imã-de-seu-próprio-ser transforma-se num sultão de revelação inversa, num monarca da anulação e da apostasia. Num aposento central, entrecortado pela luz e adornado com uma tapeçaria de arabescos, eles se recostam em almofadas e fumam longos narguilés de haxixe perfumado com ópio e âmbar.
Para eles, a hierarquia do ser compactou-se num ponto adimensional do real - as correntes da Lei foram quebradas - eles terminam seu jejum com vinho. Para eles, o exterior de todas as coisas é o interior delas, sua face verdadeira revela-se diretamente. Mas os portões do jardim estão camuflados com terrorismo, espelhos, rumores de assassinos, trompe l'oeil, lendas.
Ramãs, vários tipos de amoras, caquis, a melancolia erótica dos ciprestes, rosas de Shiraz de delicadas pétalas cor-de-rosa, jardineiras com aloé e benjoim de Meca, os caules rígidos das tulipas otomanas, tapetes abertos como jardins artificiais sobre gramados verdadeiros - um pavilhão inteiro decorado com um mosaico de caligramas - um salgueiro, um riacho repleto de agriões do brejo - uma fonte sob cristais geométricos - o escândalo metafísico que são as odaliscas banhando-se os criados negros brincando de esconde-esconde, molhados, por entre a folhagem - ``água, verdura, belos rostos''.
Ao cair da noite, Hassan-i Sabbah, como um lobo civilizado de turbante, debruça-se no parapeito sobre o jardim e contempla o céu, estudando pequenos asterismos de heresia no ar fresco e sem rumo do deserto. É verdade que nesse mito alguns discípulos aspirantes podem receber o comando de arremessarem-se do alto das muralhas para a escuridão - mas também é verdade que alguns deles vão aprender a voar como feiticeiros.
O emblema de Alamut persiste em nossas mentes, uma mandala ou circulo mágico perdido na história, mas entalhado ou impresso na consciência. O Velho passa rapidamente, como um fantasma, por dentro das tendas dos reis e dos aposentos dos teólogos, atravessa todas as trancas e passa por todas as sentinelas que usam técnicas ninja/muçulmanas já esquecidas, deixando pesadelos, estiletes sobre os travesseiros, subornos poderosos.
O perfume de sua propaganda embebe-se nos sonhos criminosos do anarquismo ontológico, a heráldica de nossas obsessões exibe as lustrosas bandeiras negras dos Assassinos... todos pretendentes ao trono de um Egito Imaginário, um contínuo espaço/luz oculto consumido por liberdades ainda não imaginadas.
Nietzsche e os Dervixes
Rendan, ``Os Espertos''. Os sufis usam um termo técnico, rend (adjetivo rendi, plural rendan), para designar alguém ``esperto o suficiente para beber vinho em segredo sem ser pego'': a versão dervixe da ``dissimulação permissível'' (tagiyya, que permite aos xiitas mentir sobre sua verdadeira afiliação para evitar perseguições e favorecer o propósito de sua propaganda).
Na esfera do ``caminho'', o rend esconde seu estado espiritual (hal) para contê-lo, trabalhá-lo alquimicamente, expandi-lo. Esta ``esperteza'' explica muito dos sigilos das Ordens, embora continue sendo verdade que muitos dervixes realmente quebraram as regras do Islã (shariah), ofendem a tradição (sunnah) e insultam os costumes de sua sociedade - o que lhes dá razão para um segredo real.
Ignorando-se o caso de ``criminosos'' que usam o sufismo como uma máscara - ou melhor, não o sufismo em si, mas o dervixismo, que na Pérsia é quase um sinônimo de maneiras transigentes e, portanto, de relaxamento social, um estilo de amoralidade genial e pobre, mas elegante - a definição acima ainda pode ser considerada tanto num sentido literal quanto metafórico. Isto é: alguns sufis violam a Lei ao mesmo tempo permitem que ela exista e continue a existir; e eles o fazem por motivos espirituais, como um exercício da vontade (himmah).
Nietzsche diz em algum lugar que um espírito livre não se move para que as regras ou mesmo para que sejam reformuladas, uma vez que é apenas quebrando as regras que ele se conscientiza de sua vontade de querer. Uma pessoa precisa provar (para si mesma, se não alguém mais) sua capacidade de romper com as regras do rebanho, de fazer sua própria lei e ainda assim não cair presa do rancor e do ressentimento próprios das almas inferiores que definem a lei e os costumes em QUALQUER sociedade. A pessoa precisa, com efeito, de um equivalente individual da guerra para atingir a transformação do espírito livre - necessita de uma estupidez inerente contra a qual possa medir o seu próprio movimento e inteligência.
Anarquistas às vezes postulam uma sociedade ideal sem lei. Os poucos experimentos anarquistas que lograram um breve êxito (os makhnovistas, Catalunha) fracassaram em sobreviver às condições da guerra que originaram sua existência - dessa forma, não temos meios de saber empiricamente se tais experimentos poderiam ter sobrevivido no início da paz.
Alguns anarquistas, no entanto - como nosso falecido amigo, a ``Marca'' stirneriana italiana -, e até mesmo alguns que eram comunistas e socialistas, participaram de toda sorte de levantes e revoluções, porque encontraram, no momento da insurreição em si, o tipo de liberdade que buscavam. Enquanto a utopia tem, até agora, sempre fracassado, os anarquistas individualistas ou existencialistas têm logrado êxito visto que têm obtido (embora brevemente) a realização de sua vontade durante a guerra.
As restrições de Nietzsche aos ``anarquistas'' são sempre endereçadas ao tipo mártir comunista-igualitário narodnik, cujo idealismo ele via como mais um sobrevivente do moralismo pós-cristão - embora ele algumas vezes os elogie por ao menos terem a coragem de se revoltar contra a autoridade majoritária. Ele nunca menciona Stirner, mas acredito que teria classificado o rebelde individualista como um dos mais altos tipos de ``criminosos'', que representavam para ele (assim como para Dostoievski) seres humanos muito superiores à multidão, mesmo se tragicamente traídos por suas próprias obsessões e possíveis motivos de vingança ocultos.
O super-homem nietzschiano, se existisse, teria de compartilhar, até certo grau, dessa ``criminalidade'', mesmo se superasse todas as suas obsessões e compulsões, simplesmente porque sua lei nunca poderia concordar com a lei das massas, do Estado e da sociedade. Sua necessidade de ``guerra'' (seja literal ou metafórica) poderia até mesmo persuadi-lo a participar da revolta, tenha ela assumido a forma de insurreição ou apenas uma boemia orgulhosa.
Para ele, uma ``sociedade sem lei'' poderia Ter valor apenas enquanto pudesse medir sua própria liberdade contra a sujeição de outros, contra seus ciúmes e ódios. As breves ``utopias piratas'' sem lei de Madagascar e do Caribe, a República de Fiume de D’Annunzio, a Ucrânia ou Barcelona - essas experiências o atrairiam, porque prometia o tumulto do porvir e até mesmo a possibilidade do ``fracasso'' em vez da bucólica sonolência de uma ``perfeita'' (e portanto morta) sociedade anarquista.
Na ausência de tais oportunidades, esse espírito livre teria desdenhado perder tempo com agitações para reformas, com protestos, com sonhos visionários, com todo tipo de ``martírio revolucionário'' - em suma, com a maior parte da atividade anarquista contemporânea. Para ser rendi, para beber vinho em segredo e não ser pego, para aceitar as regras a fim de violá-las e assim atingir a elevação espiritual ou o transe energético do perigo e da aventura, a epifania privada da superação de toda polícia interior ao mesmo tempo em que se engana toda autoridade externa - tal poderia ser uma meta válida para esse espírito e essa poderia ser sua definição de crime.
(Incidentalmente, acho que esta leitura talvez explique a insistência de Nietzsche pela MÁSCARA, pela natureza dissimulada do proto-super-homem, que perturba até mesmo os comentarias mais inteligentes, embora algo liberais, como Kaufman. Os artista por mais que Nietzsche os ame, são criticados por contar segredos. Talvez ele tenha falhado ao considerar que - parafraseando Allen Ginsberg - este é nosso modo de nos tornarmos ``grandes''; e também que - parafraseando Yeats - até mesmo o mais verdadeiro dos segredos torna-se uma outra máscara.)
Sobre o movimento anarquista de hoje: pelo menos uma vez, gostaríamos nós de pisar num solo onde as leis são abolidas e o último padre é enforcado com as tripas do último burocrata? Sim, claro. Mas não nutrimos grandes expectativas. Há certas causas (para citar Nietzsche de novo) que nunca abandonamos completamente, nem que seja apenas em função da mera insipidez de todos os nosso inimigos. Oscar Wilde poderia ter dito que não se pode ser um cavalheiro sem ser um pouco anarquista - uma paradoxo necessário, como a ``aristocracia radical'' de Nietzsche.
Isso não é apenas uma questão de dandismo espiritual, mas também de compromisso existencial com uma espontaneidade subjacente, com um ``Tao'' filosófico. Apesar do desperdício de energia pela sua Própria falta de forma o anarquismo, entre todos os ISMOS, aproxima-se daquele único tipo de forma que pode nos interessar hoje, aquele estranho atrator, a forma do caos, que (uma última citação) se deve ter dentro de si, no caso de dar à luz a uma estrela dançarina.
-- Equinócio de Primavera, 1989
Na esfera do ``caminho'', o rend esconde seu estado espiritual (hal) para contê-lo, trabalhá-lo alquimicamente, expandi-lo. Esta ``esperteza'' explica muito dos sigilos das Ordens, embora continue sendo verdade que muitos dervixes realmente quebraram as regras do Islã (shariah), ofendem a tradição (sunnah) e insultam os costumes de sua sociedade - o que lhes dá razão para um segredo real.
Ignorando-se o caso de ``criminosos'' que usam o sufismo como uma máscara - ou melhor, não o sufismo em si, mas o dervixismo, que na Pérsia é quase um sinônimo de maneiras transigentes e, portanto, de relaxamento social, um estilo de amoralidade genial e pobre, mas elegante - a definição acima ainda pode ser considerada tanto num sentido literal quanto metafórico. Isto é: alguns sufis violam a Lei ao mesmo tempo permitem que ela exista e continue a existir; e eles o fazem por motivos espirituais, como um exercício da vontade (himmah).
Nietzsche diz em algum lugar que um espírito livre não se move para que as regras ou mesmo para que sejam reformuladas, uma vez que é apenas quebrando as regras que ele se conscientiza de sua vontade de querer. Uma pessoa precisa provar (para si mesma, se não alguém mais) sua capacidade de romper com as regras do rebanho, de fazer sua própria lei e ainda assim não cair presa do rancor e do ressentimento próprios das almas inferiores que definem a lei e os costumes em QUALQUER sociedade. A pessoa precisa, com efeito, de um equivalente individual da guerra para atingir a transformação do espírito livre - necessita de uma estupidez inerente contra a qual possa medir o seu próprio movimento e inteligência.
Anarquistas às vezes postulam uma sociedade ideal sem lei. Os poucos experimentos anarquistas que lograram um breve êxito (os makhnovistas, Catalunha) fracassaram em sobreviver às condições da guerra que originaram sua existência - dessa forma, não temos meios de saber empiricamente se tais experimentos poderiam ter sobrevivido no início da paz.
Alguns anarquistas, no entanto - como nosso falecido amigo, a ``Marca'' stirneriana italiana -, e até mesmo alguns que eram comunistas e socialistas, participaram de toda sorte de levantes e revoluções, porque encontraram, no momento da insurreição em si, o tipo de liberdade que buscavam. Enquanto a utopia tem, até agora, sempre fracassado, os anarquistas individualistas ou existencialistas têm logrado êxito visto que têm obtido (embora brevemente) a realização de sua vontade durante a guerra.
As restrições de Nietzsche aos ``anarquistas'' são sempre endereçadas ao tipo mártir comunista-igualitário narodnik, cujo idealismo ele via como mais um sobrevivente do moralismo pós-cristão - embora ele algumas vezes os elogie por ao menos terem a coragem de se revoltar contra a autoridade majoritária. Ele nunca menciona Stirner, mas acredito que teria classificado o rebelde individualista como um dos mais altos tipos de ``criminosos'', que representavam para ele (assim como para Dostoievski) seres humanos muito superiores à multidão, mesmo se tragicamente traídos por suas próprias obsessões e possíveis motivos de vingança ocultos.
O super-homem nietzschiano, se existisse, teria de compartilhar, até certo grau, dessa ``criminalidade'', mesmo se superasse todas as suas obsessões e compulsões, simplesmente porque sua lei nunca poderia concordar com a lei das massas, do Estado e da sociedade. Sua necessidade de ``guerra'' (seja literal ou metafórica) poderia até mesmo persuadi-lo a participar da revolta, tenha ela assumido a forma de insurreição ou apenas uma boemia orgulhosa.
Para ele, uma ``sociedade sem lei'' poderia Ter valor apenas enquanto pudesse medir sua própria liberdade contra a sujeição de outros, contra seus ciúmes e ódios. As breves ``utopias piratas'' sem lei de Madagascar e do Caribe, a República de Fiume de D’Annunzio, a Ucrânia ou Barcelona - essas experiências o atrairiam, porque prometia o tumulto do porvir e até mesmo a possibilidade do ``fracasso'' em vez da bucólica sonolência de uma ``perfeita'' (e portanto morta) sociedade anarquista.
Na ausência de tais oportunidades, esse espírito livre teria desdenhado perder tempo com agitações para reformas, com protestos, com sonhos visionários, com todo tipo de ``martírio revolucionário'' - em suma, com a maior parte da atividade anarquista contemporânea. Para ser rendi, para beber vinho em segredo e não ser pego, para aceitar as regras a fim de violá-las e assim atingir a elevação espiritual ou o transe energético do perigo e da aventura, a epifania privada da superação de toda polícia interior ao mesmo tempo em que se engana toda autoridade externa - tal poderia ser uma meta válida para esse espírito e essa poderia ser sua definição de crime.
(Incidentalmente, acho que esta leitura talvez explique a insistência de Nietzsche pela MÁSCARA, pela natureza dissimulada do proto-super-homem, que perturba até mesmo os comentarias mais inteligentes, embora algo liberais, como Kaufman. Os artista por mais que Nietzsche os ame, são criticados por contar segredos. Talvez ele tenha falhado ao considerar que - parafraseando Allen Ginsberg - este é nosso modo de nos tornarmos ``grandes''; e também que - parafraseando Yeats - até mesmo o mais verdadeiro dos segredos torna-se uma outra máscara.)
Sobre o movimento anarquista de hoje: pelo menos uma vez, gostaríamos nós de pisar num solo onde as leis são abolidas e o último padre é enforcado com as tripas do último burocrata? Sim, claro. Mas não nutrimos grandes expectativas. Há certas causas (para citar Nietzsche de novo) que nunca abandonamos completamente, nem que seja apenas em função da mera insipidez de todos os nosso inimigos. Oscar Wilde poderia ter dito que não se pode ser um cavalheiro sem ser um pouco anarquista - uma paradoxo necessário, como a ``aristocracia radical'' de Nietzsche.
Isso não é apenas uma questão de dandismo espiritual, mas também de compromisso existencial com uma espontaneidade subjacente, com um ``Tao'' filosófico. Apesar do desperdício de energia pela sua Própria falta de forma o anarquismo, entre todos os ISMOS, aproxima-se daquele único tipo de forma que pode nos interessar hoje, aquele estranho atrator, a forma do caos, que (uma última citação) se deve ter dentro de si, no caso de dar à luz a uma estrela dançarina.
-- Equinócio de Primavera, 1989
Monday, June 02, 2008
Sobre a Anarquia
O que é um Anarquista?
O profeta Maomé disse que qualquer um que te deseje "Paz!" pode ser considerado um Muçulmano. Igualmente, poderíamos considerar todos que se denominem "anarquistas" como anarquistas (a não ser que sejam espiões da polícia); - isso é, simplesmente aqueles que desejam a abolição do Estado.
Para os Sufi, a questão, "O que é um Muçulmano?" não desperta qualquer interesse. Ao invés disso eles se perguntam, "Quem é esse Muçulmano? Um dogmático ignorante? Um acintoso¹? Um hipócrita? Ou será ele alguém que, pelo contrário, se empenha por experienciar o conhecimento e o amor, está disposto a buscar ser pleno e harmonioso?"
"O que é um anarquista?" não é a verdadeira pergunta. A pergunta correta é: "Quem é esse anarquista?" um dogmático ignorante, acintoso¹, hipócrita? Alguém que brada ter esmagado todos os ídolos, e que ao mesmo tempo ergue novos altares mentais para cultuar fantasmas e abstrações? Será ele alguém que tenta viver no espírito da Anarquia, do não-ser-governado/não-governar, ou será alguém que meramente usa a retórica da rebelião como uma desculpa para sua inconseqüência, ressentimento e auto-pauperização?"
As picuinhas teológicas insignificantes aumentaram indesculpável e tediosamente entre os sectos anarquistas. Ao invés de exigir definições (ideologias), pergunte "O que você sabe?" - "Quais são seus verdadeiros desejos?" - "O que você vai fazer agora?" - e como Diaghilev² disse para o jovem Cocteau³ - "Me impressione!"
O que é Governo?
O Governo talvez tenha surgido como uma forma de relação estruturada entre os humanos no momento em que o poder passou a ser desigualmente distribuído, em que a vida criativa de alguns foi reduzida pelo engrandecimento de outros. Desta forma o governo opera em todas as relações em que os membros não são realmente considerados como parceiros em uma estrutura de mutualidade e simetria. O governo pode ser observado em unidades sociais tão pequenas como a família nuclear ou tão "informais" como um encontro casual entre alguns vizinhos na rua - por outro lado onde quer que o governo não possa alcançar, com certeza surgirão organizações muito maiores, estas tal qual uma mobilização insurgente ou multidões de entusiastas do compartilhamento, encontros Quakers ou Sovietes Livres, Banquetes Yomango ou sociedades benevolentes.
Um certo tipo de relações humanas que surgiu como parcerias legítimas, provavelmente através do processo de institucionalização, declinaram em direção a formas de Governo - nesse sentido uma relação amorosa tenha talvez se transformado na instituição casamento, uma micro-tirania de avareza amorosa; ou algo como uma comunidade intencional fundada livremente para tornar possível certas formas de viver, desejadas por todos os seus membros, acabou dominando e subjugando suas crianças com regras morais insignificantes, cascas vazias daquilo que uma vez foram ideais gloriosos.
A meta da Anarquia é nunca existir por mais que um curto período. Em todo lugar e todas as relações humanas sempre podem ser reduzidas a instituições que por sua vez podem se degenerar em governos. Talvez alguém possa argumentar que isso é "natural?" ...Mas e daí?! O oposto também é "natural". E se não for, então continuarei escolhendo o não-natural, o impossível.
Nós bem sabemos que relações livres (não-governadas) são perfeitamente possíveis, pois as vivenciamos de forma relativamente freqüente - e mais ainda quando nos esforçamos por cultivá-las. O anarquista opta ter por meta (também a arte, a vivacidade) a maximização das condições sociais para a emergência de tais relações. Porque é isso que desejamos e é isso o que fazemos.
E quanto ao crime?
As considerações mais elevadas podem implicar em uma forma de "ética", uma definição mutável e funcional de justiça em cada contexto e em cada situação existente. Anarquistas provavelmente poderiam considerar apenas como "criminoso" aqueles que deliberadamente agissem contra a realização de relações libertárias. Em uma sociedade hipotética onde o sistema carcerário tenha sido abolido, apenas aqueles que não tenham sido dissuadidos deste tipo de atitude poderiam ser alvo da "justiça do povo", ou mesmo da vingança.
Por hora, no entanto, seria suficiente perceber que nossa determinação de criar agora mesmo estas relações, mesmo que de um modo imperfeito e não-utópico, vai inevitavelmente nos colocar numa posição de "criminalidade" batendo de frente com o Estado, o sistema legal, e provavelmente também com as "leis não-escritas" do preconceito popular. Martírio Revolucionário está fora de moda há muito tempo, o objetivo atual é criar tanta liberdade quanto for possível sem ser pego.
Como uma sociedade anarquista funciona?
Uma sociedade anarquista funciona, sempre que duas ou mais pessoas mutuamente direcionam seus esforços na organização de uma parceria legítima, com o objetivo de alcançar desejos compartilhados (ou complementares). Nenhum governo é preciso para estruturar um encontro oculto, um jantar festivo, um mercado negro, uma tong (ou sociedade secreta de ajuda mútua), uma rede de correspondências ou uma BBS, uma relação amorosa, um movimento social espontâneo (como eco-sabotagem ou ativismo contra a AIDS), um coletivo artístico, uma comuna, um encontro pagão, uma vizinhança associada para a proteção mútua, um clube de entusiastas, uma praia de nudismo, uma Zona Autônoma Temporária. A chave, como Fourier teria dito é a paixão - ou, para usar uma palavra que possa soar mais moderna, o desejo.
O que podemos fazer para alcançá-la?
Em outras palavras, como nós maximizamos o potencial para que tais relações espontâneas possam surgir e superar o peso morto de uma sociedade sufocada por todas as variedades de governança? Como podemos dar a paixão ao reino livre, recriando o mundo de cada dia na liberdade verossímil de "espirito livre" e o grupo de desejos compartilhados? Esta é a questão de 64 dólares - que realmente não é nada demais, já que a resposta apenas pode ser encontrada na ficção científica.
Muito bem, meu senso de estratégia está inclinado a rejeitar todas as táticas remanescentes da velha "Nova Esquerda" como manifestações, performances midiáticas, protestos, petições, resistência pacífica e terrorismo aventureiro. Todo este complexo estratégico foi a muito tempo assimilado e produtificado pelo Espetáculo (se você me permite o uso deste jargão situacionista), e certamente não possui qualquer valor, nem mesmo enquanto tática de misconstrução.
Outras duas áreas estratégicas bem diferentes parecem muito mais interessantes e promissoras. Um é o complexo evocado por John Zerzan em seu Elementos de Rejeição - que é a rejeição de toda expansão de mecanismos de controle em grande escala supostamente apolíticos inerentes a instituições como o trabalho, educação, consumismo, política eleitoral, "valores familiares", etc. Os anarquistas poderiam querer voltar suas atenções no sentido de intensificar e dar um outro rumo a esses "elementos". Tais ações provavelmente cairiam na tradicional categoria de "agitprop¹", mas poderiam descambar para a tendência "esquerdista" de institucionalizar ou "fetichizar" tais programas nos termos definidos por uma elite revolucionária auto-instituída ou vanguarda.
A ação na área de "Elementos de Refutação" é algo negativo, até mesmo "niilista", enquanto a segunda área se preocupa com a emergência de organizações espontâneas capazes de prover alternativas reais às instituições de Controle. Assim as ações insurgentes de "refutação" são complementadas e aprimoradas pela proliferação e concatenação de relações "simétricas de parceria". Em certo sentido esta é uma versão melhorada da velha estratégia oscilante de agitação em prol de uma Greve Geral enquanto simultaneamente se constrói uma nova sociedade dentro da casca da velha organização. A diferença, proposta, é que a greve deve ser ampliada para além do "problema do trabalho" incluindo todo o escopo da "vida cotidiana" (num sentido Debordiano)¹¹.
Busquei apresentar propostas bem mais especificas no ensaio chamado de Zona Autônoma Temporária¹²; então aqui me limitarei a alegação de que o objetivo de tais ações não podem propriamente ser designado pela palavra "Revolução" - como uma Greve Geral, por exemplo, jamais foi uma tática "Revolucionária" e sim, mais particularmente, uma forma de "violência social" (como explicado por Sorel¹³). "A Revolução traiu a si mesma como só mais uma mercadoria", cataclismo sangrento, mais uma giro na manivela do controle - isto não é o que desejamos, mas sim uma oportunidade para a anarquia brilhar.
É a Anarquia o fim da História?
Se a vinda da anarquia nunca se "efetivar" a resposta é Não - exceto no caso especial da "História" auto-definida e privilegiada como uma auto-valorização de instituições e "governos". Mas história nesse sentido provavelmente já está morta, já "desapareceu" dentro do Espetáculo, ou da obscenidade da Simulação. A tal ponto que conforme a anarquia envolve um tipo de paleolitismo psíquico, está saudosamente situada em status pós-histórico que poderia se espelhar no pré-histórico. Se os teóricos franceses estão corretos, já começamos a entrar em tal status. A história como estória vai continuar, já que os humanos podem também ser definidos como animais que fazem estórias. mas História como uma estória oficial em pró do Controle perdeu seu monopólio no discurso. Presumo que isto poderá nos trazer alguma vantagem.
Como a Anarquia se relaciona a Tecnologia?
Se anarquia é um tipo de paleolitismo, isso não significa que temos que nos ejetar de volta a Era da Pedra lascada. Estamos interessados no retorno do Paleolítico, e não em um retorno a ele. Nesse ponto acredito que discordo de ambos Zerzan e o Fifth Estate¹, e também dos tecno-futuro-libertários da Califórnia. Ou, de certa forma, concordo com todos eles, eu sou ambos, um ludita e um cyberpunk, portanto inaceitável para ambas as partes.
Minha crença (não conhecimento) é que a sociedade que começa a se aproximar da anarquia geral vai ter que lhe dar com tecnologia no fundamento da paixão, isto é, desejo e prazer. A tecnologia da alienação falharia em sobreviver em tais condições, enquanto a tecnologia do encantamento iria provavelmente persistir. A selvageria no entanto, seria também necessariamente presente e ativa em uma parte cada vez maior do mundo, uma vez que selvageria é prazer. Uma sociedade baseada no prazer nunca nos permitiria tecnicizar ou interferir em sua diversão naturalizada.
Se é verdade que toda técnica é uma forma de meditação, então tudo é cultura. Não aceitamos objetificar a meditação por si só (depois de tudo, nossos sentidos são uma mediação entre o "mundo" e o "cérebro"), mas principalmente com relação a distorção trágica da meditação em alienação. Se a linguagem por si só é uma forma de meditação então nós podemos "purificar a linguagem da tribo"; não é a poesia que nós odiamos, mas sim linguagem enquanto Controle¹.
Por que a Anarquia nunca funcionou antes?
O que você quer dizer com "Por que a Anarquia nunca funcionou antes?!" Ela funcionou centenas, de milhões de vezes. Funcionou entre 90% da existência humana, na Pré-história. E funciona entre as tribos de caçadores e coletores até os dias de hoje. Funciona em todos os grupos de "relações livres" listados acima, dos encontros ocultos as tongs. Funciona toda vez que você convida alguns amigos para um piquenique. "Funcionou" mesmo nas "insurreições que não tiveram êxito" como nos sovietes de Munich e de Shanghai, na Baixa California em 1911, Fiume 1919, Krondstadt 1921, Paris 1968. Funcionou nas comunas, nos enclaves Maroon e nas utopias piratas. Funcionou na antiga Rhode Island na Pennsylvania, em Paris 1870, na Ucrânia, na Catalunha e em Aragão.
O chamado futuro da Anarquia é um julgamento feito precisamente pelo tipo de História que acreditamos estar moribunda. É verdade que poucos desses experimentos (exceto e o pré-histórico e o tribal) duram "muito tempo" - mas isso não diz nada sobre o valor e a natureza da experiência, de indivíduos e grupos, que vivenciaram tais períodos de liberdade. Talvez você possa recordar de algum caso amoroso, um em que mesmo agora lhe traga certo sentido a toda a sua vida, antes e depois - uma "experiência de pico". A História é cega a esta porção do espectro, o mundo da "vida cotidiana" pode ser eventualmente espaço de uma "irrupção do Maravilhoso". Sempre que isso acontece é um triunfo para anarquia. Imagine então (e isso é o tipo de história que a gente gosta) a aventura das principais Zonas Autônomas Temporárias durando seis semanas ou mesmo dois anos, o comunal senso de iluminação, camaradagem, satisfação - o indiviso sentimento de poder, de destino, de criatividade. Ninguém que já tenha vivenciado qualquer coisa como isso pode admitir por apenas um segundo que o perigo das falhas e dos riscos possam pesar sobre a glória absoluta destes breves momentos de levante. Tão logo a sacralidade deste caso de amor seja posta em dúvida, mesmo que termine em dor e sofrimento!
Ao superar o mito da derrota, sentiremos definitivamente a certeza interior do sucesso, como a fria brisa que sopra a chuva no deserto. Saber, desejar, agir no sentido de que não podemos desejar o que ainda não conhecemos. Mas há muito conhecemos o sucesso da anarquia por um longo tempo agora - em fragmentos, talvez, em flashes - mas real, real como as monções, tão real como a paixão. Se não fosse assim, como poderíamos ousar desejá-la, muito menos agir para concretizar sua vitória?
Originalmente intitulado: "The Willimantic/Rensselaer Questions" Em : Anarquia e o Fim da História (Anarchy and the End of History) pp. 87-92
Tradução e Revisão Coletivo Protopia S/A
--------------------------------------------------------------------------------
NOTA
1. Aquele que acinta, que cria situações desagradáveis desnecessárias, que se apega a detalhes superficiais, que age propositalmente para descontentar ou contrariar alguém. (N.T.)
2. Sergei Diaguilev (Сергей Павлович Дягилев) (nascido em 1872 – falecido em 1929), também conhecido como Serge, foi o fundador da companhia Ballets Russes a partir da qual muitos famosos dançarinos e coreógrafos surgiram. (N.T.)
3. Jean Cocteau (nascido em 1889 — falecido em 1963) foi um cineasta, ator, encenador e autor de teatro francês. foi um dos mais talentosos artistas do século XX. Além de ser diretor de cinema, foi poeta, escritor, pintor, dramaturgo, cenógrafo e ator e escultor. (N.T.)
4. No original em francês, Jouissance. (N.T.)
5. Sigla para bulletin board system. Trata-se de um sistema informático surgido na década de 1980, um software, que permite a ligação (conexão) via telefone formando uma pequena rede de computadores, permitindo que um certo número de usuários possam interagir através dela, tal qual hoje se faz com a internet, se bem que com uma abrangência limitada. (N.T.)
6. No original em inglês, Ghandian resistance. (N.T.)
7. No original em inglês, Detournement. Conceito situacionista que trata da possibilidade artística e política de tomar algum objeto criado pelo capitalismo, enquanto sistema político econômico hegemônico e distorcer seu significado e uso original para produzir um efeito crítico. (N.T.)
8. John Zerzan (nascido em 1943) é um dos principais teóricos do anarco-primitivismo da atualidade. Licenciado em Ciências Políticas pela Stanford University e em História pela San Francisco State University. Preso em 1966, nos EUA, pela sua participação nos movimentos de desobediência civil e contra a guerra do Vietnam, conhecidos pelos tumultos de Berckeley. Abandonou a carreira universitária na University of Southern California. Hoje, dedica-se à educação de crianças e à jardinagem. Promove, ainda, conferências sobre o Primitivismo e Paleo-Anarquismo em todo o mundo. É o autor de Elements of Refusal (1988) e de Future Primitive (1994), Questioning Technology (1988), The Mass Psychology of Misery, Tonality and the Totality, The Catastrophe of Postmodernism e The Nihilist's Dictionary. (N.T.)
9. Elements of Refusal, editora, Left Bank Books, Seattle, 1988. (N.A.)
10. Agitprop (em russo: агитпроп) é a contração de "agitação e propaganda". O termo teve origem na Rússia Bolchevista (a futura União Soviética), como uma redução de отдел агитации и пропаганды (otdel agitatsii i propagandy), Departamento de Agitação e Propaganda, que era parte dos comitês centrais e regionais do Partido Comunista da União Soviética. O departamento posteriormente seria renomeado para Departamento Ideológico. (N.T.)
11. Este seria o lugar certo para a questão número 9, "Qual é nossa relação com outras lutas de libertação?", o que nos parece estar sub-sumido a uma questão de táticas/estratégias. A resposta claramente poderia ser: Nós os apoiamos tendo em vista o fato deles serem atualmente movimentos de libertação (eco-sabotagem radical, minorias sexuais, etc); e os criticamos de uma forma construtiva caso desviem em direção a institucionalização (unionismo radical, movimentos pacifistas, etc) Mas também: acompanhamos a olho nú onde a ação está acontecendo. Depois de tudo, não seria a insurreição ela mesma um de nossos "prazeres criminais?" Um eterno novo horizonte onde nós nômades e vagabundos, somos capazes de experimentar novamente seu encanto..... (N.A.)
12. Zona Autônoma Temporária (originalmente publicada pela Autonomedia, N.Y., 1991) é provavelmente, o ensaio mais famoso escrito por Hakim Bey onde ele apresenta parte de sua teoria da ação transformadora através das Zonas Autônomas que, diante da presença do poder e da possibilidade da repressão, assumiriam o caráter provisório como estratégia de propagação de um modo de vida anarquista ontológico sempre buscando uma transformação rizomática a nível global. (N.T.)
13. Georges Eugène Sorel (nascido em 1847 – falecido em 1922) engenheiro formado pela École Polytechnique e teórico do sindicalismo revolucionário, muito popular na França, na Itália e nos Estados Unidos. Mas sua influência começou a decair depois de 1920. É um autor controverso quanto a linha política a qual adere. Suas idéias foram aceitas tanto pelo fascismo italiano quanto pela esquerda revolucionária deste país, influenciando consideravelmente o pensamento anarco-sindicalista (N.T.)
14. Fifth Estate (Quinto Estado) é uma revista publicada em Liberty, Tennessee e em Detroit, Michigan. seu coletivo editorial possui diferentes pontos de vistas nos assuntos abordados pela revista, todos eles no entanto partilham uma perspectiva anti-autoritária, não-dogmática, e voltada a ação transformadora. O título presumivelmente sugere que o periódico é uma alternativa para o quarto estado (tradicionalmente a mídia capitalista). (N.T.)
15. Sobre tecnologia anarquista, veja Ilhas na Rede e Dias verdes em Bruney (Islands In The Web and Green Days In Bruney) de B. Sterling, futuro-próximo SF escrito como "realismo utópico", onde um terceiro mundo pobre, desesperado e super populoso faz uso de tecnologia simples, de uma série de soluções ecológicas e humanas para resolver problemas que já existem. Veja também Energia e Eqüidade (Energy and Equity) de Ivan Ilych. (N.A.)
O profeta Maomé disse que qualquer um que te deseje "Paz!" pode ser considerado um Muçulmano. Igualmente, poderíamos considerar todos que se denominem "anarquistas" como anarquistas (a não ser que sejam espiões da polícia); - isso é, simplesmente aqueles que desejam a abolição do Estado.
Para os Sufi, a questão, "O que é um Muçulmano?" não desperta qualquer interesse. Ao invés disso eles se perguntam, "Quem é esse Muçulmano? Um dogmático ignorante? Um acintoso¹? Um hipócrita? Ou será ele alguém que, pelo contrário, se empenha por experienciar o conhecimento e o amor, está disposto a buscar ser pleno e harmonioso?"
"O que é um anarquista?" não é a verdadeira pergunta. A pergunta correta é: "Quem é esse anarquista?" um dogmático ignorante, acintoso¹, hipócrita? Alguém que brada ter esmagado todos os ídolos, e que ao mesmo tempo ergue novos altares mentais para cultuar fantasmas e abstrações? Será ele alguém que tenta viver no espírito da Anarquia, do não-ser-governado/não-governar, ou será alguém que meramente usa a retórica da rebelião como uma desculpa para sua inconseqüência, ressentimento e auto-pauperização?"
As picuinhas teológicas insignificantes aumentaram indesculpável e tediosamente entre os sectos anarquistas. Ao invés de exigir definições (ideologias), pergunte "O que você sabe?" - "Quais são seus verdadeiros desejos?" - "O que você vai fazer agora?" - e como Diaghilev² disse para o jovem Cocteau³ - "Me impressione!"
O que é Governo?
O Governo talvez tenha surgido como uma forma de relação estruturada entre os humanos no momento em que o poder passou a ser desigualmente distribuído, em que a vida criativa de alguns foi reduzida pelo engrandecimento de outros. Desta forma o governo opera em todas as relações em que os membros não são realmente considerados como parceiros em uma estrutura de mutualidade e simetria. O governo pode ser observado em unidades sociais tão pequenas como a família nuclear ou tão "informais" como um encontro casual entre alguns vizinhos na rua - por outro lado onde quer que o governo não possa alcançar, com certeza surgirão organizações muito maiores, estas tal qual uma mobilização insurgente ou multidões de entusiastas do compartilhamento, encontros Quakers ou Sovietes Livres, Banquetes Yomango ou sociedades benevolentes.
Um certo tipo de relações humanas que surgiu como parcerias legítimas, provavelmente através do processo de institucionalização, declinaram em direção a formas de Governo - nesse sentido uma relação amorosa tenha talvez se transformado na instituição casamento, uma micro-tirania de avareza amorosa; ou algo como uma comunidade intencional fundada livremente para tornar possível certas formas de viver, desejadas por todos os seus membros, acabou dominando e subjugando suas crianças com regras morais insignificantes, cascas vazias daquilo que uma vez foram ideais gloriosos.
A meta da Anarquia é nunca existir por mais que um curto período. Em todo lugar e todas as relações humanas sempre podem ser reduzidas a instituições que por sua vez podem se degenerar em governos. Talvez alguém possa argumentar que isso é "natural?" ...Mas e daí?! O oposto também é "natural". E se não for, então continuarei escolhendo o não-natural, o impossível.
Nós bem sabemos que relações livres (não-governadas) são perfeitamente possíveis, pois as vivenciamos de forma relativamente freqüente - e mais ainda quando nos esforçamos por cultivá-las. O anarquista opta ter por meta (também a arte, a vivacidade) a maximização das condições sociais para a emergência de tais relações. Porque é isso que desejamos e é isso o que fazemos.
E quanto ao crime?
As considerações mais elevadas podem implicar em uma forma de "ética", uma definição mutável e funcional de justiça em cada contexto e em cada situação existente. Anarquistas provavelmente poderiam considerar apenas como "criminoso" aqueles que deliberadamente agissem contra a realização de relações libertárias. Em uma sociedade hipotética onde o sistema carcerário tenha sido abolido, apenas aqueles que não tenham sido dissuadidos deste tipo de atitude poderiam ser alvo da "justiça do povo", ou mesmo da vingança.
Por hora, no entanto, seria suficiente perceber que nossa determinação de criar agora mesmo estas relações, mesmo que de um modo imperfeito e não-utópico, vai inevitavelmente nos colocar numa posição de "criminalidade" batendo de frente com o Estado, o sistema legal, e provavelmente também com as "leis não-escritas" do preconceito popular. Martírio Revolucionário está fora de moda há muito tempo, o objetivo atual é criar tanta liberdade quanto for possível sem ser pego.
Como uma sociedade anarquista funciona?
Uma sociedade anarquista funciona, sempre que duas ou mais pessoas mutuamente direcionam seus esforços na organização de uma parceria legítima, com o objetivo de alcançar desejos compartilhados (ou complementares). Nenhum governo é preciso para estruturar um encontro oculto, um jantar festivo, um mercado negro, uma tong (ou sociedade secreta de ajuda mútua), uma rede de correspondências ou uma BBS, uma relação amorosa, um movimento social espontâneo (como eco-sabotagem ou ativismo contra a AIDS), um coletivo artístico, uma comuna, um encontro pagão, uma vizinhança associada para a proteção mútua, um clube de entusiastas, uma praia de nudismo, uma Zona Autônoma Temporária. A chave, como Fourier teria dito é a paixão - ou, para usar uma palavra que possa soar mais moderna, o desejo.
O que podemos fazer para alcançá-la?
Em outras palavras, como nós maximizamos o potencial para que tais relações espontâneas possam surgir e superar o peso morto de uma sociedade sufocada por todas as variedades de governança? Como podemos dar a paixão ao reino livre, recriando o mundo de cada dia na liberdade verossímil de "espirito livre" e o grupo de desejos compartilhados? Esta é a questão de 64 dólares - que realmente não é nada demais, já que a resposta apenas pode ser encontrada na ficção científica.
Muito bem, meu senso de estratégia está inclinado a rejeitar todas as táticas remanescentes da velha "Nova Esquerda" como manifestações, performances midiáticas, protestos, petições, resistência pacífica e terrorismo aventureiro. Todo este complexo estratégico foi a muito tempo assimilado e produtificado pelo Espetáculo (se você me permite o uso deste jargão situacionista), e certamente não possui qualquer valor, nem mesmo enquanto tática de misconstrução.
Outras duas áreas estratégicas bem diferentes parecem muito mais interessantes e promissoras. Um é o complexo evocado por John Zerzan em seu Elementos de Rejeição - que é a rejeição de toda expansão de mecanismos de controle em grande escala supostamente apolíticos inerentes a instituições como o trabalho, educação, consumismo, política eleitoral, "valores familiares", etc. Os anarquistas poderiam querer voltar suas atenções no sentido de intensificar e dar um outro rumo a esses "elementos". Tais ações provavelmente cairiam na tradicional categoria de "agitprop¹", mas poderiam descambar para a tendência "esquerdista" de institucionalizar ou "fetichizar" tais programas nos termos definidos por uma elite revolucionária auto-instituída ou vanguarda.
A ação na área de "Elementos de Refutação" é algo negativo, até mesmo "niilista", enquanto a segunda área se preocupa com a emergência de organizações espontâneas capazes de prover alternativas reais às instituições de Controle. Assim as ações insurgentes de "refutação" são complementadas e aprimoradas pela proliferação e concatenação de relações "simétricas de parceria". Em certo sentido esta é uma versão melhorada da velha estratégia oscilante de agitação em prol de uma Greve Geral enquanto simultaneamente se constrói uma nova sociedade dentro da casca da velha organização. A diferença, proposta, é que a greve deve ser ampliada para além do "problema do trabalho" incluindo todo o escopo da "vida cotidiana" (num sentido Debordiano)¹¹.
Busquei apresentar propostas bem mais especificas no ensaio chamado de Zona Autônoma Temporária¹²; então aqui me limitarei a alegação de que o objetivo de tais ações não podem propriamente ser designado pela palavra "Revolução" - como uma Greve Geral, por exemplo, jamais foi uma tática "Revolucionária" e sim, mais particularmente, uma forma de "violência social" (como explicado por Sorel¹³). "A Revolução traiu a si mesma como só mais uma mercadoria", cataclismo sangrento, mais uma giro na manivela do controle - isto não é o que desejamos, mas sim uma oportunidade para a anarquia brilhar.
É a Anarquia o fim da História?
Se a vinda da anarquia nunca se "efetivar" a resposta é Não - exceto no caso especial da "História" auto-definida e privilegiada como uma auto-valorização de instituições e "governos". Mas história nesse sentido provavelmente já está morta, já "desapareceu" dentro do Espetáculo, ou da obscenidade da Simulação. A tal ponto que conforme a anarquia envolve um tipo de paleolitismo psíquico, está saudosamente situada em status pós-histórico que poderia se espelhar no pré-histórico. Se os teóricos franceses estão corretos, já começamos a entrar em tal status. A história como estória vai continuar, já que os humanos podem também ser definidos como animais que fazem estórias. mas História como uma estória oficial em pró do Controle perdeu seu monopólio no discurso. Presumo que isto poderá nos trazer alguma vantagem.
Como a Anarquia se relaciona a Tecnologia?
Se anarquia é um tipo de paleolitismo, isso não significa que temos que nos ejetar de volta a Era da Pedra lascada. Estamos interessados no retorno do Paleolítico, e não em um retorno a ele. Nesse ponto acredito que discordo de ambos Zerzan e o Fifth Estate¹, e também dos tecno-futuro-libertários da Califórnia. Ou, de certa forma, concordo com todos eles, eu sou ambos, um ludita e um cyberpunk, portanto inaceitável para ambas as partes.
Minha crença (não conhecimento) é que a sociedade que começa a se aproximar da anarquia geral vai ter que lhe dar com tecnologia no fundamento da paixão, isto é, desejo e prazer. A tecnologia da alienação falharia em sobreviver em tais condições, enquanto a tecnologia do encantamento iria provavelmente persistir. A selvageria no entanto, seria também necessariamente presente e ativa em uma parte cada vez maior do mundo, uma vez que selvageria é prazer. Uma sociedade baseada no prazer nunca nos permitiria tecnicizar ou interferir em sua diversão naturalizada.
Se é verdade que toda técnica é uma forma de meditação, então tudo é cultura. Não aceitamos objetificar a meditação por si só (depois de tudo, nossos sentidos são uma mediação entre o "mundo" e o "cérebro"), mas principalmente com relação a distorção trágica da meditação em alienação. Se a linguagem por si só é uma forma de meditação então nós podemos "purificar a linguagem da tribo"; não é a poesia que nós odiamos, mas sim linguagem enquanto Controle¹.
Por que a Anarquia nunca funcionou antes?
O que você quer dizer com "Por que a Anarquia nunca funcionou antes?!" Ela funcionou centenas, de milhões de vezes. Funcionou entre 90% da existência humana, na Pré-história. E funciona entre as tribos de caçadores e coletores até os dias de hoje. Funciona em todos os grupos de "relações livres" listados acima, dos encontros ocultos as tongs. Funciona toda vez que você convida alguns amigos para um piquenique. "Funcionou" mesmo nas "insurreições que não tiveram êxito" como nos sovietes de Munich e de Shanghai, na Baixa California em 1911, Fiume 1919, Krondstadt 1921, Paris 1968. Funcionou nas comunas, nos enclaves Maroon e nas utopias piratas. Funcionou na antiga Rhode Island na Pennsylvania, em Paris 1870, na Ucrânia, na Catalunha e em Aragão.
O chamado futuro da Anarquia é um julgamento feito precisamente pelo tipo de História que acreditamos estar moribunda. É verdade que poucos desses experimentos (exceto e o pré-histórico e o tribal) duram "muito tempo" - mas isso não diz nada sobre o valor e a natureza da experiência, de indivíduos e grupos, que vivenciaram tais períodos de liberdade. Talvez você possa recordar de algum caso amoroso, um em que mesmo agora lhe traga certo sentido a toda a sua vida, antes e depois - uma "experiência de pico". A História é cega a esta porção do espectro, o mundo da "vida cotidiana" pode ser eventualmente espaço de uma "irrupção do Maravilhoso". Sempre que isso acontece é um triunfo para anarquia. Imagine então (e isso é o tipo de história que a gente gosta) a aventura das principais Zonas Autônomas Temporárias durando seis semanas ou mesmo dois anos, o comunal senso de iluminação, camaradagem, satisfação - o indiviso sentimento de poder, de destino, de criatividade. Ninguém que já tenha vivenciado qualquer coisa como isso pode admitir por apenas um segundo que o perigo das falhas e dos riscos possam pesar sobre a glória absoluta destes breves momentos de levante. Tão logo a sacralidade deste caso de amor seja posta em dúvida, mesmo que termine em dor e sofrimento!
Ao superar o mito da derrota, sentiremos definitivamente a certeza interior do sucesso, como a fria brisa que sopra a chuva no deserto. Saber, desejar, agir no sentido de que não podemos desejar o que ainda não conhecemos. Mas há muito conhecemos o sucesso da anarquia por um longo tempo agora - em fragmentos, talvez, em flashes - mas real, real como as monções, tão real como a paixão. Se não fosse assim, como poderíamos ousar desejá-la, muito menos agir para concretizar sua vitória?
Originalmente intitulado: "The Willimantic/Rensselaer Questions" Em : Anarquia e o Fim da História (Anarchy and the End of History) pp. 87-92
Tradução e Revisão Coletivo Protopia S/A
--------------------------------------------------------------------------------
NOTA
1. Aquele que acinta, que cria situações desagradáveis desnecessárias, que se apega a detalhes superficiais, que age propositalmente para descontentar ou contrariar alguém. (N.T.)
2. Sergei Diaguilev (Сергей Павлович Дягилев) (nascido em 1872 – falecido em 1929), também conhecido como Serge, foi o fundador da companhia Ballets Russes a partir da qual muitos famosos dançarinos e coreógrafos surgiram. (N.T.)
3. Jean Cocteau (nascido em 1889 — falecido em 1963) foi um cineasta, ator, encenador e autor de teatro francês. foi um dos mais talentosos artistas do século XX. Além de ser diretor de cinema, foi poeta, escritor, pintor, dramaturgo, cenógrafo e ator e escultor. (N.T.)
4. No original em francês, Jouissance. (N.T.)
5. Sigla para bulletin board system. Trata-se de um sistema informático surgido na década de 1980, um software, que permite a ligação (conexão) via telefone formando uma pequena rede de computadores, permitindo que um certo número de usuários possam interagir através dela, tal qual hoje se faz com a internet, se bem que com uma abrangência limitada. (N.T.)
6. No original em inglês, Ghandian resistance. (N.T.)
7. No original em inglês, Detournement. Conceito situacionista que trata da possibilidade artística e política de tomar algum objeto criado pelo capitalismo, enquanto sistema político econômico hegemônico e distorcer seu significado e uso original para produzir um efeito crítico. (N.T.)
8. John Zerzan (nascido em 1943) é um dos principais teóricos do anarco-primitivismo da atualidade. Licenciado em Ciências Políticas pela Stanford University e em História pela San Francisco State University. Preso em 1966, nos EUA, pela sua participação nos movimentos de desobediência civil e contra a guerra do Vietnam, conhecidos pelos tumultos de Berckeley. Abandonou a carreira universitária na University of Southern California. Hoje, dedica-se à educação de crianças e à jardinagem. Promove, ainda, conferências sobre o Primitivismo e Paleo-Anarquismo em todo o mundo. É o autor de Elements of Refusal (1988) e de Future Primitive (1994), Questioning Technology (1988), The Mass Psychology of Misery, Tonality and the Totality, The Catastrophe of Postmodernism e The Nihilist's Dictionary. (N.T.)
9. Elements of Refusal, editora, Left Bank Books, Seattle, 1988. (N.A.)
10. Agitprop (em russo: агитпроп) é a contração de "agitação e propaganda". O termo teve origem na Rússia Bolchevista (a futura União Soviética), como uma redução de отдел агитации и пропаганды (otdel agitatsii i propagandy), Departamento de Agitação e Propaganda, que era parte dos comitês centrais e regionais do Partido Comunista da União Soviética. O departamento posteriormente seria renomeado para Departamento Ideológico. (N.T.)
11. Este seria o lugar certo para a questão número 9, "Qual é nossa relação com outras lutas de libertação?", o que nos parece estar sub-sumido a uma questão de táticas/estratégias. A resposta claramente poderia ser: Nós os apoiamos tendo em vista o fato deles serem atualmente movimentos de libertação (eco-sabotagem radical, minorias sexuais, etc); e os criticamos de uma forma construtiva caso desviem em direção a institucionalização (unionismo radical, movimentos pacifistas, etc) Mas também: acompanhamos a olho nú onde a ação está acontecendo. Depois de tudo, não seria a insurreição ela mesma um de nossos "prazeres criminais?" Um eterno novo horizonte onde nós nômades e vagabundos, somos capazes de experimentar novamente seu encanto..... (N.A.)
12. Zona Autônoma Temporária (originalmente publicada pela Autonomedia, N.Y., 1991) é provavelmente, o ensaio mais famoso escrito por Hakim Bey onde ele apresenta parte de sua teoria da ação transformadora através das Zonas Autônomas que, diante da presença do poder e da possibilidade da repressão, assumiriam o caráter provisório como estratégia de propagação de um modo de vida anarquista ontológico sempre buscando uma transformação rizomática a nível global. (N.T.)
13. Georges Eugène Sorel (nascido em 1847 – falecido em 1922) engenheiro formado pela École Polytechnique e teórico do sindicalismo revolucionário, muito popular na França, na Itália e nos Estados Unidos. Mas sua influência começou a decair depois de 1920. É um autor controverso quanto a linha política a qual adere. Suas idéias foram aceitas tanto pelo fascismo italiano quanto pela esquerda revolucionária deste país, influenciando consideravelmente o pensamento anarco-sindicalista (N.T.)
14. Fifth Estate (Quinto Estado) é uma revista publicada em Liberty, Tennessee e em Detroit, Michigan. seu coletivo editorial possui diferentes pontos de vistas nos assuntos abordados pela revista, todos eles no entanto partilham uma perspectiva anti-autoritária, não-dogmática, e voltada a ação transformadora. O título presumivelmente sugere que o periódico é uma alternativa para o quarto estado (tradicionalmente a mídia capitalista). (N.T.)
15. Sobre tecnologia anarquista, veja Ilhas na Rede e Dias verdes em Bruney (Islands In The Web and Green Days In Bruney) de B. Sterling, futuro-próximo SF escrito como "realismo utópico", onde um terceiro mundo pobre, desesperado e super populoso faz uso de tecnologia simples, de uma série de soluções ecológicas e humanas para resolver problemas que já existem. Veja também Energia e Eqüidade (Energy and Equity) de Ivan Ilych. (N.A.)
Religião e Revolução
O dinheiro real e a religião hierárquica parecem ter surgido no mesmo misterioso momento, entre o baixo neolítico e o terceiro milênio antes de Cristo, na Suméria ou Egito. Quem nasceu primeiro, o ovo ou galinha? Seria um a resposta do outro ou um o aspecto do outro?
Não há dúvida de que o dinheiro possui uma profunda implicação religiosa; desde o primeiro momento de sua existência começou a lutar pela condição do espírito – para separar a si mesmo do mundo corporal, para transcender a materialidade, para converter-se em um símbolo realmente eficaz.
Com a invenção da escrita nos idos de 3100 A.C, o dinheiro como o conhecemos emergiu a partir de um complexo sistema de fichas de argila ou contadores que representavam bens materiais, tomando a forma de contas escritas de créditos impressos sobre tábuas de argilas. Praticamente sem exceção, estes cheques parecem referir-se a dívidas com o Estado, com o Templo, e na teoria poderiam ser usados em um amplo sistema de trocas com notas de crédito “acunhadas”pela teocracia.
As moedas não apareceriam até 700 A.C na Grécia, na Ásia Menor; eram fabricadas de electrum (ouro e prata) não porque estes metais tinham um valor básico mas porque eram sagrados – sol e lua. A diferença de valor entre elas sempre girava na proporção de 14:1, não porque a terra continha 14 vezes a quantidade de prata que de ouro, mas porque a Lua tarda 14 “Sóis” para crescer da lua minguante à cheia. As moedas puderam originar-se como fichas do templo simbolizando a parte que os devotos compartilhavam do sacrifício – souvenires sagrados, que mais tarde puderam ser trocados por bens já que tinham “mana”, como valor de uso.
(Esta função pode ter se originado no comércio na Idade da Pedra com cabeças de machado de pedra cerimoniais usadas nos ritos de distribuição do tipo Potlach¹).
Diferentemente, com as notas de crédito da Mesopotâmia, as moedas eram gravadas com imagens sagradas e eram vistas como objetos liminares, nodos entre a realidade cotidiana e o mundo dos espíritos (isto aponta ao costume de dobrar moedas para espiritualizá-las e lançá-las dentro de um poço, que são os olhos do outro mundo) a dívida em si mesma – o verdadeiro conteúdo de todo dinheiro – é um conceito altamente espiritual. Como o tributo (dívida primitiva) exemplifica a capitulação a um “poder legítimo” de expropriação mascarando em si a ideologia religiosa – mas com a dívida real diz respeito à habilidade unicamente espiritual de reproduzir-se a si mesmo como se fosse um ser orgânico. Inclusive agora permanece como a única substância morta em todo mundo que possui esse poder – “o dinheiro gera dinheiro”. A essas alturas o dinheiro começa a tomar um aspecto paródico vis-à-vis com a religião – parecendo o dinheiro desejar rivalizar com deus para converter-se em um espírito imanente na forma metafísica a qual, apesar de sê-lo, “governa o mundo”. A religião deve tomar nota dessa natureza blasfêmia do dinheiro e condená-lo como “contra natura”, anti-natural. O dinheiro e a religião entram em oposição - um não pode servir à Deus e a Mammon² simultaneamente; mas enquanto a religião continuar atuando como a ideologia da separação (o Estado hierárquico, a expropriação, etc) nunca poderá realmente dominar o problema-do-dinheiro.
Os reformistas uma e outra vez surgiram de dentro da religião para expulsar os prestamitas³ do templo, que sempre voltam – ao final, lentamente os prestamitas se convertem no Templo (não é casualidade que os bancos no decorrer dos tempos imitaram as formas da arquitetura religiosa).
De acordo com Weber⁴ foi Calvino quem finalmente resolveu o problema com sua justificação teológica para a “usura” – mas esta apenas merece atenção por parte dos Protestantes reais, como os Ranters⁵ e os Diggers⁶, aqueles que propuseram que a religião deveria de uma vez por todas entrar em total oposição com o dinheiro – e deste modo iniciaria o Milênio. Talvez pensassem que a Ilustração fosse a mais adequada para conseguir resolver o problema – desejando a religião como a ideologia da classe dominante e substituindo-a com o racionalismo (e as Economias Clássicas). Esta fórmula de qualquer forma não faria justiça àqueles iluministas que propuseram o desmantelamento de todas as ideologias de poder e autoridade - não ajudaram a explicar o porque da religião “oficial” falhar na hora de afirmar seu potencial como oposição e, ao contrário, apostou em prover suporte moral ao Estado e ao Capital.
Com a influência do Romantismo, no entanto surgiu – tanto dentro quanto fora da “religião oficial” – uma crescente sensação de espiritualidade como alternativa aos aspectos opressivos do Liberalismo e seus aliados intelectuais/artísticos. Por um lado esse sentido conduziu a uma forma conservadora-revolucionária de reação romântica (Novalis⁷, por exemplo) – mas por outro lado também se alimentou da velha tradição herética (a qual também começou com o nascimento da “Civilização” como um movimento de resistência contra a teocracia da expropriação) – e encontrou a si mesma com uma estranha nova aliança com o racionalismo radical (a então nascente “esquerda”). William Blake⁸, por exemplo, ou a Capillas Blasfemas, de Spence e seus seguidores, representam essa tendência. O encontro entre espiritualidade e resistência não é algum tipo de evento surrealista ou anômalo para ser aplanado ou racionalizado pela “História” – antes, ocupa uma posição nas profundas raízes do “radicalismo”; - e apesar do ateísmo militante de Marx ou Bakunin (em si mesmo um tipo de misticismo mudado ou “heresia”), o espiritual, todavia permanece indissoluvelmente ligado com a “Velha Boa Causa” que ajudou a criar.
Faz alguns anos Régis Debray⁹ escreveu um artigo apontando que apesar de as confiadas predições do materialismo do século XIX, a religião ainda falhava perseverantemente em desaparecer – e talvez fosse a hora para a Revolução preocupar-se sobre essa misteriosa persistência. Vindo de uma cultura católica, Debray estava interessado na Teologia da Libertação, que é uma projeção antiga quase herética dos pobres Franciscanos e o recorrente re-descobrimento do “ comunismo bíblico”. Se tivesse sido considerada parte da cultura protestante poderia ser uma referência ao século XVII, buscando sua verdadeira herança. Se fosse muçulmana poderia ter evocado o radicalismo dos xiitas ou ismailitas, ou o anticolonialismo neo-sufi do século XIX. Toda religião dá lugar a sua própria antítese interna uma e outra vez; toda religião tem considerado as implicações da oposição moral ao poder; todas contradições contém um vocabulário de resistência como também uma capitulação à opressão. Falando amplamente alguém poderia dizer que até agora esta “contra – tradição” – que está tanto fora como dentro da religião – tem constituído um conteúdo suprimido. A pergunta de Debray se referia ao potencial para sua realização, mas a Teologia da Libertação perdeu a maior parte de seu apoio dentro da igreja quando não pode manter durante mais tempo sua posição como rival (ou cúmplice) do Comunismo Soviético; e não pode manter esta função devido ao colapso comunista.
Mas alguns teólogos da Libertação provaram ser sinceros, e ainda persistem nela (como no México); Além disso, uma tendência inteiramente submergida e relacionada com o Catolicismo, exemplificada dentro da Ortodoxia (por ex. Bakunin), o Protestantismo, O Judaísmo, O Islamismo, e (de uma maneira diferente) o Budismo; e ainda, a maioria das formas de espiritualidade indígenas sobreviventes (por exemplo o Xamanismo) ou o sincretismo Afro-americano podem encontrar um ponto comum com várias tendências radicais com as religiões “maiores” em questões como meio ambiente, e a moralidade do anti-capitalismo. Apesar de alguns elementos de reação romântica, vários movimentos New Age e pós-new age podem também associar-se com esta ampla categoria.
Em um ensaio anterior havíamos esboçado as idéias parar crer que o colapso do Comunismo implicava no triunfo de seu único oponente, o Capitalismo; de acordo com a propaganda neoliberal só existe um mundo único agora; e esta situação política tem tido graves implicações para uma teoria do dinheiro como entidade virtual (autônoma, espiritualizada e todo-poderosa) do universo único de significado. Com estas condições tudo o que uma vez foi uma terceira possibilidade (neutralidade, retirada, contra-cultura, o “terceiro mundo”, etc) agora deve encontrar-se a si mesma em uma nova situação. Não mais existe uma segunda posição - como pode haver uma terceira? – As “alternativas“ têm sido reduzidas catastroficamente. O mundo único está agora em posição de esmagar qualquer coisa que uma vez escapou de seu abraço estático. Graças à desafortunada distração de prosseguir uma guerra fundamentalmente econômica contra o Império do Mal. Já não há terceiro caminho, não há nenhum mais. Tudo o que é diferente deve subsumir-se na uniformidade do Mundo Único – ou também se descobrirá como oposição a esse mundo. Tomadas essas teses como dadas, devemos perguntar onde se localizará a religião neste novo mapa de zonas de capitulação e resistência. Se “a revolução” foi liberada do incubo da opressão Soviética e esta agora é de novo um conceito válido, estamos finalmente com uma posição para oferecer uma tentativa de resposta à questão posta por Debray?
Tomando “a religião” como um todo, incluindo inclusive esses aspectos como o Xamanismo que pertencem a sociedade mais que ao Estado (segundo a antropologia de Clastres¹⁰); incluindo politeísmo, monoteísmo e no-teismo; incluindo misticismo e heresias tanto como ortodoxias, igrejas reformadas e novas religiões – o sujeito de estudo obviamente perde definição, rebeldia, coerência; e não pode ser questionado porque só geraria um babel de reações em vez de uma resposta. Mas a religião se refere a algo – chamá-lo uma certa variedade de cores no espectro do futuro humano – e como tal deve ser considerado (ao menos temporariamente) como uma entidade dialógica valida e como um sujeito teorizável. No movimento triunfal do Capital – referimo-nos ao seu momento processual – toda religião somente pode ser vista como uma nulidade, por exemplo, como um tipo de comodidade a ser empacotada e vendida, um recurso a ser desmontado, ou uma oposição a ser eliminada. Qualquer idéia ou ideologia que não pode ser subsumida ao “ Fim da História” do capital deve ser condenada. Isto inclui tanto a reação como a resistência – e desde já em maior parte a re-conexão não separativa (religare) da consciência com “ o espírito” como autodeterminação imediata imaginativa/ imaginária e criação de valores – a meta original de todo ritual e culto. A religião em outras palavras perdeu toda conexão com o poder mundial porque o poder migrou fora do mundo – abandonou inclusive o Estado e logrou a pureza da apoteose, como Deus que abandonou Anthony no poema e Cavafy¹¹. Os poucos Estados (majoritariamente islâmicos) onde a religião possui poder estão localizados precisamente dentro da região continuamente reduzida da oposição nacional ao Capital – (por conseguinte provêm de estranhos companheiros de cama como Cuba!). Como qualquer outra “terceira possibilidade” a religião se encontra com uma nova dicotomia: capitulação total ou a revolta. Por conseguinte, o “potencial revolucionário” da religião aparece claramente – ainda que não pareça claro se pode tomar a forma de reação ou de radicalismo - ou inclusive pode ser que a religião ainda não estivera derrotada – já ser sua negativa ir de um inimigo a um fantasma.
Na Rússia e Sérvia, a Igreja Ortodoxa parece haver-se lançado a sua sorte como reação contra à Nova Ordem Mundial e por conseguinte encontraram novos companheiros em seus velhos opressores Bolcheviques. Na Chechênia a Ordem Sufi Naqshbandi continua seu combate de séculos contra o imperialismo Russo. Em Chiapas há uma estranha aliança entre pagãos maias e católicos. Certas frações do Protestantismo americano foram dirigidas a um ponto de paranóia e resistência armada (mas inclusive os paranóicos têm algum inimigo real); enquanto a espiritualidade nativa-americana experimenta um pequeno milagroso revival – não um traje de fantasma manifestando-se nessa época, senão uma razoável e profunda postura contra a hegemonia da monocultura do capital.
O Dalai Lama algumas vezes aparece como um dos “lideres mundiais” capazes de dizer verdades tanto sobre os remanescentes da opressão Comunista como sobre a desumanidade capitalista; um “Tibet Livre” pode prover um foco para um bloco “inter-fé” de pequenas nações e grupos religiosos aliados contra o transcendente darwinismo social de consenso. O Xamanismo Ártico pode reemergir como uma ideologia pela autodeterminação de certas novas repúblicas Siberianas – e algumas novas Religiões (como o Neo-Paganismo Ocidental ou os cultos psicodélicos) que também pertencem por definição ou por defeito ao pólo de oposição.
No Islamismo tem-se visto a si mesmo como um inimigo do Cristianismo imperial e o imperialismo Europeu praticamente desde o momento do nascimento. Durante o século XX funcionou como uma terceira via tanto contra o Capitalismo como contra o Comunismo, e no contexto do novo mundo único constituiu por definição um dos poucos movimentos de massas que não podem englobar-se na unidade do consenso.
Desafortunadamente, a ponta de lança da resistência – “o fundamentalismo” - tende a reduzir a complexidade do Islã a uma ideologia artificialmente coerente - o “Islamismo” - a qual claramente falha ao falar ao desejo do humano normal da diferença e complexidade. O fundamentalismo já falhou em incumbir a si mesmo com as “liberdades empíricas” as quais devem constituir as demandas mínimas de uma nova resistência; por exemplo, sua critica à “usura” é obviamente uma resposta inadequada às maquinações do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial. As “portas da interpretação” da Shariah¹² devem ser reabertas – e não fechadas para sempre – e uma alternativa totalmente realizada ao Capitalismo deve emergir de dentro da tradição. De qualquer maneira qualquer um pode pensar que a Revolução Líbia de 1969 tinha ao menos a virtude de intentar fusionar o anarco-sindicalismo de 68 com o igualitarismo Neo-Sufi das Ordens do Norte da África, e criar um Islamismo revolucionário – algo similar se pode dizer do “socialismo Xiita” de Ali Shariati no Irã, o qual foi afastado pela uleocracia¹ ³ antes de poder concretizar um movimento coerente.
O fato é que o Islamismo não pode ser rechaçado como o monólito puritano atrasado nos meios capitalistas. Se uma genuína coalizão anti-Capitalista chegar a aparecer no mundo, não teria acontecido sem o Islamismo.
A meta de qualquer teoria capaz de qualquer tipo de investigação sobre Islamismo, eu creio, está agora em fomentar suas tradições igualitárias e radicais, em retirar seus modos autoritários e reacionários de discurso. Dentro do Islamismo persistem míticas figuras como o “Profeta Verde” e guia oculto dos místicos, al-Khezer, que pôde facilmente converter-se em um tipo de santo patrono da proteção do meio ambiente; enquanto a história oferece modelos com o grande Emir Sufí Alg Algerino, lutador da liberdade de Abdul Qadir, cujo ultimo ato (no exílio, em Damasco) foi proteger os cristãos sírios contra a intolerância das ulemas¹⁴. Visto de fora, neste Islamismo existe potencial de um movimento “interfé” concernente com os ideais de paz, tolerância e resistência à violência pós-racionalista, pós-secular do neoliberalismo e seus aliados. Com efeito, pois, o “potencial revolucionário” do Islamismo ainda não foi realizado – mas é real.
Desde que o Cristianismo foi a religião que “deu nascimento” (nos termos de Weber) ao Capitalismo, a sua posição em relação a presente apoteose do Capitalismo é obviamente mais problemática do que a do Islã. Por séculos o Cristianismo tratou de delinear-se e construir um tipo próprio de mundo imaginário auto-suficiente, no qual alguma aparência do social pudesse persistir (ainda que aos domingos) – mesmo quando mantinha a ilusão acolhedora de alguma relação com o poder. Como um aliado do Capital (com sua aparente indiferença benigna às hipóteses da fé) contra o “Comunismo sem Deus”, o Cristianismo pôde preservar a ilusão do poder – ao menos até cinco anos atrás. Agora o Capitalismo não mais necessita do Cristianismo e o apoio social de que desfrutava vai se evaporar logo. A Rainha da Inglaterra já pensou em renunciar de seu cargo enquanto líder da Igreja Anglicana – e parece improvável que seja substituída pelo executivo principal de algum vasto Zaibatsu¹⁵ internacional! Dinheiro é deus – Deus está morto, de fato; o Capitalismo realizou uma paródia secreta do ideal Iluminista. Mas Jesus é um deus que morre e ressuscita – alguém diria que ele atravessou tudo isso antes. Mesmo Nietzsche assinou sua última carta “insana” como “Dionísio e o Crucificado”; no final essa é talvez a única religião que pode “superar” a religião. Dentro do Cristianismo aparecem um grande número de tendências (ou persistem desde o século XVII, como os quakers¹⁶) buscando reviver esse messias radical que limpou o Templo e prometeu o Reino aos pobres. Na América, por exemplo, pareceria impossível imaginar um movimento de massas realmente efetivo contra o Capital (um tipo de “populismo progressivo”) sem a participação das Igrejas. De novo a tarefa teórica começa a esclarecer-se; a necessidade não propõe algum tipo vulgar de “entrismo” no Cristianismo organizado para radicalizá-lo por uma conspiração vinda de dentro. O melhor seria encorajar o sincero e generalizado potencial para o radicalismo Cristão intrínseco como um honesto crente (apesar de tudo os existencialistas tem fé!) ou como um honesto simpatizante de fora.
Para testar esta teorização pegue um exemplo – digamos a Irlanda (de onde estou escrevendo isso). Dado que o os “Problemas” da Irlanda surgem majoritariamente do sectarismo, obviamente que se tomará uma postura anticlerical; de fato, o ateísmo deveria ser ao menos emocionalmente apropriado. Mas a ambigüidade inerente da religião na história Irlandesa deve ser lembrada: - Houve momentos quando laicos e padres Católicos apoiaram a resistência ou a revolução, & houve momentos quando laicos e sacerdotes Protestantes apoiaram a resistência ou a revolução. As hierarquias das igrejas geralmente demonstraram serem reacionárias – mas hierarquia não é o mesmo que religião. No lado Protestante temos Wolfe Tone & os Irlandeses Unidos - um movimento revolucionário “entre-crenças”. Mesmo hoje, tais possibilidades não estão mortas na Irlanda do Norte; o anti-sectarismo não é apenas um ideal socialista mas também um ideal Cristão. No lado Católico... anos atrás conheci um padre radical num festival pagão nas Ilhas Aran, um amigo de Ivan Illich¹⁷. Quando perguntei “Qual é exatamente sua relação com Roma?” respondeu-me, “Roma? Roma é o inimigo”. Roma perdeu sua influência na Irlanda nos últimos anos, derrubada pela revolta anti-puritana e pelo escândalo interno. Seria incorreto dizer que o poder da Igreja passou para o Estado, a não ser que também acrescentemos que o poder do Governo passou para a Europa, e poder da Europa passou para o capital internacional. O significado do Catolicismo na Irlanda está pronto para ser compreendido. Nos próximos anos poderemos ver tanto do exterior quanto do interior da Igreja um tipo de revival da “Cristandade Celta” – devota da resistência contra a contaminação do meio-ambiente, tanto físico como imaginário, e assim comprometida com a luta anti-capitalista. De qualquer modo, essa tentativa incluirá ou ao menos influenciará também o Protestantismo. Tal movimento de amplas bases pode facilmente encontrar sua expressão política natural no socialismo ou inclusive no anarco-sindicalismo, e serviria uma função particularmente útil como uma força contra o sectarismo & as regras das classes intelectuais. Assim, até na Irlanda a religião pode ter um futuro revolucionário.
Espero que estas idéias encontrem muito pouca aceitação dentro do tradicional anarquismo ateísta ou dos restos do “materialismo dialético”. O radicalismo Iluminista recusou-se durante muito tempo a reconhecer qualquer raiz que não seja remota no radicalismo religioso. Como resultado, a Revolução lança o bebê (consciência não ordinária) à banheira da Inquisição ou à repressão puritana. Apesar de Sorel¹⁸ insistir que a revolução necessita de um “mito”, ela prefere reduzir tudo à razão pura. Mas o anarquismo e o comunismo espiritual (como a religião em si mesma) não sumiram. De fato, convertendo-se em anti-Religião, o radicalismo recorre a um tipo de misticismo próprio, completo com o ritual, o simbolismo e a moralidade. Os comentários de Bakunin a respeito de Deus - de que se ele existisse teríamos que matá-lo – poderiam depois de tudo passar como pura ortodoxia dentro do Zen-Budismo! O movimento psicodélico, que oferece um tipo de verificação “científica” (ou ao menos experimental) da consciência não-ordinária, aponta para um grau de reaproximação entre a espiritualidade e as políticas radicais – e a trajetória deste movimento pode ter apenas começado. Se a religião “sempre” atuou escravizando a mente ou reproduzindo a ideologia da classe dominante, ela também “sempre” envolveu um tipo de entheogenesis (nascimento do deus interior) ou liberação da consciência; uma forma de proposta utópica ou promessa do “céu na terra”; e uma forma de ação militante e positiva pela “justiça social” como plano de Deus para a criação. O Xamanismo é uma forma de “religião” que (como mostrou Clastres) efetivamente institucionaliza a espiritualidade contra o surgimento da hierarquia e da separação – e todas as religiões possuem ao menos um traço xamânico.
que colaboraram com o anarquismo na revolução de 1911. O Judaísmo produziu o “anarco-sionismo” de Martin Buber e Gershlm Scholem (profundamente influenciado por Gustav Laundauer¹⁹ Toda religião pode apontar para uma tradição radical de algum tipo. O Taoísmo uma vez produziu os Turbantes Amarelos – ou as Tongs²⁰ e outros anarquistas de 1919), os quais encontraram sua mais eloqüente e paradoxal voz em Walter Benjamin²¹. O Hinduísmo deu lugar ao ultra-radical Partido Terrorista Bengali – e também a M. Gandhi, o único teórico com êxito da revolução não-violenta do mundo moderno. Obviamente o anarquismo e o comunismo nunca estarão de acordo com a religião nas questões de autoridade e propriedade; e talvez se possa pensar que “depois da Revolução” tais questões possam permanecer ainda sem se resolver. Mas parece claro que sem a religião não haverá uma revolução radical; a Velha Esquerda e a (velha) Nova Esquerda dificilmente poderão realizá-la sozinhas. A alternativa de uma aliança agora é como observar como a Reação restringe a força da religião e lança uma nova revolução sem nós. Gostando ou não, necessita-se de uma espécie de estratégia preventiva. A resistência requer um vocabulário no qual nossa causa comum possa ser discutida; e por isso estas propostas superficiais.
Mesmo assumindo que poderíamos classificar tudo acima com a rubrica de sentimentos admiráveis, ainda estaríamos longe de qualquer programa óbvio de ação. A religião não vai salvar-nos nesse sentido (talvez o contrário seja o correto!) – de qualquer maneira a religião enfrenta a mesma perplexidade que qualquer outra forma de “terceira posição”, incluindo todas as formas de antiautoritarismo e anti-Capitalismo radical. A nova totalidade e seus meios surgem tão penetrantes, como que para condenar todos programas de conteúdo revolucionário, a partir do momento em que qualquer “mensagem” está igualmente sujeita à subordinação no “meio” que o mesmo Capital. É claro que a situação é desesperançosa – mas apenas a estupidez tomaria isso como razão para o desespero ou como para o terminal aborrecimento da derrota. Esperança contra esperança – a esperança revolucionária de Bloch²² – pertence a uma “utopia” que nunca está totalmente ausente, mesmo quando parece menos presente; e pertence também a uma esfera religiosa em que a desesperança é o último pecado contra o sagrado espírito: - a última traição da divindade interior – o fracasso em converter-se em humano. O “dever Kármico” no sentido de Bhagavad Gita²³ – ou no sentido da “tarefa revolucionária” – não é algo imposto pela natureza, como a gravidade, ou a morte. É um presente livre do espírito – pode-se aceitá-lo ou recusá-lo - e ambas posições são perigosas. Recusar é correr o risco de morrer sem haver vivido. Aceitar é uma possibilidade mais perigosa, mas muito mais interessante. Uma versão da Aposta de Pascal²⁴ – não pela imortalidade da alma dessa vez, mas simplesmente por sua existência plena.
Usando a metáfora religiosa (que tentamos evitar ao máximo) o milênio começou cinco anos antes do final do século, quando o Mundo Único veio à luz e baniu toda dualidade. Contudo, visto da perspectiva Judaico-Cristã-Islâmica este é o falso milênio do “ Anti-Cristo”; o qual acaba por não ser uma “persona” (exceto talvez no mundo dos Arquétipos), mas sim uma entidade impessoal, uma força contra naturam – entropia disfarçada de vida. Nesta visão o reino da iniqüidade deve e será desafiado no verdadeiro milênio, o advento do messias. Mas o messias tampouco é uma só pessoa no mundo - é antes uma coletividade na qual cada indivíduo é realizado e desse modo (de novo metaforicamente ou imaginariamente) imortalizado. O “povo-como-messias” não entra na uniformidade homogênea nem na infernal separação do Capitalismo entrópico, mas na diferença e na presença da revolução – a luta, a “guerra-santa”. Apenas com estas bases podemos começar a trabalhar numa teoria de reconciliação entre as forças positivas da religião e a causa da resistência. O que oferecemos aqui é simplesmente o princípio do princípio.
Dublin, 01 de Setembro de 1996.
Este texto foi traduzido por Roberto B. (rsbortolon@yahoo.com.br) e Daya (ecodaya@yahoo.com.br).
--------------------------------------------------------------------------------
NOTAS
1. N. do T. O potlatch é uma cerimônia praticada entre diferentes grupos índigenas da América do Norte, como os Haida, os Tlingit, os Salish e os Kwakiutl. Consiste num evento sagrado de homenagem, geralmente envolvendo um banquete de carne de foca ou salmão, seguido por uma renúncia a todos os bens materiais acumulados pelo homenageado – bens que devem ser entregues a parentes e amigos. A própria palavra potlatch significa dar, caracterizando o ritual como de oferta de bens e de redistribuição da riqueza. A expectativa do homenageado é receber presentes também daqueles para os quais deu seus bens, quando for a hora do potlatch destes.
2. N. do T. Mammon é o ídolo pagão citado no Novo Testamento como um falso deus do culto à riqueza, à avareza e ao ganho material, é também considerado a personificação de um dos sete pecados capitais, a "ganância".
3. N. do T. Agiotas legalizados ou reconhecidos pelo governantes de um estado ou clero de uma instituição religiosa. Atualmente papel desempenhado por bancos e casas de crédito.
4. N. do T. Max Weber (nascido em1864 — falecido em 1920) foi um intelectual alemão, jurista, economista e considerado um dos fundadores da Sociologia. Em um dos seus trabalhos Weber demonstra como a ética religiosa protestante forneceu os fundamentos para a doutrina capitalista.
5. N. do T. Ranters (literalmente Faladores), era a denominação dada a uma seita inglesa do século XVII, considerada radical e herética por pregar a idéia de que Deus está essencialmente em todas as criaturas. Crença que levou seus membros a negar a autoridade da igreja, das escrituras, do clero e seus serviços, conclamando a todos a ouvirem seu "Jesus interior".
6. N. do T. Diggers (literalmente Escavadores), foi um movimento de trabalhadores rurais pobres, liderado por Gerrard Winstanley entre os anos de 1649 e 1650 na Inglaterra, que pretendia substituir a ordem feudal recentemente derrotada na Guerra civil inglesa por uma sociedade igualitária, agrária e cristã anticlerical.
7. N. do T. Georg Philipp Friedrich von Hardenberg (nascido em 1772 — falecido em 1801), Freiherr (Barão) von Hardenberg, mais conhecido pelo pseudônimo Novalis, foi um dos mais importantes representantes do romantismo alemão de finais do século XVIII e o criador da flor azul, um dos símbolos mais duráveis do movimento romântico.
8. N. do T. William Blake (nascido em 1757 – falecido em 1827) foi um poeta inglês, pintor e tipografo. Amplamente não reconhecido durante seu tempo de vida, o trabalho de Blake é hoje considerado seminal e significante tanto para a história da poesia quanto das artes visuais.
9. N. do T. Jules Régis Debray (nascido em 1940) é um filósofo, jornalista e professor francês. Foi seguidor do marxista Louis Althusser. Amigo de Fidel Castro e Ernesto Che Guevara, nos anos 1960 acompanhou o Che na guerrilha, especialmente na Bolívia, onde foi preso em 1967. Nesse mesmo ano escreveu sua primeira obra, "A Revolução na revolução". Pertenceu ao Partido Socialista Francês , do qual se distanciou por diferenças ideológicas com o ex-presidente François Mitterrand. Atualmente é mais conhecido como o criador da mediologia - o estudo crítico dos signos e de sua difusão na sociedade.
10. N. do T. Pierre Clastres (nascido em 1934 - falecido em 1977) fui um grande antropólogo e etnólogo de aspirações libertárias. Realizou pesquisas de campo na América do Sul entre os índios Guayaki, Guarani e Yanomami. Publicou Crônica dos índios Guayaki 1972, A sociedade contra o Estado 1974, e A fala sagrada - mitos e cantos sagrados dos índios Guarani 1974. Sua morte prematura, em um acidente de carro interrompeu a conclusão de textos que mais tarde seriam reunidos no livro Arqueologia da violência - ensaios de antropologia política 1980.
11. N. do T. Konstantínos Kaváfis, no alfabeto grego: Κωνσταντίνος Πέτρου Καβάφης, (nascido em 1863 — falecido em 1933) foi um poeta grego. Por vezes, seu nome aparece creditado como Constantine P. Cavafy. Nascido numa familía grega radicada no Egito e tendo vivido dos sete aos dezenove anos de idade em Liverpool, Kaváfis era um cético e questionava a Cristandade, o patriotismo e a heterossexualidade enquanto normalidade humana. Publicou 154 poemas e cerca de mais uma dúzia permaneceram incompletos ou no esboço.
12. N. do T. A Sharía ou shariah (em árabe شَرِيعَة šarīʿa, "caminho" ou "trilha"), chamada pela mídia ocidental de lei mulçumana los (e não lei islâmica, já que poderia se dizer que na realidade está inspirada no Islã, mas não é irrefutável como o Corão), é o corpo de Direito Islâmico. Constitui um código detalhado de conduta, no qual se incluem também as normas relacionadas às formas de culto e os critérios da moral e da vida, coisas permitidas ou proibidas,. e as regras que separam o bem do mal. É adotada pela maioria dos mulçumanos, em maior ou menor grau, como uma questão de consciência pessoal. Mas também pode ser instituída como lei por certos estados e também por tribunais que podem velar pelo seu cumprimento. Muitos paises islâmicos adotaram elementos da shariah em seus estatutos como por exemplo heresias e os testamentos para a regulação de atividades bancárias e contratos.
13. N. do T. Uleocracia é o nome dado a um regime teocratico regido por estudiosos ou sábios da religião islâmica, as ulemas. Os governos dos Talibans no Afeganistão e dos Aiatolás no Irã podem ser considerados bons exemplos de Uleocracia.
14. N. do T. Ulema (em língua árabe, علماء, Ulamā, singular Ālim) é o nome que dado aos estudiosos e doutores da "ciência religiosa" islâmica e da shariah ou lei islâmica (ulùm al-diniyya). Literalmente, a palavra significa sábio, doutor. A ulema enquanto instituição é mais poderosa no islamismo xiita (shi'a islam), onde o seu papel é institucionalizado, porém são subordinados aos herdeiros de Ali e à hierarquia dos mulás.
15. N. do T. No Japão o termo zaibatsu é a definição de um conglomerado de empresas que estão presentes em quase todos os setores da economia. Os executivos das empresas que tomam parte neste conglomerado buscam adquirir quantidades expressivas de ações de outras empresas deste mesmo grupo, em uma forma de acionismo cruzado.
16. N. do T. Quaker é o nome dado a um membro de um grupo religioso de tradição protestante, chamado Sociedade Religiosa dos Amigos (Religious Society of Friends). Criada em 1652, pelo inglês George Fox, a Sociedade dos Amigos reagiu contra os abusos da Igreja Anglicana, colocando-se sob a inspiração directa do Espírito Santo. Os membros desta sociedade, ridicularizados com o nome de quakers, ou tremedores, rejeitam qualquer organização clerical, para viver no recolhimento, na pureza moral e na prática activa do pacifismo, da solidariedade e da filantropia. Perseguídos na Inglaterra por Carlos II, os quakers emigraram em massa para a América, onde, em 1681, criaram sob a égide de William Penn a colónia da Pensilvânia.
17. N. do T. Ivan Illich (nascido em 1926 - falecido em 2002) foi um filosofo anarquista nascido na Áustria, foi padre na juventude, mas rompeu com a igreja se tornando um de seus maiores críticos. Foi também autor de uma série de críticas muito bem fundamentadas às instituições centrais da cultura ocidental contemporânea tais como a educação, o trabalho e o desenvolvimento econômico.
18. N. do T. Georges Eugène Sorel (nascido em 1847 – falecido em 1922) engenheiro formado pela École Polytechnique e teórico do sindicalismo revolucionário, muito popular na França, na Itália e nos Estados Unidos. Mas sua influência começou a decair depois de 1920. É um autor controverso quanto a linha política a qual adere. Suas idéias foram aceitas tanto pelo fascismo italiano quanto pela esquerda revolucionária deste país, influenciando consideravelmente o pensamento anarco-sindicalista.
19. N. do T. As tong são formas muito antigas de sociedades secretas chinesas, criadas para apoio mútuo e proteção, no passado eram horizontais e descentralizadas, fatores que dificultavam seu combate e aumentavam seu poder. As tong estavam envolvidas numa série de ações que poderiam ser consideradas pela perspectiva estatal como criminosas. Ao longo da história as tong já estiveram por trás do assassinato de déspotas imperadores chineses, pelo comércio do ópio e haxixe na China, chegando até os dias de hoje tomando parte também em esquemas de imigração ilegal de orientais para as Américas.
20. N. do T. Gustav Landauer (nascido em 1870 - falecido em 1919) foi um crítico feroz à burocracia e um ardente defesor do socialismo libertário. Atacou o marxismo autoritário que considerava por si só opressivo e obstáculo ao desenvolvimento e à libertação humana. Amigo pessoal de Martin Buber, propagandeador das práticas anarco-socialistas no Movimento Sionista e dos pioneiros do kibbutz. Dotado de uma preocupação especial com a dimensão espiritual do anarquismo, ele é lembrado por suas convicções de que o Estado é uma forma de relacionamento institucionalizado. Laundauer acreditava na não necessidade de uma revolução para superar o Estado, mas sim na possibilidade de uma mudança da natureza e da qualidade dos relacionamentos.
21. N. do T. Walter Benjamin (nascido em 1892 — falecido em 1940) foi um crítico literário e ensaísta alemão cuja obra tratou de temas referentes a transformação social a partir de uma perspectiva marxista. Foi associado à Escola de Frankfurt e publicou uma série de obras de profunda reflexão.Com a ascenção do nazismo tornou-se um refugiado e diante da perspectiva de ser capturado escolheu o suicídio.
22. N. do T. Ernst Bloch (nascido em 1885 — falecido em 1977) foi um filósofo alemão. A principal temática que perpassa a sua obra é a da Utopia que concebia como uma força revolucionária. Suas principais obras foram: Princípio Esperança, O Espírito da Utopia, Sujeito e Objeto em Hegel, entre outras. Exerceu forte influência sobre Erich Fromm, e diversos outros pensadores e se tornou referência obrigatória para todos que estudam o tema da utopia.
23. N. do T. A Bhagavad Gita (A Canção do Senhor) é um texto religioso Hindu. Faz parte do épico Mahabharata, embora seja de composição mais recente que o todo deste livro. Na versão que o inclui, o Mahabharata é datado no Século IV a.C. O texto, escrito em sânscrito, relata o diálogo de Krishna (uma das encarnações de Vishnu) com Arjuna (seu discípulo guerreiro) em pleno campo de batalha. Arjuna representa o papel de uma alma confusa sobre seu dever, e recebe iluminação diretamente de Krishna, que o instrui na ciência da auto-realização.
24. N. do T. Blaise Pascal (nascido em 1623 - falecido em 1662) foi um filósofo, físico e matemático francês, que como filósofo e místico criou uma das afirmações mais pronunciadas pela humanidade nos séculos posteriores, O coração tem razões que a própria razão desconhece, síntese de sua doutrina filosófica: o raciocínio lógico e a emoção.
Não há dúvida de que o dinheiro possui uma profunda implicação religiosa; desde o primeiro momento de sua existência começou a lutar pela condição do espírito – para separar a si mesmo do mundo corporal, para transcender a materialidade, para converter-se em um símbolo realmente eficaz.
Com a invenção da escrita nos idos de 3100 A.C, o dinheiro como o conhecemos emergiu a partir de um complexo sistema de fichas de argila ou contadores que representavam bens materiais, tomando a forma de contas escritas de créditos impressos sobre tábuas de argilas. Praticamente sem exceção, estes cheques parecem referir-se a dívidas com o Estado, com o Templo, e na teoria poderiam ser usados em um amplo sistema de trocas com notas de crédito “acunhadas”pela teocracia.
As moedas não apareceriam até 700 A.C na Grécia, na Ásia Menor; eram fabricadas de electrum (ouro e prata) não porque estes metais tinham um valor básico mas porque eram sagrados – sol e lua. A diferença de valor entre elas sempre girava na proporção de 14:1, não porque a terra continha 14 vezes a quantidade de prata que de ouro, mas porque a Lua tarda 14 “Sóis” para crescer da lua minguante à cheia. As moedas puderam originar-se como fichas do templo simbolizando a parte que os devotos compartilhavam do sacrifício – souvenires sagrados, que mais tarde puderam ser trocados por bens já que tinham “mana”, como valor de uso.
(Esta função pode ter se originado no comércio na Idade da Pedra com cabeças de machado de pedra cerimoniais usadas nos ritos de distribuição do tipo Potlach¹).
Diferentemente, com as notas de crédito da Mesopotâmia, as moedas eram gravadas com imagens sagradas e eram vistas como objetos liminares, nodos entre a realidade cotidiana e o mundo dos espíritos (isto aponta ao costume de dobrar moedas para espiritualizá-las e lançá-las dentro de um poço, que são os olhos do outro mundo) a dívida em si mesma – o verdadeiro conteúdo de todo dinheiro – é um conceito altamente espiritual. Como o tributo (dívida primitiva) exemplifica a capitulação a um “poder legítimo” de expropriação mascarando em si a ideologia religiosa – mas com a dívida real diz respeito à habilidade unicamente espiritual de reproduzir-se a si mesmo como se fosse um ser orgânico. Inclusive agora permanece como a única substância morta em todo mundo que possui esse poder – “o dinheiro gera dinheiro”. A essas alturas o dinheiro começa a tomar um aspecto paródico vis-à-vis com a religião – parecendo o dinheiro desejar rivalizar com deus para converter-se em um espírito imanente na forma metafísica a qual, apesar de sê-lo, “governa o mundo”. A religião deve tomar nota dessa natureza blasfêmia do dinheiro e condená-lo como “contra natura”, anti-natural. O dinheiro e a religião entram em oposição - um não pode servir à Deus e a Mammon² simultaneamente; mas enquanto a religião continuar atuando como a ideologia da separação (o Estado hierárquico, a expropriação, etc) nunca poderá realmente dominar o problema-do-dinheiro.
Os reformistas uma e outra vez surgiram de dentro da religião para expulsar os prestamitas³ do templo, que sempre voltam – ao final, lentamente os prestamitas se convertem no Templo (não é casualidade que os bancos no decorrer dos tempos imitaram as formas da arquitetura religiosa).
De acordo com Weber⁴ foi Calvino quem finalmente resolveu o problema com sua justificação teológica para a “usura” – mas esta apenas merece atenção por parte dos Protestantes reais, como os Ranters⁵ e os Diggers⁶, aqueles que propuseram que a religião deveria de uma vez por todas entrar em total oposição com o dinheiro – e deste modo iniciaria o Milênio. Talvez pensassem que a Ilustração fosse a mais adequada para conseguir resolver o problema – desejando a religião como a ideologia da classe dominante e substituindo-a com o racionalismo (e as Economias Clássicas). Esta fórmula de qualquer forma não faria justiça àqueles iluministas que propuseram o desmantelamento de todas as ideologias de poder e autoridade - não ajudaram a explicar o porque da religião “oficial” falhar na hora de afirmar seu potencial como oposição e, ao contrário, apostou em prover suporte moral ao Estado e ao Capital.
Com a influência do Romantismo, no entanto surgiu – tanto dentro quanto fora da “religião oficial” – uma crescente sensação de espiritualidade como alternativa aos aspectos opressivos do Liberalismo e seus aliados intelectuais/artísticos. Por um lado esse sentido conduziu a uma forma conservadora-revolucionária de reação romântica (Novalis⁷, por exemplo) – mas por outro lado também se alimentou da velha tradição herética (a qual também começou com o nascimento da “Civilização” como um movimento de resistência contra a teocracia da expropriação) – e encontrou a si mesma com uma estranha nova aliança com o racionalismo radical (a então nascente “esquerda”). William Blake⁸, por exemplo, ou a Capillas Blasfemas, de Spence e seus seguidores, representam essa tendência. O encontro entre espiritualidade e resistência não é algum tipo de evento surrealista ou anômalo para ser aplanado ou racionalizado pela “História” – antes, ocupa uma posição nas profundas raízes do “radicalismo”; - e apesar do ateísmo militante de Marx ou Bakunin (em si mesmo um tipo de misticismo mudado ou “heresia”), o espiritual, todavia permanece indissoluvelmente ligado com a “Velha Boa Causa” que ajudou a criar.
Faz alguns anos Régis Debray⁹ escreveu um artigo apontando que apesar de as confiadas predições do materialismo do século XIX, a religião ainda falhava perseverantemente em desaparecer – e talvez fosse a hora para a Revolução preocupar-se sobre essa misteriosa persistência. Vindo de uma cultura católica, Debray estava interessado na Teologia da Libertação, que é uma projeção antiga quase herética dos pobres Franciscanos e o recorrente re-descobrimento do “ comunismo bíblico”. Se tivesse sido considerada parte da cultura protestante poderia ser uma referência ao século XVII, buscando sua verdadeira herança. Se fosse muçulmana poderia ter evocado o radicalismo dos xiitas ou ismailitas, ou o anticolonialismo neo-sufi do século XIX. Toda religião dá lugar a sua própria antítese interna uma e outra vez; toda religião tem considerado as implicações da oposição moral ao poder; todas contradições contém um vocabulário de resistência como também uma capitulação à opressão. Falando amplamente alguém poderia dizer que até agora esta “contra – tradição” – que está tanto fora como dentro da religião – tem constituído um conteúdo suprimido. A pergunta de Debray se referia ao potencial para sua realização, mas a Teologia da Libertação perdeu a maior parte de seu apoio dentro da igreja quando não pode manter durante mais tempo sua posição como rival (ou cúmplice) do Comunismo Soviético; e não pode manter esta função devido ao colapso comunista.
Mas alguns teólogos da Libertação provaram ser sinceros, e ainda persistem nela (como no México); Além disso, uma tendência inteiramente submergida e relacionada com o Catolicismo, exemplificada dentro da Ortodoxia (por ex. Bakunin), o Protestantismo, O Judaísmo, O Islamismo, e (de uma maneira diferente) o Budismo; e ainda, a maioria das formas de espiritualidade indígenas sobreviventes (por exemplo o Xamanismo) ou o sincretismo Afro-americano podem encontrar um ponto comum com várias tendências radicais com as religiões “maiores” em questões como meio ambiente, e a moralidade do anti-capitalismo. Apesar de alguns elementos de reação romântica, vários movimentos New Age e pós-new age podem também associar-se com esta ampla categoria.
Em um ensaio anterior havíamos esboçado as idéias parar crer que o colapso do Comunismo implicava no triunfo de seu único oponente, o Capitalismo; de acordo com a propaganda neoliberal só existe um mundo único agora; e esta situação política tem tido graves implicações para uma teoria do dinheiro como entidade virtual (autônoma, espiritualizada e todo-poderosa) do universo único de significado. Com estas condições tudo o que uma vez foi uma terceira possibilidade (neutralidade, retirada, contra-cultura, o “terceiro mundo”, etc) agora deve encontrar-se a si mesma em uma nova situação. Não mais existe uma segunda posição - como pode haver uma terceira? – As “alternativas“ têm sido reduzidas catastroficamente. O mundo único está agora em posição de esmagar qualquer coisa que uma vez escapou de seu abraço estático. Graças à desafortunada distração de prosseguir uma guerra fundamentalmente econômica contra o Império do Mal. Já não há terceiro caminho, não há nenhum mais. Tudo o que é diferente deve subsumir-se na uniformidade do Mundo Único – ou também se descobrirá como oposição a esse mundo. Tomadas essas teses como dadas, devemos perguntar onde se localizará a religião neste novo mapa de zonas de capitulação e resistência. Se “a revolução” foi liberada do incubo da opressão Soviética e esta agora é de novo um conceito válido, estamos finalmente com uma posição para oferecer uma tentativa de resposta à questão posta por Debray?
Tomando “a religião” como um todo, incluindo inclusive esses aspectos como o Xamanismo que pertencem a sociedade mais que ao Estado (segundo a antropologia de Clastres¹⁰); incluindo politeísmo, monoteísmo e no-teismo; incluindo misticismo e heresias tanto como ortodoxias, igrejas reformadas e novas religiões – o sujeito de estudo obviamente perde definição, rebeldia, coerência; e não pode ser questionado porque só geraria um babel de reações em vez de uma resposta. Mas a religião se refere a algo – chamá-lo uma certa variedade de cores no espectro do futuro humano – e como tal deve ser considerado (ao menos temporariamente) como uma entidade dialógica valida e como um sujeito teorizável. No movimento triunfal do Capital – referimo-nos ao seu momento processual – toda religião somente pode ser vista como uma nulidade, por exemplo, como um tipo de comodidade a ser empacotada e vendida, um recurso a ser desmontado, ou uma oposição a ser eliminada. Qualquer idéia ou ideologia que não pode ser subsumida ao “ Fim da História” do capital deve ser condenada. Isto inclui tanto a reação como a resistência – e desde já em maior parte a re-conexão não separativa (religare) da consciência com “ o espírito” como autodeterminação imediata imaginativa/ imaginária e criação de valores – a meta original de todo ritual e culto. A religião em outras palavras perdeu toda conexão com o poder mundial porque o poder migrou fora do mundo – abandonou inclusive o Estado e logrou a pureza da apoteose, como Deus que abandonou Anthony no poema e Cavafy¹¹. Os poucos Estados (majoritariamente islâmicos) onde a religião possui poder estão localizados precisamente dentro da região continuamente reduzida da oposição nacional ao Capital – (por conseguinte provêm de estranhos companheiros de cama como Cuba!). Como qualquer outra “terceira possibilidade” a religião se encontra com uma nova dicotomia: capitulação total ou a revolta. Por conseguinte, o “potencial revolucionário” da religião aparece claramente – ainda que não pareça claro se pode tomar a forma de reação ou de radicalismo - ou inclusive pode ser que a religião ainda não estivera derrotada – já ser sua negativa ir de um inimigo a um fantasma.
Na Rússia e Sérvia, a Igreja Ortodoxa parece haver-se lançado a sua sorte como reação contra à Nova Ordem Mundial e por conseguinte encontraram novos companheiros em seus velhos opressores Bolcheviques. Na Chechênia a Ordem Sufi Naqshbandi continua seu combate de séculos contra o imperialismo Russo. Em Chiapas há uma estranha aliança entre pagãos maias e católicos. Certas frações do Protestantismo americano foram dirigidas a um ponto de paranóia e resistência armada (mas inclusive os paranóicos têm algum inimigo real); enquanto a espiritualidade nativa-americana experimenta um pequeno milagroso revival – não um traje de fantasma manifestando-se nessa época, senão uma razoável e profunda postura contra a hegemonia da monocultura do capital.
O Dalai Lama algumas vezes aparece como um dos “lideres mundiais” capazes de dizer verdades tanto sobre os remanescentes da opressão Comunista como sobre a desumanidade capitalista; um “Tibet Livre” pode prover um foco para um bloco “inter-fé” de pequenas nações e grupos religiosos aliados contra o transcendente darwinismo social de consenso. O Xamanismo Ártico pode reemergir como uma ideologia pela autodeterminação de certas novas repúblicas Siberianas – e algumas novas Religiões (como o Neo-Paganismo Ocidental ou os cultos psicodélicos) que também pertencem por definição ou por defeito ao pólo de oposição.
No Islamismo tem-se visto a si mesmo como um inimigo do Cristianismo imperial e o imperialismo Europeu praticamente desde o momento do nascimento. Durante o século XX funcionou como uma terceira via tanto contra o Capitalismo como contra o Comunismo, e no contexto do novo mundo único constituiu por definição um dos poucos movimentos de massas que não podem englobar-se na unidade do consenso.
Desafortunadamente, a ponta de lança da resistência – “o fundamentalismo” - tende a reduzir a complexidade do Islã a uma ideologia artificialmente coerente - o “Islamismo” - a qual claramente falha ao falar ao desejo do humano normal da diferença e complexidade. O fundamentalismo já falhou em incumbir a si mesmo com as “liberdades empíricas” as quais devem constituir as demandas mínimas de uma nova resistência; por exemplo, sua critica à “usura” é obviamente uma resposta inadequada às maquinações do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial. As “portas da interpretação” da Shariah¹² devem ser reabertas – e não fechadas para sempre – e uma alternativa totalmente realizada ao Capitalismo deve emergir de dentro da tradição. De qualquer maneira qualquer um pode pensar que a Revolução Líbia de 1969 tinha ao menos a virtude de intentar fusionar o anarco-sindicalismo de 68 com o igualitarismo Neo-Sufi das Ordens do Norte da África, e criar um Islamismo revolucionário – algo similar se pode dizer do “socialismo Xiita” de Ali Shariati no Irã, o qual foi afastado pela uleocracia¹ ³ antes de poder concretizar um movimento coerente.
O fato é que o Islamismo não pode ser rechaçado como o monólito puritano atrasado nos meios capitalistas. Se uma genuína coalizão anti-Capitalista chegar a aparecer no mundo, não teria acontecido sem o Islamismo.
A meta de qualquer teoria capaz de qualquer tipo de investigação sobre Islamismo, eu creio, está agora em fomentar suas tradições igualitárias e radicais, em retirar seus modos autoritários e reacionários de discurso. Dentro do Islamismo persistem míticas figuras como o “Profeta Verde” e guia oculto dos místicos, al-Khezer, que pôde facilmente converter-se em um tipo de santo patrono da proteção do meio ambiente; enquanto a história oferece modelos com o grande Emir Sufí Alg Algerino, lutador da liberdade de Abdul Qadir, cujo ultimo ato (no exílio, em Damasco) foi proteger os cristãos sírios contra a intolerância das ulemas¹⁴. Visto de fora, neste Islamismo existe potencial de um movimento “interfé” concernente com os ideais de paz, tolerância e resistência à violência pós-racionalista, pós-secular do neoliberalismo e seus aliados. Com efeito, pois, o “potencial revolucionário” do Islamismo ainda não foi realizado – mas é real.
Desde que o Cristianismo foi a religião que “deu nascimento” (nos termos de Weber) ao Capitalismo, a sua posição em relação a presente apoteose do Capitalismo é obviamente mais problemática do que a do Islã. Por séculos o Cristianismo tratou de delinear-se e construir um tipo próprio de mundo imaginário auto-suficiente, no qual alguma aparência do social pudesse persistir (ainda que aos domingos) – mesmo quando mantinha a ilusão acolhedora de alguma relação com o poder. Como um aliado do Capital (com sua aparente indiferença benigna às hipóteses da fé) contra o “Comunismo sem Deus”, o Cristianismo pôde preservar a ilusão do poder – ao menos até cinco anos atrás. Agora o Capitalismo não mais necessita do Cristianismo e o apoio social de que desfrutava vai se evaporar logo. A Rainha da Inglaterra já pensou em renunciar de seu cargo enquanto líder da Igreja Anglicana – e parece improvável que seja substituída pelo executivo principal de algum vasto Zaibatsu¹⁵ internacional! Dinheiro é deus – Deus está morto, de fato; o Capitalismo realizou uma paródia secreta do ideal Iluminista. Mas Jesus é um deus que morre e ressuscita – alguém diria que ele atravessou tudo isso antes. Mesmo Nietzsche assinou sua última carta “insana” como “Dionísio e o Crucificado”; no final essa é talvez a única religião que pode “superar” a religião. Dentro do Cristianismo aparecem um grande número de tendências (ou persistem desde o século XVII, como os quakers¹⁶) buscando reviver esse messias radical que limpou o Templo e prometeu o Reino aos pobres. Na América, por exemplo, pareceria impossível imaginar um movimento de massas realmente efetivo contra o Capital (um tipo de “populismo progressivo”) sem a participação das Igrejas. De novo a tarefa teórica começa a esclarecer-se; a necessidade não propõe algum tipo vulgar de “entrismo” no Cristianismo organizado para radicalizá-lo por uma conspiração vinda de dentro. O melhor seria encorajar o sincero e generalizado potencial para o radicalismo Cristão intrínseco como um honesto crente (apesar de tudo os existencialistas tem fé!) ou como um honesto simpatizante de fora.
Para testar esta teorização pegue um exemplo – digamos a Irlanda (de onde estou escrevendo isso). Dado que o os “Problemas” da Irlanda surgem majoritariamente do sectarismo, obviamente que se tomará uma postura anticlerical; de fato, o ateísmo deveria ser ao menos emocionalmente apropriado. Mas a ambigüidade inerente da religião na história Irlandesa deve ser lembrada: - Houve momentos quando laicos e padres Católicos apoiaram a resistência ou a revolução, & houve momentos quando laicos e sacerdotes Protestantes apoiaram a resistência ou a revolução. As hierarquias das igrejas geralmente demonstraram serem reacionárias – mas hierarquia não é o mesmo que religião. No lado Protestante temos Wolfe Tone & os Irlandeses Unidos - um movimento revolucionário “entre-crenças”. Mesmo hoje, tais possibilidades não estão mortas na Irlanda do Norte; o anti-sectarismo não é apenas um ideal socialista mas também um ideal Cristão. No lado Católico... anos atrás conheci um padre radical num festival pagão nas Ilhas Aran, um amigo de Ivan Illich¹⁷. Quando perguntei “Qual é exatamente sua relação com Roma?” respondeu-me, “Roma? Roma é o inimigo”. Roma perdeu sua influência na Irlanda nos últimos anos, derrubada pela revolta anti-puritana e pelo escândalo interno. Seria incorreto dizer que o poder da Igreja passou para o Estado, a não ser que também acrescentemos que o poder do Governo passou para a Europa, e poder da Europa passou para o capital internacional. O significado do Catolicismo na Irlanda está pronto para ser compreendido. Nos próximos anos poderemos ver tanto do exterior quanto do interior da Igreja um tipo de revival da “Cristandade Celta” – devota da resistência contra a contaminação do meio-ambiente, tanto físico como imaginário, e assim comprometida com a luta anti-capitalista. De qualquer modo, essa tentativa incluirá ou ao menos influenciará também o Protestantismo. Tal movimento de amplas bases pode facilmente encontrar sua expressão política natural no socialismo ou inclusive no anarco-sindicalismo, e serviria uma função particularmente útil como uma força contra o sectarismo & as regras das classes intelectuais. Assim, até na Irlanda a religião pode ter um futuro revolucionário.
Espero que estas idéias encontrem muito pouca aceitação dentro do tradicional anarquismo ateísta ou dos restos do “materialismo dialético”. O radicalismo Iluminista recusou-se durante muito tempo a reconhecer qualquer raiz que não seja remota no radicalismo religioso. Como resultado, a Revolução lança o bebê (consciência não ordinária) à banheira da Inquisição ou à repressão puritana. Apesar de Sorel¹⁸ insistir que a revolução necessita de um “mito”, ela prefere reduzir tudo à razão pura. Mas o anarquismo e o comunismo espiritual (como a religião em si mesma) não sumiram. De fato, convertendo-se em anti-Religião, o radicalismo recorre a um tipo de misticismo próprio, completo com o ritual, o simbolismo e a moralidade. Os comentários de Bakunin a respeito de Deus - de que se ele existisse teríamos que matá-lo – poderiam depois de tudo passar como pura ortodoxia dentro do Zen-Budismo! O movimento psicodélico, que oferece um tipo de verificação “científica” (ou ao menos experimental) da consciência não-ordinária, aponta para um grau de reaproximação entre a espiritualidade e as políticas radicais – e a trajetória deste movimento pode ter apenas começado. Se a religião “sempre” atuou escravizando a mente ou reproduzindo a ideologia da classe dominante, ela também “sempre” envolveu um tipo de entheogenesis (nascimento do deus interior) ou liberação da consciência; uma forma de proposta utópica ou promessa do “céu na terra”; e uma forma de ação militante e positiva pela “justiça social” como plano de Deus para a criação. O Xamanismo é uma forma de “religião” que (como mostrou Clastres) efetivamente institucionaliza a espiritualidade contra o surgimento da hierarquia e da separação – e todas as religiões possuem ao menos um traço xamânico.
que colaboraram com o anarquismo na revolução de 1911. O Judaísmo produziu o “anarco-sionismo” de Martin Buber e Gershlm Scholem (profundamente influenciado por Gustav Laundauer¹⁹ Toda religião pode apontar para uma tradição radical de algum tipo. O Taoísmo uma vez produziu os Turbantes Amarelos – ou as Tongs²⁰ e outros anarquistas de 1919), os quais encontraram sua mais eloqüente e paradoxal voz em Walter Benjamin²¹. O Hinduísmo deu lugar ao ultra-radical Partido Terrorista Bengali – e também a M. Gandhi, o único teórico com êxito da revolução não-violenta do mundo moderno. Obviamente o anarquismo e o comunismo nunca estarão de acordo com a religião nas questões de autoridade e propriedade; e talvez se possa pensar que “depois da Revolução” tais questões possam permanecer ainda sem se resolver. Mas parece claro que sem a religião não haverá uma revolução radical; a Velha Esquerda e a (velha) Nova Esquerda dificilmente poderão realizá-la sozinhas. A alternativa de uma aliança agora é como observar como a Reação restringe a força da religião e lança uma nova revolução sem nós. Gostando ou não, necessita-se de uma espécie de estratégia preventiva. A resistência requer um vocabulário no qual nossa causa comum possa ser discutida; e por isso estas propostas superficiais.
Mesmo assumindo que poderíamos classificar tudo acima com a rubrica de sentimentos admiráveis, ainda estaríamos longe de qualquer programa óbvio de ação. A religião não vai salvar-nos nesse sentido (talvez o contrário seja o correto!) – de qualquer maneira a religião enfrenta a mesma perplexidade que qualquer outra forma de “terceira posição”, incluindo todas as formas de antiautoritarismo e anti-Capitalismo radical. A nova totalidade e seus meios surgem tão penetrantes, como que para condenar todos programas de conteúdo revolucionário, a partir do momento em que qualquer “mensagem” está igualmente sujeita à subordinação no “meio” que o mesmo Capital. É claro que a situação é desesperançosa – mas apenas a estupidez tomaria isso como razão para o desespero ou como para o terminal aborrecimento da derrota. Esperança contra esperança – a esperança revolucionária de Bloch²² – pertence a uma “utopia” que nunca está totalmente ausente, mesmo quando parece menos presente; e pertence também a uma esfera religiosa em que a desesperança é o último pecado contra o sagrado espírito: - a última traição da divindade interior – o fracasso em converter-se em humano. O “dever Kármico” no sentido de Bhagavad Gita²³ – ou no sentido da “tarefa revolucionária” – não é algo imposto pela natureza, como a gravidade, ou a morte. É um presente livre do espírito – pode-se aceitá-lo ou recusá-lo - e ambas posições são perigosas. Recusar é correr o risco de morrer sem haver vivido. Aceitar é uma possibilidade mais perigosa, mas muito mais interessante. Uma versão da Aposta de Pascal²⁴ – não pela imortalidade da alma dessa vez, mas simplesmente por sua existência plena.
Usando a metáfora religiosa (que tentamos evitar ao máximo) o milênio começou cinco anos antes do final do século, quando o Mundo Único veio à luz e baniu toda dualidade. Contudo, visto da perspectiva Judaico-Cristã-Islâmica este é o falso milênio do “ Anti-Cristo”; o qual acaba por não ser uma “persona” (exceto talvez no mundo dos Arquétipos), mas sim uma entidade impessoal, uma força contra naturam – entropia disfarçada de vida. Nesta visão o reino da iniqüidade deve e será desafiado no verdadeiro milênio, o advento do messias. Mas o messias tampouco é uma só pessoa no mundo - é antes uma coletividade na qual cada indivíduo é realizado e desse modo (de novo metaforicamente ou imaginariamente) imortalizado. O “povo-como-messias” não entra na uniformidade homogênea nem na infernal separação do Capitalismo entrópico, mas na diferença e na presença da revolução – a luta, a “guerra-santa”. Apenas com estas bases podemos começar a trabalhar numa teoria de reconciliação entre as forças positivas da religião e a causa da resistência. O que oferecemos aqui é simplesmente o princípio do princípio.
Dublin, 01 de Setembro de 1996.
Este texto foi traduzido por Roberto B. (rsbortolon@yahoo.com.br) e Daya (ecodaya@yahoo.com.br).
--------------------------------------------------------------------------------
NOTAS
1. N. do T. O potlatch é uma cerimônia praticada entre diferentes grupos índigenas da América do Norte, como os Haida, os Tlingit, os Salish e os Kwakiutl. Consiste num evento sagrado de homenagem, geralmente envolvendo um banquete de carne de foca ou salmão, seguido por uma renúncia a todos os bens materiais acumulados pelo homenageado – bens que devem ser entregues a parentes e amigos. A própria palavra potlatch significa dar, caracterizando o ritual como de oferta de bens e de redistribuição da riqueza. A expectativa do homenageado é receber presentes também daqueles para os quais deu seus bens, quando for a hora do potlatch destes.
2. N. do T. Mammon é o ídolo pagão citado no Novo Testamento como um falso deus do culto à riqueza, à avareza e ao ganho material, é também considerado a personificação de um dos sete pecados capitais, a "ganância".
3. N. do T. Agiotas legalizados ou reconhecidos pelo governantes de um estado ou clero de uma instituição religiosa. Atualmente papel desempenhado por bancos e casas de crédito.
4. N. do T. Max Weber (nascido em1864 — falecido em 1920) foi um intelectual alemão, jurista, economista e considerado um dos fundadores da Sociologia. Em um dos seus trabalhos Weber demonstra como a ética religiosa protestante forneceu os fundamentos para a doutrina capitalista.
5. N. do T. Ranters (literalmente Faladores), era a denominação dada a uma seita inglesa do século XVII, considerada radical e herética por pregar a idéia de que Deus está essencialmente em todas as criaturas. Crença que levou seus membros a negar a autoridade da igreja, das escrituras, do clero e seus serviços, conclamando a todos a ouvirem seu "Jesus interior".
6. N. do T. Diggers (literalmente Escavadores), foi um movimento de trabalhadores rurais pobres, liderado por Gerrard Winstanley entre os anos de 1649 e 1650 na Inglaterra, que pretendia substituir a ordem feudal recentemente derrotada na Guerra civil inglesa por uma sociedade igualitária, agrária e cristã anticlerical.
7. N. do T. Georg Philipp Friedrich von Hardenberg (nascido em 1772 — falecido em 1801), Freiherr (Barão) von Hardenberg, mais conhecido pelo pseudônimo Novalis, foi um dos mais importantes representantes do romantismo alemão de finais do século XVIII e o criador da flor azul, um dos símbolos mais duráveis do movimento romântico.
8. N. do T. William Blake (nascido em 1757 – falecido em 1827) foi um poeta inglês, pintor e tipografo. Amplamente não reconhecido durante seu tempo de vida, o trabalho de Blake é hoje considerado seminal e significante tanto para a história da poesia quanto das artes visuais.
9. N. do T. Jules Régis Debray (nascido em 1940) é um filósofo, jornalista e professor francês. Foi seguidor do marxista Louis Althusser. Amigo de Fidel Castro e Ernesto Che Guevara, nos anos 1960 acompanhou o Che na guerrilha, especialmente na Bolívia, onde foi preso em 1967. Nesse mesmo ano escreveu sua primeira obra, "A Revolução na revolução". Pertenceu ao Partido Socialista Francês , do qual se distanciou por diferenças ideológicas com o ex-presidente François Mitterrand. Atualmente é mais conhecido como o criador da mediologia - o estudo crítico dos signos e de sua difusão na sociedade.
10. N. do T. Pierre Clastres (nascido em 1934 - falecido em 1977) fui um grande antropólogo e etnólogo de aspirações libertárias. Realizou pesquisas de campo na América do Sul entre os índios Guayaki, Guarani e Yanomami. Publicou Crônica dos índios Guayaki 1972, A sociedade contra o Estado 1974, e A fala sagrada - mitos e cantos sagrados dos índios Guarani 1974. Sua morte prematura, em um acidente de carro interrompeu a conclusão de textos que mais tarde seriam reunidos no livro Arqueologia da violência - ensaios de antropologia política 1980.
11. N. do T. Konstantínos Kaváfis, no alfabeto grego: Κωνσταντίνος Πέτρου Καβάφης, (nascido em 1863 — falecido em 1933) foi um poeta grego. Por vezes, seu nome aparece creditado como Constantine P. Cavafy. Nascido numa familía grega radicada no Egito e tendo vivido dos sete aos dezenove anos de idade em Liverpool, Kaváfis era um cético e questionava a Cristandade, o patriotismo e a heterossexualidade enquanto normalidade humana. Publicou 154 poemas e cerca de mais uma dúzia permaneceram incompletos ou no esboço.
12. N. do T. A Sharía ou shariah (em árabe شَرِيعَة šarīʿa, "caminho" ou "trilha"), chamada pela mídia ocidental de lei mulçumana los (e não lei islâmica, já que poderia se dizer que na realidade está inspirada no Islã, mas não é irrefutável como o Corão), é o corpo de Direito Islâmico. Constitui um código detalhado de conduta, no qual se incluem também as normas relacionadas às formas de culto e os critérios da moral e da vida, coisas permitidas ou proibidas,. e as regras que separam o bem do mal. É adotada pela maioria dos mulçumanos, em maior ou menor grau, como uma questão de consciência pessoal. Mas também pode ser instituída como lei por certos estados e também por tribunais que podem velar pelo seu cumprimento. Muitos paises islâmicos adotaram elementos da shariah em seus estatutos como por exemplo heresias e os testamentos para a regulação de atividades bancárias e contratos.
13. N. do T. Uleocracia é o nome dado a um regime teocratico regido por estudiosos ou sábios da religião islâmica, as ulemas. Os governos dos Talibans no Afeganistão e dos Aiatolás no Irã podem ser considerados bons exemplos de Uleocracia.
14. N. do T. Ulema (em língua árabe, علماء, Ulamā, singular Ālim) é o nome que dado aos estudiosos e doutores da "ciência religiosa" islâmica e da shariah ou lei islâmica (ulùm al-diniyya). Literalmente, a palavra significa sábio, doutor. A ulema enquanto instituição é mais poderosa no islamismo xiita (shi'a islam), onde o seu papel é institucionalizado, porém são subordinados aos herdeiros de Ali e à hierarquia dos mulás.
15. N. do T. No Japão o termo zaibatsu é a definição de um conglomerado de empresas que estão presentes em quase todos os setores da economia. Os executivos das empresas que tomam parte neste conglomerado buscam adquirir quantidades expressivas de ações de outras empresas deste mesmo grupo, em uma forma de acionismo cruzado.
16. N. do T. Quaker é o nome dado a um membro de um grupo religioso de tradição protestante, chamado Sociedade Religiosa dos Amigos (Religious Society of Friends). Criada em 1652, pelo inglês George Fox, a Sociedade dos Amigos reagiu contra os abusos da Igreja Anglicana, colocando-se sob a inspiração directa do Espírito Santo. Os membros desta sociedade, ridicularizados com o nome de quakers, ou tremedores, rejeitam qualquer organização clerical, para viver no recolhimento, na pureza moral e na prática activa do pacifismo, da solidariedade e da filantropia. Perseguídos na Inglaterra por Carlos II, os quakers emigraram em massa para a América, onde, em 1681, criaram sob a égide de William Penn a colónia da Pensilvânia.
17. N. do T. Ivan Illich (nascido em 1926 - falecido em 2002) foi um filosofo anarquista nascido na Áustria, foi padre na juventude, mas rompeu com a igreja se tornando um de seus maiores críticos. Foi também autor de uma série de críticas muito bem fundamentadas às instituições centrais da cultura ocidental contemporânea tais como a educação, o trabalho e o desenvolvimento econômico.
18. N. do T. Georges Eugène Sorel (nascido em 1847 – falecido em 1922) engenheiro formado pela École Polytechnique e teórico do sindicalismo revolucionário, muito popular na França, na Itália e nos Estados Unidos. Mas sua influência começou a decair depois de 1920. É um autor controverso quanto a linha política a qual adere. Suas idéias foram aceitas tanto pelo fascismo italiano quanto pela esquerda revolucionária deste país, influenciando consideravelmente o pensamento anarco-sindicalista.
19. N. do T. As tong são formas muito antigas de sociedades secretas chinesas, criadas para apoio mútuo e proteção, no passado eram horizontais e descentralizadas, fatores que dificultavam seu combate e aumentavam seu poder. As tong estavam envolvidas numa série de ações que poderiam ser consideradas pela perspectiva estatal como criminosas. Ao longo da história as tong já estiveram por trás do assassinato de déspotas imperadores chineses, pelo comércio do ópio e haxixe na China, chegando até os dias de hoje tomando parte também em esquemas de imigração ilegal de orientais para as Américas.
20. N. do T. Gustav Landauer (nascido em 1870 - falecido em 1919) foi um crítico feroz à burocracia e um ardente defesor do socialismo libertário. Atacou o marxismo autoritário que considerava por si só opressivo e obstáculo ao desenvolvimento e à libertação humana. Amigo pessoal de Martin Buber, propagandeador das práticas anarco-socialistas no Movimento Sionista e dos pioneiros do kibbutz. Dotado de uma preocupação especial com a dimensão espiritual do anarquismo, ele é lembrado por suas convicções de que o Estado é uma forma de relacionamento institucionalizado. Laundauer acreditava na não necessidade de uma revolução para superar o Estado, mas sim na possibilidade de uma mudança da natureza e da qualidade dos relacionamentos.
21. N. do T. Walter Benjamin (nascido em 1892 — falecido em 1940) foi um crítico literário e ensaísta alemão cuja obra tratou de temas referentes a transformação social a partir de uma perspectiva marxista. Foi associado à Escola de Frankfurt e publicou uma série de obras de profunda reflexão.Com a ascenção do nazismo tornou-se um refugiado e diante da perspectiva de ser capturado escolheu o suicídio.
22. N. do T. Ernst Bloch (nascido em 1885 — falecido em 1977) foi um filósofo alemão. A principal temática que perpassa a sua obra é a da Utopia que concebia como uma força revolucionária. Suas principais obras foram: Princípio Esperança, O Espírito da Utopia, Sujeito e Objeto em Hegel, entre outras. Exerceu forte influência sobre Erich Fromm, e diversos outros pensadores e se tornou referência obrigatória para todos que estudam o tema da utopia.
23. N. do T. A Bhagavad Gita (A Canção do Senhor) é um texto religioso Hindu. Faz parte do épico Mahabharata, embora seja de composição mais recente que o todo deste livro. Na versão que o inclui, o Mahabharata é datado no Século IV a.C. O texto, escrito em sânscrito, relata o diálogo de Krishna (uma das encarnações de Vishnu) com Arjuna (seu discípulo guerreiro) em pleno campo de batalha. Arjuna representa o papel de uma alma confusa sobre seu dever, e recebe iluminação diretamente de Krishna, que o instrui na ciência da auto-realização.
24. N. do T. Blaise Pascal (nascido em 1623 - falecido em 1662) foi um filósofo, físico e matemático francês, que como filósofo e místico criou uma das afirmações mais pronunciadas pela humanidade nos séculos posteriores, O coração tem razões que a própria razão desconhece, síntese de sua doutrina filosófica: o raciocínio lógico e a emoção.
O Palimpsesto
Nietzche estava tão certo que isso acabou por enlouquecê-lo - Charles Fourier estava tão louco que alcançou a sanidade perfeita.
Nietzche exaltou o sobre-humano como indivíduo (“Aristocracia radical’’) - a sua sociedade de espíritos livres iria, sem dúvida, consistir de uma “união individualista’’. Fourier exaltou as Séries Passionais - para ele o indivíduo sempre falharia em existir a não ser em uma associação harmônica. Opostas, estas visões - então como eu as vejo como complementares, pois iluminam da mesma forma, e sendo assim, perfeitamente exequíveis?
Uma resposta seria “dialética’’. Mais precisamente - “dialética taoísta’’, não como uma valsa, mas sim como o jazz - sutil, ardiloso e com diversos meandros. Outra resposta seria “surrealismo’’ - pense em uma bicicleta feita de corações e trovões. “Idealismo’’ não é uma resposta - um vai e vem zumbi, aquele triunfalismo de fantasmas em paradas de rua. “Teoria’’ não pode ser identificada com ideologia, nem mesmo como ideologia-em-processo, pois a teoria situou a si mesma separada de todas as categorias -porque a teoria nada mais é do que situacionista - já que ela não abandonou o desejo em detrimento da “História’’.
Logo, a teoria fica à deriva como um dos nômades de Ibn Khaldun, enquanto a ideologia permanece rígida e continua a construir cidades e imperativos morais; a teoria pode ser violenta, mas a ideologia é cruel. A “Civilização’’ nunca existiria sem ideologias (o calendário é provavelmente a primeira delas) porque a civilização emerge muito mais da concretização de categorias abstratas do que de impulsos “naturais’’ ou “orgânicos’’. Embora soe paradoxal, a ideologia tem a si própria como objeto de estudo. Ela justifica todos os banhos de sangue ou o canibalismo - mais precisamente, sacrifica o orgânico para reter o inorgânico - o “objetivo’’ da História que, no fim acaba se tornando... ideologia. A teoria, por outro lado, se recusa a abandonar o desejo e assim alcança uma objetividade genuína, um movimento voltado para fora dela mesma, que é orgânico e “material’’, e cognitivamente oposto ao falso altruísmo e alienação da civilização (sobre isso, tanto Nietzche quanto Fourier concordam).
Finalmente, eu iria propor o que chamo de Teoria Metapalimpsestítica.
Um palimpsesto é um manuscrito que é reescrito ao se escrever por cima do texto original, geralmente sob os pontos de vista corretos, e às vezes em mais de uma situação. Na maioria das ocasiões, é impossível definir a primeira camada da escritura; e para qualquer caso, um eventual “desenvolvimento’’ (exceto na ortografia) de uma camada para outra seria pura coincidência. As conexões entre elas não são sequenciais no tempo, e sim justapostas no espaço. As letras na camada B podem borrar as que estão na camada A, ou vice-versa, ou podem deixar áreas em branco sem qualquer marca ou inscrição, ainda assim ninguém pode dizer que a camada A “evoluiu’’ para camada B (pois não temos certeza qual delas é a original).
E as justaposições não seriam exatamente “aleatórias’’ ou “sem sentido’’. Uma possível conexão pode ser encontrada na realidade da bibliomancia surrealista, ou “sincronicidades’’ (como os antigos cabalistas disseram, os espaços em branco entre as letras podem ter algum significado mais importante do que as próprias letras). Até mesmo o “desenvolvimento’’ pode ser um modelo para a leitura - diacronicidades podem ser hipotetizadas, uma “história’’ é pelo manuscrito, camadas são datadas de acordo com as escavações arqueológicas. Enquanto não endeusarmos o “desenvolvimento’’, conseguiremos utilizá-lo como uma estrutura que possibilita nossa tese.
A diferença entre um palimpsesto manuscrito e um palimpsesto teórico é que o último não é fixado em lugar algum. Ele pode ser reescrito - reinscrito - com todas as camadas que o acrescem. E todas elas são transparentes, translúcidas, a não ser quando um agrupamento de inscrições bloqueiam a luz cabalística - (como ocorre em células de animação). Todas as camadas estão “presentes’’ na superfície do palimpsesto - mas o seu desenvolvimento (incluindo o dialético) se tornou invisível e, talvez, sem sentido.
Seria aparentemente impossível livrar a teoria metafísica do palimpsesto, da acusação de apropriamento indébito e subjetivo - um pouco de crítica aqui, uma proposta utópica ali - mas nossa defesa teria de consistir no fato de que não estamos procurando por ironias descartáveis, mas sim explosões de luz. Se tu estás sedento por desconstruções banais ou um hiperconformismo afetado, volte para a escola, arranje um emprego - nós estamos atrás de outros peixes para fritar. Embora tenhamos construído um sistema epistemológico - um método de aprendizado e conhecimento baseado na justaposição de elementos teóricos ao invés de seus desenvolvimentos ideológicos; num sentido não-histórico da coisa. Também evitamos outras formas de linearidade, como a seqüência e exclusão lógica. Se admitirmos a história dentro desse esquema, podemos utilizá-la apenas como mais uma forma de justaposição, sem a fetichizar como absoluta - o mesmo vale para a lógica, etc.
Essa aproximação lúdica à teoria não deve ser confundida com “relativismo moral’’ (a desvalorização dos valores), de onde é resgatada pela nossa “teleologia subjetiva’’. Ou seja, nós (e não a “história’’) estamos à caça de propósitos, objetivos, objetos -dedesejos (a revalorização dos valores). A natureza criativa dessa ação vem da evasão da imaginação (ou “Imaginação Criativa’’, como
H. Corbin e os Sufis a chamam) - há também a visionária disciplina da “crítica paranóica’’ (S. Dali), a revalorização subjetiva das categorias aestéticas. “O pessoal é o político.’’ Justaposição, superposição e padrões complexos. Embora produzam uma unidade maleável, (como o monismo escondido do politeísmo, ao invés do dualismo escondido do monoteísmo) -paradoxalmente como método epistemológico - de alguma forma similar à “epistemologia anarco- dadaísta’’ de Feyerabend ( Contra o método). “Etiquetas? Nós não precisamos de suas malditas etiquetas!’’
Eu gostaria de reiterar o fato de que todo o debate teórico-histórico sobre a “Arte’’ como uma categoria separada (um museu de fetiches), assim como uma fonte para a reprodução da miséria e alienação a partir da exclusão dos “não-artistas’’ do prazer da criatividade (ou “trabalho atrativo’’, como disse Fourier). Quero mencionar a proposta situacionista pela “supressão e realização da arte’’, por exemplo, sua supressão revolucionária como uma categoria, e sua realização no nível da “vida cotidiana’’ (ou seja, da vida em detrimento do espetáculo).
Essa proposta é baseada na presunçosa afirmação de que a Arte falhou em funcionar como “avantgarde’’ (leia-se: “vanguarda’’) quando os surrealistas aderiram ao Partido Comunista - e simultaneamente, na galeria/museu “Mundo da Arte’’ do objeto fetichista - embora alegando ideologias espúrias e elitismo em um desastre espetacular. Nesse ponto, os remanescentes da avantgarde iniciaram um processo para reverterem-se de Ideologia e objetificação (mais ou menos a partir do dadaísmo de Berlim) como o Letrismo, Situacionismo, Não-Arte, Fluxus, arte postal, neoísmo, etc - onde a ênfase mudou da vanguarda para uma descentralização radical do impulso criativo, longe das galerias e museus para privilegiados - em direção ao desaparecimento da “Arte’’ e à volta do criativo na sociedade.
Claro que os museus também compraram esses “movimentos’’, como se para provar que qualquer coisa (até a “anti- arte’’) pode ser um objeto. Cada um desses movimentos pós- vanguarda caíram perante a confusão e a tentação, e tentaram se comportar como os vanguardistas clássicos. E todos falharam, como o surrealismo falhou em libertar a obra de arte da banalização de seu papel como Objeto.
Consequentemente, o mundo artístico engoliu e interiorizou a teoria da arte, destinando-a -se levada a sério - à auto- destruição. Galerias prosperam (ou sobrevivem) com um niilismo que só pode ser contido através da ironia, e que de outra forma iria corroer e acabar com as paredes dos museus. Este ensaio, por exemplo, será imprimido no catálogo de uma galeria, embora ele perpetre a ironia de clamar pela supressão e realização da arte, partindo de dentro da mesma estrutura que condiciona a alienação do não-artista e a fetichização da obra de arte. Bom, foda- se a ironia. Só podemos esperar que cada compromisso seja o último deles.
Aqueles que falharam em ver essa situação como uma malária devem parar a leitura - a teoria já é o bastante sem precisar explicar sua própria náusea - ad nauseam.
A fascinação do século vinte com o “primitivo’’ e o “ingênuo’’ serve como medida, primeiro, pela exaustão da “História da Arte’’; segundo, pelo desejo utópico por uma arte que não fosse uma categoria separada, mas congruente com a vida em si. Sem ironia. Arte como uma brincadeira séria. Os artistas imitaram as formas primitivas e ingênuas sem perceber que toda a produção dessas mesmas formas depende da ausência estrutural da alienação social (“arte tribal’’) ou individual. Essa falta de rompimento, de dualidade na arte africana, javanesa, ou no manicômio, foi o que fez artistas como Klee e sentirem inveja.
Em uma sociedade livre da “malária’’ (ao menos em proporções trágicas) uma pessoa pode esperar ver que “o artista não é alguém especial, mas que alguém especial é um artista.’’ Coomaraswamy pensava na Indonésia quando inventou esse slogan, que eu já tinha ouvido em Java que “Todos devem ser artistas’’ - um tipo de versão mística da teoria da supressão-e realização. Não é precisamente a especialização (do trabalho ou da cognição) que origina a náusea, através dessa leitura, mas sim a separação - fetichismo, alienação. Como cada pessoa é um tipo especial de artista, alguns deles irão se especializar nos grandes poderes integrativos da criatividade - contando as principais histórias da tribo - a criação de Valor e “Significado’’ - que pode ser chamado de “função barda’’.
Em algumas tribos essa função é dividida entre vários indivíduos, mas é sempre associada com uma concentração de mana. Em culturas “bárbaras mais desenvolvidas (como os Celtas) a função é institucionalizada em certo grau - o bardo é o “ sábio legislador’’ de uma sociedade de artistas. A função barda focaliza e os integra.
Se procurarmos um momento simbólico onde ocorre a “quebra’’, e a malária começa a tomar lugar, poderemos escolher uma passagem na República, de Platão, onde os poetas são banidos da utopia como “mentirosos’’ - como se a Lei (em categoria abstrata) fosse a única função integrativa possível, excluindo a imaginação nômade como oposição, como anti- verdade, como caos social. A racionalidade é agora imposta baseada na organicidade da vida -o bem é visto na natureza como “ser’’, enquanto tudo extrínseco à natureza é associada ao mal.
Na Renascença, o artista volta a se expressar como indivíduo às custas da função integrativa. Esse momento marca o início do “Romantismo’’, o desaparecimento do artista da sociedade, e da obra de arte da vida. O artista como ego prometheano, a obra de arte como “bonita’’ (leia-se: inútil) - esse exemplo mede a lacuna aberta entre uma elite aestética, e uma massa condenada à esterilidade e ao kitsch. E ainda é possível enxergar um motivo nobre e corajoso nesse processo, o qual é refletido na liberdade boêmia do artista, assim como na crítica do mesmo à sociedade e sua cruel monotonia - pois o artista irá se tornar um “legislador iletrado’’, um profeta sem honras - o herói romântico, inspirado e amaldiçoado pela mesma realidade.
O artista anseia, mais uma vez, preencher a função barda, para criar significados aestéticos para si e para a tribo. Colérico por se ver rejeitado a esse papel, ele sai de controle e entra em uma alienação cada vez maior - depois uma rebelião assumida - e finalmente, silêncio. A trajetória romântica se realiza mais uma vez.
A Renascença também testemunhou a primeira tentativa moderna de o integral (“a ordem da intimidade’’) através do poder combinado da arte e da mágica - que são na verdade vistas como relacionadas naturalmente pelas suas profundas estruturas - essencialmente linguísticas. O elemento unificador é a “ação à distância’’, e a síntese de todas essas ramificações é o Livro Emblema que junta, de acordo com o estudo de hieróglifos, a imagem, a palavra, e às vezes música, para acarretar mudanças morais (espirituais) no leitor E no mundo real.
O objetivo da Renascença Hermética/Artista era utópico, e nessa ambição pode ser visto o desejo de reanimar a função barda, e dar significado à experiência da “tribo’’, influenciar o consenso realidade- paradigma, salvar o mundo através da arte. Projetos românticos desesperados de Gaugin, Rimbaud, Wagner, Artaud, os Surrealistas - o artista como mago- profeta do desejo revolucionário.
Por causa de todos esses fracassos, e da acomodação nauseante com o mundo da arte feito de objeto capitalista, essa mágica tradição é nossa herança, e de alguma forma nós ainda acreditamos nela. Até mesmo acreditar na supressão da arte é acreditar que ela é importante e significativa, ao menos em face de seu desaparecimento. Mais adiante, a “liberdade’’ do artista parecia merecer alguma proteção - e distribuição - se ao menos esta fosse POR algo, e não somente DE algo. Não obstante a pobreza, solidão, e sentimentos de futilidade, nós estamos nessa margem porque gostamos dela, e porque o risco faz bem para nossa arte. Nesse sentido, ainda somos românticos.
Ainda que sejamos forçados a admitir que esse projeto mágico- revolucionário falhou - frequentemente. O fetichismo dos objetos causa um efeito negativo no feedback - e assim como ciência hieroglífica, este caiu nas mãos de publicitários, marketeiros do “discurso’’ espetacular (ou “simulacro’’, como disse Baudrillard), os reais porém escondidos legisladores dessa realidade virtual. A proposta para a supressão e realização da arte é a afirmação culminante da tradição romântica- hermética de oposição, o último “desenvolvimento’’ possível em uma progressão dialética que nos leva ao impasse atual.
Se observarmos a “História da Arte’’ desta perspectiva diacrônica, iremos nos encontrar em uma cul- de- sac, pegos de surpresa em um paradoxo impossível onde o propósito da arte é a destruição da mesma, para que assim “todos’’ possam ser artistas. Para nós - como artistas - isto constitui-se em uma rua sem saída. O que podemos fazer? A História nos traiu.
O que acontecerá se abandonarmos esta perspectiva diacrônica? E se superpusermos todos os “estágios do desenvolvimento’’ em um palimpsesto que só pode ser lido como uma sincronicidade? E se as tratarmos como teorias, todas visíveis sobre uma única superfície, potencialmente relacionados não no tempo, mas no espaço?
Mais uma vez, devemos insistir que nossa pesquisa palimpsestítica não deve ser confundida com alguma viagem de férias banal através de um cemitério de categorias aestéticas. Estamos procurando Valores - ou um poder imaginário para criá-los (ao saber nossos “verdadeiros desejos’’, como alguns dizem), e nossa procura não é fria e detalhista por definição -não é frívola, mas séria - não sóbria, mas prazerosa - pois, para os bardos, nada é mais sério do que nossa intoxicação com o lúdico ato da criatividade.
Então, nós pegamos toda a discussão desenvolvida acima e a condensamos em um “manuscrito’’ onde toda teoria é escrita em cima de outra, e assim adiante. Como profetas estudando as nuvens ou os onze tipos de iluminação, como magos com espelhos obsidianos para decorrer sobre alfabetos angelicais, nós agora estudamos “História da Arte’’ como se ela nunca tivesse ocorrido, como se todas as possibilidades fossem um eterno presente, infinitamente fluido. Contradições evidentes apenas escondem harmonias ocultas, “correspondentes’’- toda e qualquer justaposição se prova fortuita. “Palimpsestomancia’’.
Assumindo que as teorias que discutimos diacronicamente estão agora arranjadas em sincronia na página de nosso palipsesto, vamos experimentar uma leitura para procurar coincidências inesperadas e reveladoras. A teoria de Fourier sobre o trabalho atrativo, por exemplo, poderia ter sido superposta na Cosmologia de Hesiod, onde os três princípios da existência eram o Caos, Eros, e a Terra. Agora o desejo pode ser visto como uma força que transforma a pura espontaneidade da Imaginação em formas da natureza, ou o “princípio essencial da matéria’’ - o desejo como princípio organizador da criatividade - o desejo como a única fonte possível para a sociedade. “Ação à distância’’, o cerne do paradigma Hermético, deveria ter sido banido da filosofia mecanicista que prevaleceu e conquistou a ciência no século XVII; mas continuava se esgueirando nos discursos, primeiro como uma “explanação’’ para a gravidade (“atração’’), e atualmente em diversos lugares - as quatro forcas da física quântica, a influência do “Estranho Atrator’’ na matéria desorganizada, etc.
Embora a mágica tenha fracassado em “trabalhar para os hermenêuticos da Renascença na mesma medida em que, por exemplo, funcionou com Bacon e Newton, ainda que a ciência hieroglífica possa ser revivida na forma de uma ferramenta epistemológica em nosso estudo acerca da nomeação dos termos (ambíguos). Fenômenos como a linguagem e outros códigos semânticos que - literalmente - nos influenciaram à distância. Os Hermenêuticos acreditavam em emanações na forma de raios que transfeririam o “poder moral’’ de uma imagem (sua influência aumentada com as cores apropriadas, cheiros, sons, palavras, fluidos astrais, etc.) para a consciência humana “à distância’’.
A visão, ou o reflexo, o som, a inflexão, cria lembranças, fragmentos e agrupamentos de “significados’’ na “alma’’ de quem está vivenciando aquilo. Por um processo de “mutabilidade’’ onde tudo é simbolizado paradoxalmente ao mesmo tempo, cientista hieroglífico conjuga feitiços em uma densa floresta de ambiguidades, que é mais precisamente o reino do artista - na verdade os alquimistas foram conhecidos como os “artistas’’ da “Arte Espagírica’’. Assim como o alquimista muda o mundo (dos metais), há também quem escreve o Livro dos Emblemas ou quem levanta monumentos públicos (leia-se: obeliscos) muda o mundo cognitivo e de interpretação “moral’’ pela análise de imagens e símbolos. Deixando de lado a questão das “emanações”, nós aterrisamos em uma teoria da arte oculta que foi passada adiante (via Blake, por exemplo) para os Românticos e para nós.
Como Ítalo Calvino aponta, toda arte é “política’’ - invariavelmente - uma vez que toda obra de arte reflete a arrogância do artista sobre o “tipo propício’’ de cognição, de relação com a consciência individual para agrupar consciências (teoria aestética), etc, etc. De certa forma, toda arte é utópica no sentido de que faz uma afirmação (às vezes de forma vaga) sobre como as coisas deveriam ser.
Entretanto, o artista pode se recusar a admitir essa dimensão “política’’ - algumas distorções podem acotecer. Esses artistas que abandonaram a idéia hermética/romântica de “influência moral’’ frequentemente revelam sua inconsciência política para semiólogos e dialéticos mais atentos. “Entretenimento puro’’ acaba sendo rebocado com um ectoplasma de reação perpendicular, e “arte pura’’ costuma ser ainda pior.
Contrastando com isso, esta inconsciência artística pode inadvertidamente revelar o que Walter Benjamin intitulou “Vestígio Utópico’’ - um tipo de fragmento gnóstico do desejo infiltrado em cada produção humana, sem distinguir o quão reproduzida ela foi. Publicidade, por exemplo, usa esse vestígio para vender a imagem de uma reprodução que promete (no inconsciente) mudar o mundo de uma pessoa, trazer uma vida melhor. É claro que isso nunca vai acontecer - de outra forma, seu desejo seria concretizado e você iria parar de gastar dinheiro em imitações baratas do desejo. Tantalus pode cheirar a comida e enxergar o vinho, mas nunca prová-los - ele é o consumidor perfeito, que paga (eternamente) por uma imagem. Nesse sentido a publicidade é mais Hermética das artes modernas.
O vestígio utópico também pode ser analisado em outra forma de arte “maldita’’, pornografia - que age diretamente ao trazer a inconsciência para uma cognição consciente à base do excitamento erótico. É o desejo que destitui esse vestígio e organiza o caos tendo em vista o modo “como as coisas devem ser’’. A masturbação é um epifenômeno - o efeito real da pornografia serve para inspirar sedução (como em Dante, onde os amantes pecam após a leitura de romances Arthurianos, juntos no jardim). Ignorantes da Direita estão corretos quando acusam as artes eróticas de influenciar e até mudar o mundo, e liberais de esquerda estão errados quando implicam que o pornô deveria ser liberado porque é “inofensivo’’ - porque é “apenas’’ arte. A pornografia é boa para o corpo político, e tanto quanto é “perversa’’ ela prega por uma revolução liberal do desejo - o que explica exatamente porque alguns tipos de pornografia são censurados e proibidos em todas as “democracias’’ do mundo atualmente. Uma vez que o pornô comercial é pduzido em um nível inconsciente e revolucionário, a sua “revolução’’ proposta é sem dúvida ambígua; mas não há nenhuma razão teórica porque o erótico não pode ser utilizado de acordo com a ciência hieroglífica para fins utópicos.
Isso nos leva à questão de uma poesia utópica. Nietzche e Fourier teriam concordado que a arte não é apenas um reflexo da realidade, mas sim uma nova realidade que pretende se impor no mundo do pensamento e da ação através de meios “ocultos’’, via poderes dionísiacos e correspondências herméticas (tendo em vista suas fascinacões mútuas por óperas como referência artística, e seus meios de propagar suas “filosofias’’).
Nossa “louca’’ síntese de Nietzche e Fourier irá revelá-los como vizinhos dos hermenêuticos da Renascença, que também buscaram programas políticos utópicos através da ação nos níveis da percepção aestética, e dos prazeres da criatividade que constitui os meios e os objetivos do projeto utópico. Mas, em Fourier, encontramos a verdadeira noção divina que essa realização aestética virá a se manifestar como ação coletiva - de que a sociedade se reconstituirá na forma de uma obra de arte.
Cada indivíduo, agora com poderes aumentados pela Associação Harmoniosa e os Agrupamentos Passionais, se tornará um “artista diferenciado’’. Após descobrir seus “desejos reais’’, estes se tornarão produtivos em um mundo dado a genuínas orgias de criatividade, erotismo, “gastronomia’’, e brilhantismo aestético. Assim como o shamanismo é “democrático’’ em algumas tribos, onde toda pessoa é uma visionária, Fourier eleva cada membro da falange ao status de “grande artista’’. Naturalmente, alguns serão ainda maiores (leia-se: mais passionais) que outros, mas nenhum deles será excluído - o “mínimo utópico’’ garante poder criativo. Nietzche fala da “vontade de Poder como Arte’’; Fourier fez disso o princípio de uma utopia anarquista onde a própria força organizadora é o desejo.
Nota-se, em nosso palipsesto, duas imagens contraditórias: primeiro, do artista como “bardo’’, e como um rebelde romântico em um mundo que nega a função barda; segundo, a supressão- e- realização- da- arte, onde o “artista’’ desaparece de uma categoria privilegiada para reaparecer (como em “Aqui vem todo mundo’’, de Joyce) em uma eventual democratização xamânica da Arte.
Seria possível intuir - baseado em nossa teoria palimpsestítica anti- diacrônica - de que esse paradoxo possa ser apenas aparente, uma falsa dicotomia? Ou até mesmo se for uma paradoxo real, poderíamos construir um paradoxalismo capaz de reconciliar aposições em “nível superior’’ (coincidentia opositorum)? Ou ainda, como Alice, podemos entreter diversas noções contraditórias conflitantes “antes do café da manhã’’? Poderíamos “salvar’’ a Arte de um fracasso retumbante, e o artista do jugo da elite e da vanguarda, e ao mesmo tempo realizar a “revolução do cotidiano’’ e a utopia do desejo?
Para conseguir chegar a uma resposta, eu preferiria largar o problema da Arte e o artista, e me concentrar na condição da obra de arte. Afinal de contas, o que podemos dizer a respeito dos preceitos do artista, que (a despeito de toda a “tragédia’’) ainda é um espírito livre no mundo dos objetos, o único que sabe chamar atenção, o único abençoado com a obsessão, e o único praticante do trabalho atrativo? [Nota: é claro que aqui estou definindo o “artista’’ como alguém livre e obsessivo, capaz de prestar atenção, esteja ele inserido ou não nas “artes’’, ou na contracultura, etc, etc.]
Comparado a isto, a tragédia real parece envolver não o artista, mas a obra de arte. Ela é alienada como objeto tanto pelo produtor quanto pelo consumidor. Seja ela retirada da “vida cotidiana’’ como um fetiche único, ou que tenha sua “aura’’ roubada através da reprodução. Na economia do simulacro, a imagem se solta e flutua livre de todas as referências - mesmo que as imagens sejam “recuperadas’’, até mesmo (ou especialmente) as mais “transgressoras’’ ou mais “subversivas’’, elas acabam sem valor algum, pelos objetos que se tornaram. A galeria de arte é o terminal e o museu é o término desse processo de alienação. O museu representa a última fixação do preço como significante da imagem. Esqueça a questão de “salvar’’ o artista; é possível a “salvação’’ da obra de arte?
Para “justificar’’ e “redimir’’ a obra de arte seria necessário removê-la da economia do objeto. A única economia capaz de sustentar esse sistema seria com uma “economia do presente’’, da reciprocidade. Este conceito foi sistematizado pelo antropólogo M. Mauss na sua obra-prima, O Presente, e exerceu grande influência em diversos pensadores, como Bataille e Levi Strauss. Foi exemplificado pelas cerimônias potlach realizadas sociedades indígenas do noroeste americano, mas ela pode ser hipotetizada como universal. Antes que o “dinheiro’’ e o “contrato’’ emergissem, toda sociedade humana se baseava no Presente, e na sua reciprocidade. Antes da conceitualizacão de “excesso’’ e “escassez’’ onde prevalece a apreensão acerca da “excessiva’’ generosidade da natureza e da sociedade, o que deve ser gasto (ou “expresso’’, de acordo com Nietzche) em produção cultural, trocas aestéticas, ou - especialmente - no festival.
No contexto da economia do presente, o festival é o poder focalizador do social -o nexo da troca - na verdade, uma forma de “governo’’. Mas como a economia do presente dá espaço para a economia do dinheiro, o festival começa a ficar com um aspecto “sombrio’’. Ele acaba por virar de cabeça pra baixo toda a ordem social, uma queima de excessos permitida, que irá limpar as pessoas de seus ressentimentos naturais contra a alienação e a hierarquia, uma desordem que paradoxalmente restaura a ordem.
Mas como a economia do dinheiro cede passagem para a economia dos objetos, o festival toma outra direção com o significado. Ao preservar o Presente dentro da matriz de um sistema que é hostil ao próprio Presente, o festival, de modo saturnaliano, tornou-se um foco genuíno de oposição ao consenso econômico. Esta oposição permanece inconsciente, e o espetáculo pode recuperar suas energias (pense no Natal!) - mas o festival espontâneo permanece como uma fonte real de energia utópica.
O agrupamento, festas, raves, eram para a autoridade moderna perigosos exemplos de de desordem total, precisamente porque eles tentavam retirar a energia do Presente da economia dos objetos. Os movimentos pós- surrealismo e pós- situacionismo, que foram carregados no projeto da supressão -e- realização têm desenvolvido teorias festivas. O barulho de Jacques Attali, que explora supressão -e- realização em termos musicais (ele chama isso de “estágio de composição’’) é baseado na análise feita sobre uma pintura de Breughel durante um festival. Sem dúvida, o festival é um componente importante para qualquer teoria que se ofereça a restituir o Presente ao centro do projeto criativo?
A obra de arte está “salva’’? Seria melhor perguntar se ela possui uma dimensão ou função lógica. Ela pode me redimir? E como isso vai ser feito a menos que seja libertada da alienação de economia festiva? A Arte nasceu livre e está acorrentada a tudo e todos - obviamente, a “tarefa revolucionária’’ do artista consiste não em fazer Arte, e sim libertá-la. De fato, parece que se desejarmos trabalhar pela supressão -e- realização nós devemos (paradoxalmente?) reviver aquela perigosa visão romântica do artista como rebelde, como criador- destruidor - o revolucionário oculto. Se a vida criativa (incluindo valor- criação) pode ser chamada “liberdade’’, logo, o artista é um profeta (bardo) de sua liberdade - assim como Blake acreditava. Pelos meios da ciência hieroglífica, o artista se insere, codifica, engloba, educa, expressa, acena. A obra de arte como sedução pede para ser cedida e seduzida pelo brilhantismo de todos - disto carece reciprocidade. Não a vida como ARTE (o que seria uma forma intolerável de dadaísmo) - e sim arte como VIDA.
No fim, há algo para se fazer com todo esse contexto da galeria, do museu, da economia dos objetos? Existe um modo de evitar e subverter o processo de recuperação? Possivelmente. Primeiro, porque o mundo das galerias vêm se desvalorizando, acabam se desesperando e tentam de tudo. Segundo, porque a obra de arte, a despeito de tudo, ainda retém um toque de mágica.
Se nós artistas formos forcados (pela penúria, por exemplo) a trabalhar para o mundo- das- galerias, ainda poderemos nos perguntar sobre a melhor maneira para “continuar a luta’’ e agitar os espíritos das pessoas pela causa do caos criativo. Mas NÃO através do ainda- mais- arcano elitismo, claro. E NÃO através do cruel realismo socialista e suas artes “políticas’’. NEM pense em cultos mórbidos para “transgredir’’ e ser moderno. NÃO use uma hiperconformidade irônica.
Podem existir muitas estratégias para “aborrecer de dentro’’ o mundo das artes -mas eu posso pensar em uma que não envolve destruição impensada. Faça isso: - toda obra de arte pode ser feita da maneira mais transparente possível de acordo com os princípios da poesia utópica e a ciência hieroglífica.
Cada obra seria uma “máquina de sedução’’ ou um motor mágico feito para acordar os verdadeiros desejos, raiva na repressão desses desejos, fé na não- impossibilidade destes desejos. Algumas obras de arte consistiriam de arranjos para a realização do desejo, outras iriam invocar e articular o objeto/subjeto do desejo, outros esconderiam tudo com mistérios, e o resto ficaria completamente translucente. A obra de arte deve desviar atenção de si como o ícone privilegiado, ou fetiche, ou objeto de desejo, e ao invés disso focar sua atenção nas energias libertárias.
Os trabalhos de alguns “artistas- terra’’, por exemplo, que é transmutar paisagens lugares utópicos ou em cenas eróticas; os trabalhos de “artistas de instalação’’, a quem suas micro-realidades têm memoria, desejo, jogo, todas as energias já comentadas por Bachelard no livro “Imaginacão’’, que contem sua “psychoanalysis of space’’ - arte deste tipo pode ser mostrada ou documentada no contexto do mundo da Arte, em galerias ou museus, apesar de que o seu propósito e efeito iria dissolver aquelas estruturas e “enfraquecer’’ na vida cotidiana, onde seria deixado um vestígio maravilhoso, e uma sede por mais.
Estratégias similares podem ser executadas em outras obras de arte - livros, música, ou ainda o festival como criação coletiva. Em todos os casos, acho que um trabalho mais efetivo pode ser feito do lado de fora dessas instituições com discursos aestéticos, até mesmo com ataques a elas. Entretanto, nós devemos aproveitar nossa vantagem de acesso ao mundo das Artes, com todos os seus privilégios, e utilizá-los como uma catapulta para um assalto, tendo em vista sua exclusividade, seu elitismo profissional, sua irrelevância - e seu poder.
As táticas e específicas desta estratégia da insurreição ficará às mãos de artistas individuais e com o poder de suas criações. O objetivo é uma generosidade insana, uma doação maior que a de qualquer transação, um brinde grátis impossível de receber. A obra de arte se torna o vírus do excesso, uma instigação ao desejo utópico - um dispositivo soteriológico. Nada faz mais sentido do que as tentativas da Arte de se auto- destruir. O propósito disto não é para destruir o espaço de criatividade, mas para abri-lo - não para excluir, mas para convidar todos a entrar. Nós não queremos sair; queremos (finalmente) aterrissar. Declarar o Jubileu.
Traduzido por Rodrigo Oliveira
Nietzche exaltou o sobre-humano como indivíduo (“Aristocracia radical’’) - a sua sociedade de espíritos livres iria, sem dúvida, consistir de uma “união individualista’’. Fourier exaltou as Séries Passionais - para ele o indivíduo sempre falharia em existir a não ser em uma associação harmônica. Opostas, estas visões - então como eu as vejo como complementares, pois iluminam da mesma forma, e sendo assim, perfeitamente exequíveis?
Uma resposta seria “dialética’’. Mais precisamente - “dialética taoísta’’, não como uma valsa, mas sim como o jazz - sutil, ardiloso e com diversos meandros. Outra resposta seria “surrealismo’’ - pense em uma bicicleta feita de corações e trovões. “Idealismo’’ não é uma resposta - um vai e vem zumbi, aquele triunfalismo de fantasmas em paradas de rua. “Teoria’’ não pode ser identificada com ideologia, nem mesmo como ideologia-em-processo, pois a teoria situou a si mesma separada de todas as categorias -porque a teoria nada mais é do que situacionista - já que ela não abandonou o desejo em detrimento da “História’’.
Logo, a teoria fica à deriva como um dos nômades de Ibn Khaldun, enquanto a ideologia permanece rígida e continua a construir cidades e imperativos morais; a teoria pode ser violenta, mas a ideologia é cruel. A “Civilização’’ nunca existiria sem ideologias (o calendário é provavelmente a primeira delas) porque a civilização emerge muito mais da concretização de categorias abstratas do que de impulsos “naturais’’ ou “orgânicos’’. Embora soe paradoxal, a ideologia tem a si própria como objeto de estudo. Ela justifica todos os banhos de sangue ou o canibalismo - mais precisamente, sacrifica o orgânico para reter o inorgânico - o “objetivo’’ da História que, no fim acaba se tornando... ideologia. A teoria, por outro lado, se recusa a abandonar o desejo e assim alcança uma objetividade genuína, um movimento voltado para fora dela mesma, que é orgânico e “material’’, e cognitivamente oposto ao falso altruísmo e alienação da civilização (sobre isso, tanto Nietzche quanto Fourier concordam).
Finalmente, eu iria propor o que chamo de Teoria Metapalimpsestítica.
Um palimpsesto é um manuscrito que é reescrito ao se escrever por cima do texto original, geralmente sob os pontos de vista corretos, e às vezes em mais de uma situação. Na maioria das ocasiões, é impossível definir a primeira camada da escritura; e para qualquer caso, um eventual “desenvolvimento’’ (exceto na ortografia) de uma camada para outra seria pura coincidência. As conexões entre elas não são sequenciais no tempo, e sim justapostas no espaço. As letras na camada B podem borrar as que estão na camada A, ou vice-versa, ou podem deixar áreas em branco sem qualquer marca ou inscrição, ainda assim ninguém pode dizer que a camada A “evoluiu’’ para camada B (pois não temos certeza qual delas é a original).
E as justaposições não seriam exatamente “aleatórias’’ ou “sem sentido’’. Uma possível conexão pode ser encontrada na realidade da bibliomancia surrealista, ou “sincronicidades’’ (como os antigos cabalistas disseram, os espaços em branco entre as letras podem ter algum significado mais importante do que as próprias letras). Até mesmo o “desenvolvimento’’ pode ser um modelo para a leitura - diacronicidades podem ser hipotetizadas, uma “história’’ é pelo manuscrito, camadas são datadas de acordo com as escavações arqueológicas. Enquanto não endeusarmos o “desenvolvimento’’, conseguiremos utilizá-lo como uma estrutura que possibilita nossa tese.
A diferença entre um palimpsesto manuscrito e um palimpsesto teórico é que o último não é fixado em lugar algum. Ele pode ser reescrito - reinscrito - com todas as camadas que o acrescem. E todas elas são transparentes, translúcidas, a não ser quando um agrupamento de inscrições bloqueiam a luz cabalística - (como ocorre em células de animação). Todas as camadas estão “presentes’’ na superfície do palimpsesto - mas o seu desenvolvimento (incluindo o dialético) se tornou invisível e, talvez, sem sentido.
Seria aparentemente impossível livrar a teoria metafísica do palimpsesto, da acusação de apropriamento indébito e subjetivo - um pouco de crítica aqui, uma proposta utópica ali - mas nossa defesa teria de consistir no fato de que não estamos procurando por ironias descartáveis, mas sim explosões de luz. Se tu estás sedento por desconstruções banais ou um hiperconformismo afetado, volte para a escola, arranje um emprego - nós estamos atrás de outros peixes para fritar. Embora tenhamos construído um sistema epistemológico - um método de aprendizado e conhecimento baseado na justaposição de elementos teóricos ao invés de seus desenvolvimentos ideológicos; num sentido não-histórico da coisa. Também evitamos outras formas de linearidade, como a seqüência e exclusão lógica. Se admitirmos a história dentro desse esquema, podemos utilizá-la apenas como mais uma forma de justaposição, sem a fetichizar como absoluta - o mesmo vale para a lógica, etc.
Essa aproximação lúdica à teoria não deve ser confundida com “relativismo moral’’ (a desvalorização dos valores), de onde é resgatada pela nossa “teleologia subjetiva’’. Ou seja, nós (e não a “história’’) estamos à caça de propósitos, objetivos, objetos -dedesejos (a revalorização dos valores). A natureza criativa dessa ação vem da evasão da imaginação (ou “Imaginação Criativa’’, como
H. Corbin e os Sufis a chamam) - há também a visionária disciplina da “crítica paranóica’’ (S. Dali), a revalorização subjetiva das categorias aestéticas. “O pessoal é o político.’’ Justaposição, superposição e padrões complexos. Embora produzam uma unidade maleável, (como o monismo escondido do politeísmo, ao invés do dualismo escondido do monoteísmo) -paradoxalmente como método epistemológico - de alguma forma similar à “epistemologia anarco- dadaísta’’ de Feyerabend ( Contra o método). “Etiquetas? Nós não precisamos de suas malditas etiquetas!’’
Eu gostaria de reiterar o fato de que todo o debate teórico-histórico sobre a “Arte’’ como uma categoria separada (um museu de fetiches), assim como uma fonte para a reprodução da miséria e alienação a partir da exclusão dos “não-artistas’’ do prazer da criatividade (ou “trabalho atrativo’’, como disse Fourier). Quero mencionar a proposta situacionista pela “supressão e realização da arte’’, por exemplo, sua supressão revolucionária como uma categoria, e sua realização no nível da “vida cotidiana’’ (ou seja, da vida em detrimento do espetáculo).
Essa proposta é baseada na presunçosa afirmação de que a Arte falhou em funcionar como “avantgarde’’ (leia-se: “vanguarda’’) quando os surrealistas aderiram ao Partido Comunista - e simultaneamente, na galeria/museu “Mundo da Arte’’ do objeto fetichista - embora alegando ideologias espúrias e elitismo em um desastre espetacular. Nesse ponto, os remanescentes da avantgarde iniciaram um processo para reverterem-se de Ideologia e objetificação (mais ou menos a partir do dadaísmo de Berlim) como o Letrismo, Situacionismo, Não-Arte, Fluxus, arte postal, neoísmo, etc - onde a ênfase mudou da vanguarda para uma descentralização radical do impulso criativo, longe das galerias e museus para privilegiados - em direção ao desaparecimento da “Arte’’ e à volta do criativo na sociedade.
Claro que os museus também compraram esses “movimentos’’, como se para provar que qualquer coisa (até a “anti- arte’’) pode ser um objeto. Cada um desses movimentos pós- vanguarda caíram perante a confusão e a tentação, e tentaram se comportar como os vanguardistas clássicos. E todos falharam, como o surrealismo falhou em libertar a obra de arte da banalização de seu papel como Objeto.
Consequentemente, o mundo artístico engoliu e interiorizou a teoria da arte, destinando-a -se levada a sério - à auto- destruição. Galerias prosperam (ou sobrevivem) com um niilismo que só pode ser contido através da ironia, e que de outra forma iria corroer e acabar com as paredes dos museus. Este ensaio, por exemplo, será imprimido no catálogo de uma galeria, embora ele perpetre a ironia de clamar pela supressão e realização da arte, partindo de dentro da mesma estrutura que condiciona a alienação do não-artista e a fetichização da obra de arte. Bom, foda- se a ironia. Só podemos esperar que cada compromisso seja o último deles.
Aqueles que falharam em ver essa situação como uma malária devem parar a leitura - a teoria já é o bastante sem precisar explicar sua própria náusea - ad nauseam.
A fascinação do século vinte com o “primitivo’’ e o “ingênuo’’ serve como medida, primeiro, pela exaustão da “História da Arte’’; segundo, pelo desejo utópico por uma arte que não fosse uma categoria separada, mas congruente com a vida em si. Sem ironia. Arte como uma brincadeira séria. Os artistas imitaram as formas primitivas e ingênuas sem perceber que toda a produção dessas mesmas formas depende da ausência estrutural da alienação social (“arte tribal’’) ou individual. Essa falta de rompimento, de dualidade na arte africana, javanesa, ou no manicômio, foi o que fez artistas como Klee e sentirem inveja.
Em uma sociedade livre da “malária’’ (ao menos em proporções trágicas) uma pessoa pode esperar ver que “o artista não é alguém especial, mas que alguém especial é um artista.’’ Coomaraswamy pensava na Indonésia quando inventou esse slogan, que eu já tinha ouvido em Java que “Todos devem ser artistas’’ - um tipo de versão mística da teoria da supressão-e realização. Não é precisamente a especialização (do trabalho ou da cognição) que origina a náusea, através dessa leitura, mas sim a separação - fetichismo, alienação. Como cada pessoa é um tipo especial de artista, alguns deles irão se especializar nos grandes poderes integrativos da criatividade - contando as principais histórias da tribo - a criação de Valor e “Significado’’ - que pode ser chamado de “função barda’’.
Em algumas tribos essa função é dividida entre vários indivíduos, mas é sempre associada com uma concentração de mana. Em culturas “bárbaras mais desenvolvidas (como os Celtas) a função é institucionalizada em certo grau - o bardo é o “ sábio legislador’’ de uma sociedade de artistas. A função barda focaliza e os integra.
Se procurarmos um momento simbólico onde ocorre a “quebra’’, e a malária começa a tomar lugar, poderemos escolher uma passagem na República, de Platão, onde os poetas são banidos da utopia como “mentirosos’’ - como se a Lei (em categoria abstrata) fosse a única função integrativa possível, excluindo a imaginação nômade como oposição, como anti- verdade, como caos social. A racionalidade é agora imposta baseada na organicidade da vida -o bem é visto na natureza como “ser’’, enquanto tudo extrínseco à natureza é associada ao mal.
Na Renascença, o artista volta a se expressar como indivíduo às custas da função integrativa. Esse momento marca o início do “Romantismo’’, o desaparecimento do artista da sociedade, e da obra de arte da vida. O artista como ego prometheano, a obra de arte como “bonita’’ (leia-se: inútil) - esse exemplo mede a lacuna aberta entre uma elite aestética, e uma massa condenada à esterilidade e ao kitsch. E ainda é possível enxergar um motivo nobre e corajoso nesse processo, o qual é refletido na liberdade boêmia do artista, assim como na crítica do mesmo à sociedade e sua cruel monotonia - pois o artista irá se tornar um “legislador iletrado’’, um profeta sem honras - o herói romântico, inspirado e amaldiçoado pela mesma realidade.
O artista anseia, mais uma vez, preencher a função barda, para criar significados aestéticos para si e para a tribo. Colérico por se ver rejeitado a esse papel, ele sai de controle e entra em uma alienação cada vez maior - depois uma rebelião assumida - e finalmente, silêncio. A trajetória romântica se realiza mais uma vez.
A Renascença também testemunhou a primeira tentativa moderna de o integral (“a ordem da intimidade’’) através do poder combinado da arte e da mágica - que são na verdade vistas como relacionadas naturalmente pelas suas profundas estruturas - essencialmente linguísticas. O elemento unificador é a “ação à distância’’, e a síntese de todas essas ramificações é o Livro Emblema que junta, de acordo com o estudo de hieróglifos, a imagem, a palavra, e às vezes música, para acarretar mudanças morais (espirituais) no leitor E no mundo real.
O objetivo da Renascença Hermética/Artista era utópico, e nessa ambição pode ser visto o desejo de reanimar a função barda, e dar significado à experiência da “tribo’’, influenciar o consenso realidade- paradigma, salvar o mundo através da arte. Projetos românticos desesperados de Gaugin, Rimbaud, Wagner, Artaud, os Surrealistas - o artista como mago- profeta do desejo revolucionário.
Por causa de todos esses fracassos, e da acomodação nauseante com o mundo da arte feito de objeto capitalista, essa mágica tradição é nossa herança, e de alguma forma nós ainda acreditamos nela. Até mesmo acreditar na supressão da arte é acreditar que ela é importante e significativa, ao menos em face de seu desaparecimento. Mais adiante, a “liberdade’’ do artista parecia merecer alguma proteção - e distribuição - se ao menos esta fosse POR algo, e não somente DE algo. Não obstante a pobreza, solidão, e sentimentos de futilidade, nós estamos nessa margem porque gostamos dela, e porque o risco faz bem para nossa arte. Nesse sentido, ainda somos românticos.
Ainda que sejamos forçados a admitir que esse projeto mágico- revolucionário falhou - frequentemente. O fetichismo dos objetos causa um efeito negativo no feedback - e assim como ciência hieroglífica, este caiu nas mãos de publicitários, marketeiros do “discurso’’ espetacular (ou “simulacro’’, como disse Baudrillard), os reais porém escondidos legisladores dessa realidade virtual. A proposta para a supressão e realização da arte é a afirmação culminante da tradição romântica- hermética de oposição, o último “desenvolvimento’’ possível em uma progressão dialética que nos leva ao impasse atual.
Se observarmos a “História da Arte’’ desta perspectiva diacrônica, iremos nos encontrar em uma cul- de- sac, pegos de surpresa em um paradoxo impossível onde o propósito da arte é a destruição da mesma, para que assim “todos’’ possam ser artistas. Para nós - como artistas - isto constitui-se em uma rua sem saída. O que podemos fazer? A História nos traiu.
O que acontecerá se abandonarmos esta perspectiva diacrônica? E se superpusermos todos os “estágios do desenvolvimento’’ em um palimpsesto que só pode ser lido como uma sincronicidade? E se as tratarmos como teorias, todas visíveis sobre uma única superfície, potencialmente relacionados não no tempo, mas no espaço?
Mais uma vez, devemos insistir que nossa pesquisa palimpsestítica não deve ser confundida com alguma viagem de férias banal através de um cemitério de categorias aestéticas. Estamos procurando Valores - ou um poder imaginário para criá-los (ao saber nossos “verdadeiros desejos’’, como alguns dizem), e nossa procura não é fria e detalhista por definição -não é frívola, mas séria - não sóbria, mas prazerosa - pois, para os bardos, nada é mais sério do que nossa intoxicação com o lúdico ato da criatividade.
Então, nós pegamos toda a discussão desenvolvida acima e a condensamos em um “manuscrito’’ onde toda teoria é escrita em cima de outra, e assim adiante. Como profetas estudando as nuvens ou os onze tipos de iluminação, como magos com espelhos obsidianos para decorrer sobre alfabetos angelicais, nós agora estudamos “História da Arte’’ como se ela nunca tivesse ocorrido, como se todas as possibilidades fossem um eterno presente, infinitamente fluido. Contradições evidentes apenas escondem harmonias ocultas, “correspondentes’’- toda e qualquer justaposição se prova fortuita. “Palimpsestomancia’’.
Assumindo que as teorias que discutimos diacronicamente estão agora arranjadas em sincronia na página de nosso palipsesto, vamos experimentar uma leitura para procurar coincidências inesperadas e reveladoras. A teoria de Fourier sobre o trabalho atrativo, por exemplo, poderia ter sido superposta na Cosmologia de Hesiod, onde os três princípios da existência eram o Caos, Eros, e a Terra. Agora o desejo pode ser visto como uma força que transforma a pura espontaneidade da Imaginação em formas da natureza, ou o “princípio essencial da matéria’’ - o desejo como princípio organizador da criatividade - o desejo como a única fonte possível para a sociedade. “Ação à distância’’, o cerne do paradigma Hermético, deveria ter sido banido da filosofia mecanicista que prevaleceu e conquistou a ciência no século XVII; mas continuava se esgueirando nos discursos, primeiro como uma “explanação’’ para a gravidade (“atração’’), e atualmente em diversos lugares - as quatro forcas da física quântica, a influência do “Estranho Atrator’’ na matéria desorganizada, etc.
Embora a mágica tenha fracassado em “trabalhar para os hermenêuticos da Renascença na mesma medida em que, por exemplo, funcionou com Bacon e Newton, ainda que a ciência hieroglífica possa ser revivida na forma de uma ferramenta epistemológica em nosso estudo acerca da nomeação dos termos (ambíguos). Fenômenos como a linguagem e outros códigos semânticos que - literalmente - nos influenciaram à distância. Os Hermenêuticos acreditavam em emanações na forma de raios que transfeririam o “poder moral’’ de uma imagem (sua influência aumentada com as cores apropriadas, cheiros, sons, palavras, fluidos astrais, etc.) para a consciência humana “à distância’’.
A visão, ou o reflexo, o som, a inflexão, cria lembranças, fragmentos e agrupamentos de “significados’’ na “alma’’ de quem está vivenciando aquilo. Por um processo de “mutabilidade’’ onde tudo é simbolizado paradoxalmente ao mesmo tempo, cientista hieroglífico conjuga feitiços em uma densa floresta de ambiguidades, que é mais precisamente o reino do artista - na verdade os alquimistas foram conhecidos como os “artistas’’ da “Arte Espagírica’’. Assim como o alquimista muda o mundo (dos metais), há também quem escreve o Livro dos Emblemas ou quem levanta monumentos públicos (leia-se: obeliscos) muda o mundo cognitivo e de interpretação “moral’’ pela análise de imagens e símbolos. Deixando de lado a questão das “emanações”, nós aterrisamos em uma teoria da arte oculta que foi passada adiante (via Blake, por exemplo) para os Românticos e para nós.
Como Ítalo Calvino aponta, toda arte é “política’’ - invariavelmente - uma vez que toda obra de arte reflete a arrogância do artista sobre o “tipo propício’’ de cognição, de relação com a consciência individual para agrupar consciências (teoria aestética), etc, etc. De certa forma, toda arte é utópica no sentido de que faz uma afirmação (às vezes de forma vaga) sobre como as coisas deveriam ser.
Entretanto, o artista pode se recusar a admitir essa dimensão “política’’ - algumas distorções podem acotecer. Esses artistas que abandonaram a idéia hermética/romântica de “influência moral’’ frequentemente revelam sua inconsciência política para semiólogos e dialéticos mais atentos. “Entretenimento puro’’ acaba sendo rebocado com um ectoplasma de reação perpendicular, e “arte pura’’ costuma ser ainda pior.
Contrastando com isso, esta inconsciência artística pode inadvertidamente revelar o que Walter Benjamin intitulou “Vestígio Utópico’’ - um tipo de fragmento gnóstico do desejo infiltrado em cada produção humana, sem distinguir o quão reproduzida ela foi. Publicidade, por exemplo, usa esse vestígio para vender a imagem de uma reprodução que promete (no inconsciente) mudar o mundo de uma pessoa, trazer uma vida melhor. É claro que isso nunca vai acontecer - de outra forma, seu desejo seria concretizado e você iria parar de gastar dinheiro em imitações baratas do desejo. Tantalus pode cheirar a comida e enxergar o vinho, mas nunca prová-los - ele é o consumidor perfeito, que paga (eternamente) por uma imagem. Nesse sentido a publicidade é mais Hermética das artes modernas.
O vestígio utópico também pode ser analisado em outra forma de arte “maldita’’, pornografia - que age diretamente ao trazer a inconsciência para uma cognição consciente à base do excitamento erótico. É o desejo que destitui esse vestígio e organiza o caos tendo em vista o modo “como as coisas devem ser’’. A masturbação é um epifenômeno - o efeito real da pornografia serve para inspirar sedução (como em Dante, onde os amantes pecam após a leitura de romances Arthurianos, juntos no jardim). Ignorantes da Direita estão corretos quando acusam as artes eróticas de influenciar e até mudar o mundo, e liberais de esquerda estão errados quando implicam que o pornô deveria ser liberado porque é “inofensivo’’ - porque é “apenas’’ arte. A pornografia é boa para o corpo político, e tanto quanto é “perversa’’ ela prega por uma revolução liberal do desejo - o que explica exatamente porque alguns tipos de pornografia são censurados e proibidos em todas as “democracias’’ do mundo atualmente. Uma vez que o pornô comercial é pduzido em um nível inconsciente e revolucionário, a sua “revolução’’ proposta é sem dúvida ambígua; mas não há nenhuma razão teórica porque o erótico não pode ser utilizado de acordo com a ciência hieroglífica para fins utópicos.
Isso nos leva à questão de uma poesia utópica. Nietzche e Fourier teriam concordado que a arte não é apenas um reflexo da realidade, mas sim uma nova realidade que pretende se impor no mundo do pensamento e da ação através de meios “ocultos’’, via poderes dionísiacos e correspondências herméticas (tendo em vista suas fascinacões mútuas por óperas como referência artística, e seus meios de propagar suas “filosofias’’).
Nossa “louca’’ síntese de Nietzche e Fourier irá revelá-los como vizinhos dos hermenêuticos da Renascença, que também buscaram programas políticos utópicos através da ação nos níveis da percepção aestética, e dos prazeres da criatividade que constitui os meios e os objetivos do projeto utópico. Mas, em Fourier, encontramos a verdadeira noção divina que essa realização aestética virá a se manifestar como ação coletiva - de que a sociedade se reconstituirá na forma de uma obra de arte.
Cada indivíduo, agora com poderes aumentados pela Associação Harmoniosa e os Agrupamentos Passionais, se tornará um “artista diferenciado’’. Após descobrir seus “desejos reais’’, estes se tornarão produtivos em um mundo dado a genuínas orgias de criatividade, erotismo, “gastronomia’’, e brilhantismo aestético. Assim como o shamanismo é “democrático’’ em algumas tribos, onde toda pessoa é uma visionária, Fourier eleva cada membro da falange ao status de “grande artista’’. Naturalmente, alguns serão ainda maiores (leia-se: mais passionais) que outros, mas nenhum deles será excluído - o “mínimo utópico’’ garante poder criativo. Nietzche fala da “vontade de Poder como Arte’’; Fourier fez disso o princípio de uma utopia anarquista onde a própria força organizadora é o desejo.
Nota-se, em nosso palipsesto, duas imagens contraditórias: primeiro, do artista como “bardo’’, e como um rebelde romântico em um mundo que nega a função barda; segundo, a supressão- e- realização- da- arte, onde o “artista’’ desaparece de uma categoria privilegiada para reaparecer (como em “Aqui vem todo mundo’’, de Joyce) em uma eventual democratização xamânica da Arte.
Seria possível intuir - baseado em nossa teoria palimpsestítica anti- diacrônica - de que esse paradoxo possa ser apenas aparente, uma falsa dicotomia? Ou até mesmo se for uma paradoxo real, poderíamos construir um paradoxalismo capaz de reconciliar aposições em “nível superior’’ (coincidentia opositorum)? Ou ainda, como Alice, podemos entreter diversas noções contraditórias conflitantes “antes do café da manhã’’? Poderíamos “salvar’’ a Arte de um fracasso retumbante, e o artista do jugo da elite e da vanguarda, e ao mesmo tempo realizar a “revolução do cotidiano’’ e a utopia do desejo?
Para conseguir chegar a uma resposta, eu preferiria largar o problema da Arte e o artista, e me concentrar na condição da obra de arte. Afinal de contas, o que podemos dizer a respeito dos preceitos do artista, que (a despeito de toda a “tragédia’’) ainda é um espírito livre no mundo dos objetos, o único que sabe chamar atenção, o único abençoado com a obsessão, e o único praticante do trabalho atrativo? [Nota: é claro que aqui estou definindo o “artista’’ como alguém livre e obsessivo, capaz de prestar atenção, esteja ele inserido ou não nas “artes’’, ou na contracultura, etc, etc.]
Comparado a isto, a tragédia real parece envolver não o artista, mas a obra de arte. Ela é alienada como objeto tanto pelo produtor quanto pelo consumidor. Seja ela retirada da “vida cotidiana’’ como um fetiche único, ou que tenha sua “aura’’ roubada através da reprodução. Na economia do simulacro, a imagem se solta e flutua livre de todas as referências - mesmo que as imagens sejam “recuperadas’’, até mesmo (ou especialmente) as mais “transgressoras’’ ou mais “subversivas’’, elas acabam sem valor algum, pelos objetos que se tornaram. A galeria de arte é o terminal e o museu é o término desse processo de alienação. O museu representa a última fixação do preço como significante da imagem. Esqueça a questão de “salvar’’ o artista; é possível a “salvação’’ da obra de arte?
Para “justificar’’ e “redimir’’ a obra de arte seria necessário removê-la da economia do objeto. A única economia capaz de sustentar esse sistema seria com uma “economia do presente’’, da reciprocidade. Este conceito foi sistematizado pelo antropólogo M. Mauss na sua obra-prima, O Presente, e exerceu grande influência em diversos pensadores, como Bataille e Levi Strauss. Foi exemplificado pelas cerimônias potlach realizadas sociedades indígenas do noroeste americano, mas ela pode ser hipotetizada como universal. Antes que o “dinheiro’’ e o “contrato’’ emergissem, toda sociedade humana se baseava no Presente, e na sua reciprocidade. Antes da conceitualizacão de “excesso’’ e “escassez’’ onde prevalece a apreensão acerca da “excessiva’’ generosidade da natureza e da sociedade, o que deve ser gasto (ou “expresso’’, de acordo com Nietzche) em produção cultural, trocas aestéticas, ou - especialmente - no festival.
No contexto da economia do presente, o festival é o poder focalizador do social -o nexo da troca - na verdade, uma forma de “governo’’. Mas como a economia do presente dá espaço para a economia do dinheiro, o festival começa a ficar com um aspecto “sombrio’’. Ele acaba por virar de cabeça pra baixo toda a ordem social, uma queima de excessos permitida, que irá limpar as pessoas de seus ressentimentos naturais contra a alienação e a hierarquia, uma desordem que paradoxalmente restaura a ordem.
Mas como a economia do dinheiro cede passagem para a economia dos objetos, o festival toma outra direção com o significado. Ao preservar o Presente dentro da matriz de um sistema que é hostil ao próprio Presente, o festival, de modo saturnaliano, tornou-se um foco genuíno de oposição ao consenso econômico. Esta oposição permanece inconsciente, e o espetáculo pode recuperar suas energias (pense no Natal!) - mas o festival espontâneo permanece como uma fonte real de energia utópica.
O agrupamento, festas, raves, eram para a autoridade moderna perigosos exemplos de de desordem total, precisamente porque eles tentavam retirar a energia do Presente da economia dos objetos. Os movimentos pós- surrealismo e pós- situacionismo, que foram carregados no projeto da supressão -e- realização têm desenvolvido teorias festivas. O barulho de Jacques Attali, que explora supressão -e- realização em termos musicais (ele chama isso de “estágio de composição’’) é baseado na análise feita sobre uma pintura de Breughel durante um festival. Sem dúvida, o festival é um componente importante para qualquer teoria que se ofereça a restituir o Presente ao centro do projeto criativo?
A obra de arte está “salva’’? Seria melhor perguntar se ela possui uma dimensão ou função lógica. Ela pode me redimir? E como isso vai ser feito a menos que seja libertada da alienação de economia festiva? A Arte nasceu livre e está acorrentada a tudo e todos - obviamente, a “tarefa revolucionária’’ do artista consiste não em fazer Arte, e sim libertá-la. De fato, parece que se desejarmos trabalhar pela supressão -e- realização nós devemos (paradoxalmente?) reviver aquela perigosa visão romântica do artista como rebelde, como criador- destruidor - o revolucionário oculto. Se a vida criativa (incluindo valor- criação) pode ser chamada “liberdade’’, logo, o artista é um profeta (bardo) de sua liberdade - assim como Blake acreditava. Pelos meios da ciência hieroglífica, o artista se insere, codifica, engloba, educa, expressa, acena. A obra de arte como sedução pede para ser cedida e seduzida pelo brilhantismo de todos - disto carece reciprocidade. Não a vida como ARTE (o que seria uma forma intolerável de dadaísmo) - e sim arte como VIDA.
No fim, há algo para se fazer com todo esse contexto da galeria, do museu, da economia dos objetos? Existe um modo de evitar e subverter o processo de recuperação? Possivelmente. Primeiro, porque o mundo das galerias vêm se desvalorizando, acabam se desesperando e tentam de tudo. Segundo, porque a obra de arte, a despeito de tudo, ainda retém um toque de mágica.
Se nós artistas formos forcados (pela penúria, por exemplo) a trabalhar para o mundo- das- galerias, ainda poderemos nos perguntar sobre a melhor maneira para “continuar a luta’’ e agitar os espíritos das pessoas pela causa do caos criativo. Mas NÃO através do ainda- mais- arcano elitismo, claro. E NÃO através do cruel realismo socialista e suas artes “políticas’’. NEM pense em cultos mórbidos para “transgredir’’ e ser moderno. NÃO use uma hiperconformidade irônica.
Podem existir muitas estratégias para “aborrecer de dentro’’ o mundo das artes -mas eu posso pensar em uma que não envolve destruição impensada. Faça isso: - toda obra de arte pode ser feita da maneira mais transparente possível de acordo com os princípios da poesia utópica e a ciência hieroglífica.
Cada obra seria uma “máquina de sedução’’ ou um motor mágico feito para acordar os verdadeiros desejos, raiva na repressão desses desejos, fé na não- impossibilidade destes desejos. Algumas obras de arte consistiriam de arranjos para a realização do desejo, outras iriam invocar e articular o objeto/subjeto do desejo, outros esconderiam tudo com mistérios, e o resto ficaria completamente translucente. A obra de arte deve desviar atenção de si como o ícone privilegiado, ou fetiche, ou objeto de desejo, e ao invés disso focar sua atenção nas energias libertárias.
Os trabalhos de alguns “artistas- terra’’, por exemplo, que é transmutar paisagens lugares utópicos ou em cenas eróticas; os trabalhos de “artistas de instalação’’, a quem suas micro-realidades têm memoria, desejo, jogo, todas as energias já comentadas por Bachelard no livro “Imaginacão’’, que contem sua “psychoanalysis of space’’ - arte deste tipo pode ser mostrada ou documentada no contexto do mundo da Arte, em galerias ou museus, apesar de que o seu propósito e efeito iria dissolver aquelas estruturas e “enfraquecer’’ na vida cotidiana, onde seria deixado um vestígio maravilhoso, e uma sede por mais.
Estratégias similares podem ser executadas em outras obras de arte - livros, música, ou ainda o festival como criação coletiva. Em todos os casos, acho que um trabalho mais efetivo pode ser feito do lado de fora dessas instituições com discursos aestéticos, até mesmo com ataques a elas. Entretanto, nós devemos aproveitar nossa vantagem de acesso ao mundo das Artes, com todos os seus privilégios, e utilizá-los como uma catapulta para um assalto, tendo em vista sua exclusividade, seu elitismo profissional, sua irrelevância - e seu poder.
As táticas e específicas desta estratégia da insurreição ficará às mãos de artistas individuais e com o poder de suas criações. O objetivo é uma generosidade insana, uma doação maior que a de qualquer transação, um brinde grátis impossível de receber. A obra de arte se torna o vírus do excesso, uma instigação ao desejo utópico - um dispositivo soteriológico. Nada faz mais sentido do que as tentativas da Arte de se auto- destruir. O propósito disto não é para destruir o espaço de criatividade, mas para abri-lo - não para excluir, mas para convidar todos a entrar. Nós não queremos sair; queremos (finalmente) aterrissar. Declarar o Jubileu.
Traduzido por Rodrigo Oliveira
Saturday, February 02, 2008
Wednesday, September 26, 2007
Pornografia
Na Pérsia eu vi que a poesia é feita para ser musicada e cantada – por uma razão simples – porque funciona.
Uma combinação perfeita de imagem e melodia coloca o público num hal (algo entre um estado de espírito emocional/estético e um transe de supraconsciência), explosões de choro, impulsos de dança – uma mensurável resposta física à arte. Para nós, a ligação entre poesia e corpo morreu junto com a época dos bardos – lemos sob influência de um gás anestesiante cartesiano.
No norte da Índia, mesmo a recitação não-musical provoca barulho e movimento, todo bom verso é aplaudido, ”Wa! Wa!” com elegantes movimentos de mãos, e rúpias são lançadas – enquanto nós ouvimos poesia como um daqueles cérebros de ficção científica em um vidro – na melhor das hipóteses, um sorriso amarelo ou uma careta, vestígios dos rituais símios – o resto do corpo longe, em algum outro planeta.
No Oriente, às vezes os poetas são presos – uma espécie de elogio, já que sugere que o autor fez algo tão real quanto um roubo, um estupro ou uma revolução. Aqui, os poetas podem publicar qualquer coisa que quiserem – o que em si mesmo é uma espécie de punição, uma prisão em paredes, sem eco, sem existência palpável – reino de sombras do mundo impresso, ou do pensamento abstrato – um mundo sem risco ou eros.
A poesia está morta novamente – e mesmo que a múmia do seu cadáver possua ainda algumas de suas propriedades medicinais, a auto-ressureição não é uma delas.
Se os legisladores se recusam a considerar poemas como crimes, então alguém precisa cometer os crimes que funcionem como poesia, ou textos que possuam a ressonância do terrorismo. Reconectar a poesia ao corpo a qualquer preço. Não crimes contra o corpo, mas contra Idéias (e Idéias-dentro-das-coisas) que sejam letais e asfixiantes. Não libertinagem estúpida, mas crimes exemplares, estéticos, crimes por amor. Na Inglaterra, alguns livros pornográficos ainda estão banidos. A pornografia produz um efeito físico mensurável em seus leitores. Como propaganda, ela às vezes muda vidas por revelar desejos secretos.
Nossa cultura gera a maior parte de sua pornografia motivada pelo ódio ao corpo –
mas, como em certas obras orientais, a arte erótica em si mesma cria um veículo elevado para o aprimoramento do ser/consciência/glória. Um espécie de pornô tântrico ocidental poderia ajudar a galvanizar os cadáveres, fazê-los brilhar com uma pitada de glamour do crime.
Os Estados Unidos oferecem liberdade de expressão porque todas as palavras são consideradas igualmente insípidas. Apenas as imagens contam – os censores amam cenas de morte e mutilação, mas horrorizam-se diante de uma criança se masturbando – para eles, aparentemente, isso é uma invasão de seu fundamento existencial, sua identificação com o Império e seus gestos mais sutis.
Sem dúvida, nem mesmo o pornô mais poético faria o cadáver sem rosto reviver,
dançar e cantar (como o pássaro do Caos chinês) – mas... imagine o roteiro de um filme de três minutos ambientados numa ilha mítica povoada por crianças fugitivas que moram nas ruínas de antigos castelos ou em cabanas-totens e ninhos construídos com detritos – uma mistura de animação, efeitos especiais, computação gráfica e vídeo – editado de forma compacta, como um comercial de fast-food...
... mas insólito e nu, penas e ossos, tendas abotoadas com cristais, cachorros negros, sangue de pombos – vislumbres de membros cor de ˆambar enrolados em lençóis – rostos, cobertos por máscaras cheias de estrelas, beijando dobras macias de pele – piratas andróginos, faces abandonadas de colombinas dormindo em altas flores brancas – piadas sujas de se mijar de tanto rir, lagartos de estimação lambendo leite derramado – pessoas nuas dançando break – banheiras vitorianas com patos de borracha e pintos cor-de-rosa – Alice viajando no pó...
... punk reggae atonal para gamelão, sintetizadores, saxofones e baterias – boogies elétricos cantados por um etéreo coro de crianças – antológicas canções anarquistas, um misto de Hafez & Pancho Villa, Li Po & Bakunin, Kabir & Tzara – chame-o de ”CHAOS – The Rock Video!”
Não... provavelmente é só um sonho. Muito caro para produzir e, além disso, quem o assistiria? Não as crianças a quem ele gostaria de seduzir. A TV pirata é uma fantasia fútil; o rock, outra mera mercadoria – esqueça o malandro gesamtkunstwerk, então. Inunde um playground com obscenos folhetos inflamatórios – propaganda pornô, excêntricos manuscritos clandestinos para libertar o Desejo dos seus grilhões.
Uma combinação perfeita de imagem e melodia coloca o público num hal (algo entre um estado de espírito emocional/estético e um transe de supraconsciência), explosões de choro, impulsos de dança – uma mensurável resposta física à arte. Para nós, a ligação entre poesia e corpo morreu junto com a época dos bardos – lemos sob influência de um gás anestesiante cartesiano.
No norte da Índia, mesmo a recitação não-musical provoca barulho e movimento, todo bom verso é aplaudido, ”Wa! Wa!” com elegantes movimentos de mãos, e rúpias são lançadas – enquanto nós ouvimos poesia como um daqueles cérebros de ficção científica em um vidro – na melhor das hipóteses, um sorriso amarelo ou uma careta, vestígios dos rituais símios – o resto do corpo longe, em algum outro planeta.
No Oriente, às vezes os poetas são presos – uma espécie de elogio, já que sugere que o autor fez algo tão real quanto um roubo, um estupro ou uma revolução. Aqui, os poetas podem publicar qualquer coisa que quiserem – o que em si mesmo é uma espécie de punição, uma prisão em paredes, sem eco, sem existência palpável – reino de sombras do mundo impresso, ou do pensamento abstrato – um mundo sem risco ou eros.
A poesia está morta novamente – e mesmo que a múmia do seu cadáver possua ainda algumas de suas propriedades medicinais, a auto-ressureição não é uma delas.
Se os legisladores se recusam a considerar poemas como crimes, então alguém precisa cometer os crimes que funcionem como poesia, ou textos que possuam a ressonância do terrorismo. Reconectar a poesia ao corpo a qualquer preço. Não crimes contra o corpo, mas contra Idéias (e Idéias-dentro-das-coisas) que sejam letais e asfixiantes. Não libertinagem estúpida, mas crimes exemplares, estéticos, crimes por amor. Na Inglaterra, alguns livros pornográficos ainda estão banidos. A pornografia produz um efeito físico mensurável em seus leitores. Como propaganda, ela às vezes muda vidas por revelar desejos secretos.
Nossa cultura gera a maior parte de sua pornografia motivada pelo ódio ao corpo –
mas, como em certas obras orientais, a arte erótica em si mesma cria um veículo elevado para o aprimoramento do ser/consciência/glória. Um espécie de pornô tântrico ocidental poderia ajudar a galvanizar os cadáveres, fazê-los brilhar com uma pitada de glamour do crime.
Os Estados Unidos oferecem liberdade de expressão porque todas as palavras são consideradas igualmente insípidas. Apenas as imagens contam – os censores amam cenas de morte e mutilação, mas horrorizam-se diante de uma criança se masturbando – para eles, aparentemente, isso é uma invasão de seu fundamento existencial, sua identificação com o Império e seus gestos mais sutis.
Sem dúvida, nem mesmo o pornô mais poético faria o cadáver sem rosto reviver,
dançar e cantar (como o pássaro do Caos chinês) – mas... imagine o roteiro de um filme de três minutos ambientados numa ilha mítica povoada por crianças fugitivas que moram nas ruínas de antigos castelos ou em cabanas-totens e ninhos construídos com detritos – uma mistura de animação, efeitos especiais, computação gráfica e vídeo – editado de forma compacta, como um comercial de fast-food...
... mas insólito e nu, penas e ossos, tendas abotoadas com cristais, cachorros negros, sangue de pombos – vislumbres de membros cor de ˆambar enrolados em lençóis – rostos, cobertos por máscaras cheias de estrelas, beijando dobras macias de pele – piratas andróginos, faces abandonadas de colombinas dormindo em altas flores brancas – piadas sujas de se mijar de tanto rir, lagartos de estimação lambendo leite derramado – pessoas nuas dançando break – banheiras vitorianas com patos de borracha e pintos cor-de-rosa – Alice viajando no pó...
... punk reggae atonal para gamelão, sintetizadores, saxofones e baterias – boogies elétricos cantados por um etéreo coro de crianças – antológicas canções anarquistas, um misto de Hafez & Pancho Villa, Li Po & Bakunin, Kabir & Tzara – chame-o de ”CHAOS – The Rock Video!”
Não... provavelmente é só um sonho. Muito caro para produzir e, além disso, quem o assistiria? Não as crianças a quem ele gostaria de seduzir. A TV pirata é uma fantasia fútil; o rock, outra mera mercadoria – esqueça o malandro gesamtkunstwerk, então. Inunde um playground com obscenos folhetos inflamatórios – propaganda pornô, excêntricos manuscritos clandestinos para libertar o Desejo dos seus grilhões.
Friday, May 18, 2007
Comunicado #7
Paleolitismo Psíquico & Alta Tecnologia
Só porque a AAO (Associação para a Anarquia Ontológica) fala de "paleolitismo" o tempo todo, não fique com a impressão de que queremos nos mandar de volta à Idade da Pedra.
Não temos o menor interesse em "voltar à terra natal", se o pacote de viagem incluir a entediante vida de camponês chutador-de-bosta - nem queremos o "tribalismo", se ele vier com tabus, fetiches & má-alimentação. Não temos nada contra o conceito de cultura - incluindo a tecnologia; para nós, o problema começa com a civilização.
O que gostamos da vida no Paleolítico foi resumido pela escola de antropologia dos povos sem autoridade: a elegante preguiça da sociedade do caçador/coletor, o trabalho de duas horas por dia, a obsessão pela arte, dança, poesia & afetividade, a "democratização do xamanismo", a cultivação da percepção - em suma, a cultura.
O que nós detestamos na civilização pode ser deduzido da seguinte progressão: a "revolução agrícola"; a emergência das castas; a cidade e seu culto do controle hierático ("Babilônia"); escravidão; dogma; imperialismo ("Roma"). A supressão da sexualidade no "trabalho" sob a égide da "autoridade". "O Império nunca terminou."
Um paleolitismo psíquico, baseado na Alta Tecnologia - pós-agrícola, pós-industrial, "Trabalho-Zero", nômade (ou "Cosmopolita Desenraizado") - uma Sociedade de Paradigma do Quantum - essa constitui uma visão ideal do futuro segundo a Teoria do Caos e a "futurologia" (no sentido que Robert Anton Wilson e T. Leary dão para o termo).
Quanto ao presente: rejeitamos todo tipo de colaboração com a civilização da Anorexia & da Bulimia, com pessoas tão envergonhadas de nunca terem sofrido que inventam máscaras penitentes para si mesmas & para os outros - ou aqueles que empanturram-se sem compaixão & depois despejam o vômito de sua culpa suprimida em grandes acessos masoquistas de exercícios & dietas. Todos os nossos prazeres & autodisciplina nos pertencem por natureza - nunca nos negamos, nunca desistimos de nada; mas algumas coisas desistiram de nós e nos deixaram, porque somos muito grandes para elas. Sou ao mesmo tempo o homem da caverna, o mutante das estrelas, o seu conterrâneo & o príncipe livre. Uma vez um chefe indígena foi convidado para um banquete na Casa Branca. À medida que a comida era servida, o chefe encheu seu prato ao máximo possível, não apenas uma, mas três vezes. Enfim, o branquelo sentado ao seu lado disse: "Chefe, he, he, he, você não acha que é um pouco demais?" "Uh", disse o chefe, "um pouco demais é perfeito para o Chefe!"
No entanto, certas doutrinas da "futurologia" continuam problemáticas. Por exemplo, mesmo que aceitemos o potencial libertador das novas tecnologias como a TV, os computadores, a robótica, a exploração espacial etc., ainda percebemos uma grande distância entre potencial e realidade. A banalização da TV, a burguesificação dos computadores & a militarização do espaço sugerem que essas tecnologias, por si só, não oferecem qualquer garantia "específica" para seu uso libertário.
Mesmo se rejeitarmos o holocausto nuclear como apenas mais uma diversão espetacular orquestrada para distrair nossa atenção dos problemas reais, devemos admitir que a "Inevitável Destruição Mútua" & a "Guerra Pura" tendem a diminuir nosso entusiasmo por alguns aspectos da aventura da Alta Tecnologia.
A Anarquia Ontológica mantém sua afeição pelo luditismo como tática: se uma dada tecnologia, não importa o quão admirável em termos de potencial (no futuro), é usada para oprimir-me aqui & agora, então eu devo ou empunhar a arma da sabotagem, ou dominar os meios de produção (ou, talvez mais importante, os meios de comunicação). Não há humanidade sem téchne - mas não há téchne mais valiosa do que minha humanidade.
Desprezamos o anarquismo panaca e antitecnológico - pelo menos, para nós (há aqueles que dizem que gostam da vida do campo) - e rejeitamos também o conceito de uma fixação tecnológica. Para nós, todas as formas de determinismo são igualmente insípidas - não somos escravos nem de nossos genes nem de nossas máquinas. O que é "natural" é aquilo que imaginamos & criamos. "A Natureza não tem leis - apenas hábitos."
Para nós, a vida não pertence nem ao passado - a terra dos famosos fantasmas amontoando seus bens maculados pela cova - nem ao futuro, cujos cidadãos mutantes com cérebro em forma de bulbo guardam com zelo os segredos da imortalidade, do vôo mais rápido que a velocidade da luz, dos genes desenhados artificialmente & do encolhimento do Estado.
Aut nunc aut nihil. Todo momento contém uma eternidade a ser penetrada - no entanto, nos perdemos em visões assimiladas através dos olhos de cadáveres, ou na nostalgia por uma perfeição ainda não-nascida.
As realizações dos meus ancestrais & descendentes não são, para mim, nada mais do que um conto instrutivo e interessante - eu jamais os verei como superiores, mesmo para desculpar minha própria pequenez. Mandarei imprimir para mim mesmo uma licença para roubar deles tudo o que eu quiser - paleolitismo psíquico ou alta-tecnologia - ou, que seja, os belos detritos da própria civilização, os segredos dos Mestres Ocultos, os prazeres da nobreza frívola & la vie boheme.
La decadance. Pelo contrário, Nietzsche, não obstante, possui um papel tão profundo na Anarquia Ontológica quanto a saúde - cada um toma o que quiser do outro. Estetas decadentes não travam guerras estúpidas nem submergem sua consciência no ressentimento & na ganância microcefálicos. Eles buscam aventura na inovação artística & na sexualidade não-ordinária, ao invés de buscá-la na desgraça alheia. A AAO admira & emula sua indolência, seu desdém pela estupidez e normalidade, sua expropriação das sensibilidades aristocráticas. Para nós, essas qualidades harmonizam-se paradoxalmente com aquelas da Idade da Pedra & sua abundante saúde, ignorância de qualquer hierarquia, cultivo da virtu ao invés da Lei. Exigimos decadência sem doença, & saúde sem tédio!
Assim, a AAO oferece apoio incondicional para todos os povos nativos & tribais em sua luta por completa autonomia - &, ao mesmo tempo, para todas as especulações e exigências mais doidas e fora da realidade dos futurologistas. O paleolitismo do futuro (que, para nós, mutantes, já existe) será alcançado em grande escala apenas através de uma massiva tecnologia da Imaginação, e de um paradigma científico que vá além da mecânica quântica, para o reino da Teoria do Caos & das alucinações da ficção especulativa.
Como cosmopolitas desenraizados, reivindicamos todas as belezas do passado, do oriente, das sociedades tribais - tudo isso deve & pode ser nosso, mesmo os tesouros do Império: nosso para compartilharmos. E, ao mesmo tempo, exigimos uma tecnologia que transcenda a agricultura, a indústria, a simultaneidade da eletricidade, um hardware que faça a interseção com o aparelho vivo da consciência, que abrace o poder dos quarks, das partículas viajando no tempo, do quasares & dos universos paralelos.
Cada ideólogo enfurecido do anarquismo & do libertarismo prescreve alguma utopia análoga aos vários tipos de visão que têm, da comuna camponesa à cidade espacial. Nós dizemos, deixemos que um milhão de flores se abram - sem nenhum jardineiro para arrancar ervas daninhas & proibir brincadeiras de acordo com algum esquema moralizante ou eugenista. O único conflito verdadeiro é entre a autoridade do tirano & a autoridade do ser realizado - todo o resto é ilusão, projeção psicológica, verborragia.
Num certo sentido, os filhos e filhas de Gaia nunca deixaram o paleolítico; noutro, todas as perfeições do futuro já são nossas. Apenas a insurreição "resolverá" esse paradoxo - apenas o levante contra a falsa consciência tanto em nós mesmos quanto nos outros vai varrer a tecnologia da opressão & a pobreza do Espetáculo. Nessa batalha, uma máscara pintada ou o chocalho de um xamã podem vir a ser vitais para a captura de um satélite de comunicações ou de uma rede secreta de computadores.
Nosso único critério de julgar uma arma ou uma ferramenta é sua beleza. Os meios já são os fins, de certo modo, a insurreição já é nossa aventura; Tornar-se É Ser. Passado & futuro existem dentro de nós & para nós, alfa & ômega. Não existem outros deuses antes ou depois de nós. Estamos livres no TEMPO - e estaremos livres no ESPAÇO também.
(Nossos agradecimentos a Hagbard Celine, o sábio de Howth & redondezas.)
Só porque a AAO (Associação para a Anarquia Ontológica) fala de "paleolitismo" o tempo todo, não fique com a impressão de que queremos nos mandar de volta à Idade da Pedra.
Não temos o menor interesse em "voltar à terra natal", se o pacote de viagem incluir a entediante vida de camponês chutador-de-bosta - nem queremos o "tribalismo", se ele vier com tabus, fetiches & má-alimentação. Não temos nada contra o conceito de cultura - incluindo a tecnologia; para nós, o problema começa com a civilização.
O que gostamos da vida no Paleolítico foi resumido pela escola de antropologia dos povos sem autoridade: a elegante preguiça da sociedade do caçador/coletor, o trabalho de duas horas por dia, a obsessão pela arte, dança, poesia & afetividade, a "democratização do xamanismo", a cultivação da percepção - em suma, a cultura.
O que nós detestamos na civilização pode ser deduzido da seguinte progressão: a "revolução agrícola"; a emergência das castas; a cidade e seu culto do controle hierático ("Babilônia"); escravidão; dogma; imperialismo ("Roma"). A supressão da sexualidade no "trabalho" sob a égide da "autoridade". "O Império nunca terminou."
Um paleolitismo psíquico, baseado na Alta Tecnologia - pós-agrícola, pós-industrial, "Trabalho-Zero", nômade (ou "Cosmopolita Desenraizado") - uma Sociedade de Paradigma do Quantum - essa constitui uma visão ideal do futuro segundo a Teoria do Caos e a "futurologia" (no sentido que Robert Anton Wilson e T. Leary dão para o termo).
Quanto ao presente: rejeitamos todo tipo de colaboração com a civilização da Anorexia & da Bulimia, com pessoas tão envergonhadas de nunca terem sofrido que inventam máscaras penitentes para si mesmas & para os outros - ou aqueles que empanturram-se sem compaixão & depois despejam o vômito de sua culpa suprimida em grandes acessos masoquistas de exercícios & dietas. Todos os nossos prazeres & autodisciplina nos pertencem por natureza - nunca nos negamos, nunca desistimos de nada; mas algumas coisas desistiram de nós e nos deixaram, porque somos muito grandes para elas. Sou ao mesmo tempo o homem da caverna, o mutante das estrelas, o seu conterrâneo & o príncipe livre. Uma vez um chefe indígena foi convidado para um banquete na Casa Branca. À medida que a comida era servida, o chefe encheu seu prato ao máximo possível, não apenas uma, mas três vezes. Enfim, o branquelo sentado ao seu lado disse: "Chefe, he, he, he, você não acha que é um pouco demais?" "Uh", disse o chefe, "um pouco demais é perfeito para o Chefe!"
No entanto, certas doutrinas da "futurologia" continuam problemáticas. Por exemplo, mesmo que aceitemos o potencial libertador das novas tecnologias como a TV, os computadores, a robótica, a exploração espacial etc., ainda percebemos uma grande distância entre potencial e realidade. A banalização da TV, a burguesificação dos computadores & a militarização do espaço sugerem que essas tecnologias, por si só, não oferecem qualquer garantia "específica" para seu uso libertário.
Mesmo se rejeitarmos o holocausto nuclear como apenas mais uma diversão espetacular orquestrada para distrair nossa atenção dos problemas reais, devemos admitir que a "Inevitável Destruição Mútua" & a "Guerra Pura" tendem a diminuir nosso entusiasmo por alguns aspectos da aventura da Alta Tecnologia.
A Anarquia Ontológica mantém sua afeição pelo luditismo como tática: se uma dada tecnologia, não importa o quão admirável em termos de potencial (no futuro), é usada para oprimir-me aqui & agora, então eu devo ou empunhar a arma da sabotagem, ou dominar os meios de produção (ou, talvez mais importante, os meios de comunicação). Não há humanidade sem téchne - mas não há téchne mais valiosa do que minha humanidade.
Desprezamos o anarquismo panaca e antitecnológico - pelo menos, para nós (há aqueles que dizem que gostam da vida do campo) - e rejeitamos também o conceito de uma fixação tecnológica. Para nós, todas as formas de determinismo são igualmente insípidas - não somos escravos nem de nossos genes nem de nossas máquinas. O que é "natural" é aquilo que imaginamos & criamos. "A Natureza não tem leis - apenas hábitos."
Para nós, a vida não pertence nem ao passado - a terra dos famosos fantasmas amontoando seus bens maculados pela cova - nem ao futuro, cujos cidadãos mutantes com cérebro em forma de bulbo guardam com zelo os segredos da imortalidade, do vôo mais rápido que a velocidade da luz, dos genes desenhados artificialmente & do encolhimento do Estado.
Aut nunc aut nihil. Todo momento contém uma eternidade a ser penetrada - no entanto, nos perdemos em visões assimiladas através dos olhos de cadáveres, ou na nostalgia por uma perfeição ainda não-nascida.
As realizações dos meus ancestrais & descendentes não são, para mim, nada mais do que um conto instrutivo e interessante - eu jamais os verei como superiores, mesmo para desculpar minha própria pequenez. Mandarei imprimir para mim mesmo uma licença para roubar deles tudo o que eu quiser - paleolitismo psíquico ou alta-tecnologia - ou, que seja, os belos detritos da própria civilização, os segredos dos Mestres Ocultos, os prazeres da nobreza frívola & la vie boheme.
La decadance. Pelo contrário, Nietzsche, não obstante, possui um papel tão profundo na Anarquia Ontológica quanto a saúde - cada um toma o que quiser do outro. Estetas decadentes não travam guerras estúpidas nem submergem sua consciência no ressentimento & na ganância microcefálicos. Eles buscam aventura na inovação artística & na sexualidade não-ordinária, ao invés de buscá-la na desgraça alheia. A AAO admira & emula sua indolência, seu desdém pela estupidez e normalidade, sua expropriação das sensibilidades aristocráticas. Para nós, essas qualidades harmonizam-se paradoxalmente com aquelas da Idade da Pedra & sua abundante saúde, ignorância de qualquer hierarquia, cultivo da virtu ao invés da Lei. Exigimos decadência sem doença, & saúde sem tédio!
Assim, a AAO oferece apoio incondicional para todos os povos nativos & tribais em sua luta por completa autonomia - &, ao mesmo tempo, para todas as especulações e exigências mais doidas e fora da realidade dos futurologistas. O paleolitismo do futuro (que, para nós, mutantes, já existe) será alcançado em grande escala apenas através de uma massiva tecnologia da Imaginação, e de um paradigma científico que vá além da mecânica quântica, para o reino da Teoria do Caos & das alucinações da ficção especulativa.
Como cosmopolitas desenraizados, reivindicamos todas as belezas do passado, do oriente, das sociedades tribais - tudo isso deve & pode ser nosso, mesmo os tesouros do Império: nosso para compartilharmos. E, ao mesmo tempo, exigimos uma tecnologia que transcenda a agricultura, a indústria, a simultaneidade da eletricidade, um hardware que faça a interseção com o aparelho vivo da consciência, que abrace o poder dos quarks, das partículas viajando no tempo, do quasares & dos universos paralelos.
Cada ideólogo enfurecido do anarquismo & do libertarismo prescreve alguma utopia análoga aos vários tipos de visão que têm, da comuna camponesa à cidade espacial. Nós dizemos, deixemos que um milhão de flores se abram - sem nenhum jardineiro para arrancar ervas daninhas & proibir brincadeiras de acordo com algum esquema moralizante ou eugenista. O único conflito verdadeiro é entre a autoridade do tirano & a autoridade do ser realizado - todo o resto é ilusão, projeção psicológica, verborragia.
Num certo sentido, os filhos e filhas de Gaia nunca deixaram o paleolítico; noutro, todas as perfeições do futuro já são nossas. Apenas a insurreição "resolverá" esse paradoxo - apenas o levante contra a falsa consciência tanto em nós mesmos quanto nos outros vai varrer a tecnologia da opressão & a pobreza do Espetáculo. Nessa batalha, uma máscara pintada ou o chocalho de um xamã podem vir a ser vitais para a captura de um satélite de comunicações ou de uma rede secreta de computadores.
Nosso único critério de julgar uma arma ou uma ferramenta é sua beleza. Os meios já são os fins, de certo modo, a insurreição já é nossa aventura; Tornar-se É Ser. Passado & futuro existem dentro de nós & para nós, alfa & ômega. Não existem outros deuses antes ou depois de nós. Estamos livres no TEMPO - e estaremos livres no ESPAÇO também.
(Nossos agradecimentos a Hagbard Celine, o sábio de Howth & redondezas.)
Tuesday, December 12, 2006
Sedução dos Zumbis Cibernéticos
(Para Konrad e Marie)
Para começar, ajudaria se pudéssemos falar sobre redes no lugar de A Rede (net). Apenas os mais extrópicos crentes nA Net ainda sonham com ela como solução final. Pensadores mais realistas rejeitaram a cyber-soteriologia, mas aceitam a Rede como ferramenta (ou arma) viável. Eles concordariam que outras redes devem ser configuradas e mantidas simultaneamente com "a" Rede - de outra maneira, ela se torna apenas outro meio de alienação, mais envolvente que a TV, talvez, mas de qualquer maneira mais total em sua hipnose.
As outras redes obviamente incluem - primeira e principalmente - padrões de convívio e comunicatividade. Empresto este termo da frenologia do século XIX - aparentemente existe um calombo de comunicatividade em algum lugar no crânio - mas eu o uso para significar algo como o "diálogo" de Bakhtin transposto para o registro do social; onde o convívio implica presença física, a comunicatividade pode também incluir outras mídias. Mas - como o hermetismo nos ensina - o ato positivo do significado comunicativo, seja cara-a-cara (mesmo que sem fala), ou mediado simbolicamente (por texto, imagem, etc.), é sempre confrontado por sua negatividade. Nem toda a "comunicação" comunica, mapa não é território, e assim vai. "Programas interativos" não têm o menor sentido entre seres vivos, mas, de fato, nenhum meio é privilegiado ou completamente aberto. Como Blake poderia dizer, cada meio tem a sua forma e o seu espectro.
O que precisamos, então, é uma "análise espectral" Blakeana da Net. Uma "análise Fourierista" também poderia ser útil (não Fourier o matemático, mas Fourier o Socialista Utópico). Mas estes filósofos eram verdadeiros hermeticistas, enquanto nós podemos apenas colar alguns cacos sobre o que quer que seja.
A questão implícita: - a Net vai além do propósito de comunicatividade, e pode ser usada como ferramenta para "maximizar o potencial para emergir" de situações de convívio? Ou existe um "efeito contraproducente paradoxal" (como Ilich diria)? Em outras palavras: a sociologia das instituições (e.g. educação, medicina) chega à rigidez monopolística e começa a produzir o oposto do efeito pretendido (a educação estupidifica, a medicina faz adoecer). A mídia também pode ser analisada desta maneira. A mídia de massa, considerada como entidade paradoxal, se aproximou de um limite de enclausuramento total pela imagem - uma crise da estase da imagem - e de completo desaparecimento da comunicatividade. O que se considerava que tornava a Net tão singular eram os seus padrões "de-muitos-para-muitos", tendo como implicação a possibilidade de uma democracia popular eletrônica. A Net é uma instituição, pelo menos no sentido lato da palavra. Ela serve ao seu propósito "original", ou há um efeito contraproducente paradoxal?
Outro padrão original dentro da Net é a sua descentralidade (sua herança "militar"); isto lançou a Net numa espécie de guerra com os governos. A Net "cruza fronteiras" como um vírus. Mas nisto a Net partilha certas qualidades com, digamos, as corporações transnacionais ("zaibatsus") - e com o próprio Capital nômade. O "nomadismo" tem sua própria forma e espectro. Como a Nação Islâmica dos Cinco Porcento coloca, "nem todo irmão é um irmão". A molecularidade é uma tática que pode ser usada contra e a favor da nossa autonomia. Estar informado compensa. E podemos ter certeza que a Inteligência Global paga bem por sua informação; - certamente a Net já está completamente penetrada pela vigilância... cada bit de um email é um cartão postal para Deus.
Os nossos exemplos favoritos do uso imaginativo e insurreicionário da Net - o Caso McCalúnia, o Caso da Cientologia, e acima de tudo os Zapatistas - provam que a estrutura descentralizada de muitos-para-muitos tem potencial de verdade [o McDonalds ganhou a batalha mas parece estar perdendo a guerra - as franquias caíram em 50%!]. Ludditas que negam isto simplesmente estão se fazendo parecer desinformados - e muito mal dispostos na direção das boas causas. Os Ludditas originais não eram quebradores de máquina indiscriminados - eles tencionavam defender seus teares manuais e o trabalho em casa contra a mecanização e centralização nas fábricas. Tudo depende da situação, e a tecnologia é apenas um fator numa situação complexa e superestimada. Exatamente o que é que precisa ser esmagado?
O Capital Global abraça abertamente a Net por que a Net parece ter a mesma estrutura do Capital Global. Ele anuncia a Net como O Futuro Agora, e protege os cidadãos virtuais desses governos velhos e maus. Afinal, a Net é mesmo o paradigma de um Mercado Livre, não? O sonho de um Libertário. Mas secretamente o Capital Global [perdoem pela falácia patética - puxa, eu não consigo parar de reificar o Capital...]... secretamente, o Capital Global deve estar doente de preocupação. Bilhões de dólares de investimento foram tragados pela Net, mas a Net parece agir como um astro eclipsado: - há um efeito de penumbra, mas o planeta está negro. Talvez um buraco negro. Afinal, Hawking provou que mesmo buracos negros produzem uma quantidade mínima de energia - alguns milhões de pratas, talvez. Mas essencialmente não há dinheiro circulando na Net, nem dinheiro saindo dela. Parece que a Net pode agir metaforicamente como uma "feira livre" até certo ponto (possivelmente bem mais do que já age) - mas falhou em se desenvolver como um Grande Mercado. A WWW não parece estar ajudando muito neste ponto. A "Realidade Virtual" começa a se parecer com mais um futuro perdido. IntraNets, transmissão personalizada de dados e "televisão interativa" são as estratégias propostas pelos Zaibatsus para colonizar o que resta da Net. O e-cash não parece estar dando conta.
Enquanto isso, a Net toma o aspecto não apenas de uma feira livre sem corpo, mas também de uma favela psíquica. Avatares predatórios - desinformacionistas - dados sobre trabalho escravo nas prisões americanas - cyber-estupro (violação do corpo de dados) - vigilância invisível - ondas de pânico (Pedofilia, Nazistas-na-Net, etc) - invasões massivas de privacidade - propaganda - todo tipo de poluição psíquica. Sem mencionar a possibilidade de lavagem cerebral biônica, sídrome do túnel carpal, e a sinistra presença em cinza e verde das próprias máquinas, como nos cenários dos velhos filmes de ficcção científica (o futuro como design pobre).
De fato, como Gibson previu, a Net já está virtualmente assombrada. Cemitérios na web para cyber-mascotes mortos - obituários falsos - Tim Leary ainda mandando mensagens pessoais - mestres ascensos do "Heaven's Gate" - sem mencionar a já vasta arqueologia da própria Net, os níveis da Arpa, velhas BBSs, linguagens esquecidas, páginas da web abandonadas. De fato, como alguém disse na última conferência da NETTIME em Liubliana, a Net já se tornou um tipo de ruína romântica. E aqui, no nível mais "espectral" da nossa análise, repentinamente a Net começa a parecer... interessante de novo. Uma pitada de horror gótico. A sedução dos Zumbis Cibernéticos. Fin-de-millenium, flores de estufa, láudano.
Enfim.
Vivemos num país em que 1% da população controla metade do dinheiro - num mundo onde menos que 400 pessoas controlam metade do dinheiro - onde 94.2% de todo o dinheiro se refere apenas a dinheiro, não a produção de qualquer tipo (exceto de dinheiro); - um país com a maior população carcerária per capita do mundo, onde "segurança" é a única indústria que cresce (fora a do entretenimento), onde uma insana guerra às drogas e ao meio-ambiente é concebida como a última função válida do governo; - um mundo de ecocídio, agrobusiness, desflorestamento, assassinato de populações indígenas, bioengenharia, trabalho forçado - um mundo construído na afirmação de que o lucro máximo para 500 empresas é o melhor plano para toda a humanidade - um mundo em que a imagem total absorveu e sufocou as vozes e mentes de cada falante - em que a imagem da troca tomou o lugar de todas as relações humanas.
Em vez de resmungar clichês liberais sobre tudo isto - ou levantar a perturbadora questão da "ética" - permita-me simplesmente comentar como um anarquista Stirneriano (um ponto de vista que ainda acho útil depois de todos estes anos): - presumindo que o mundo seja a minha ostra, eu estou em guerra pessoal contra todos os "fatos" acima, por que eles violam os meus desejos e impedem os meus prazeres. Portanto, procuro aliança como outros indivíduos (numa "união de independentes") que partilham de minhas metas. Para os Stirnerianos de esquerda, a tática favorita sempre foi a Greve Geral (o mito Soreliano). Em resposta ao Capital Global nós precisamos de uma nova versão deste mito que possa incluir estruturas sindicalistas mas não se limitar a elas. O velho inimigo dos anarquistas sempre foi o Estado. Ainda temos o Estado para nos preocupar (seguranças no Shopping universal), mas claramente os inimigos reais são os zaibatsus e bancos (o maior erro na história revolucionária foi a falha em dominar o Banco em Paris, 1871). Num futuro muito próximo haverá uma guerra contra a estrutura OMC/FMI/GATT do Capital Global - uma guerra de desespero claro, alimentada por um mundo de indivíduos e grupos orgânicos contra as corporações e "o poder do dinheiro" (i.e., o próprio dinheiro). De preferência uma guerra pacífica, como uma grande Greve Geral - mas realisticamente cada um deve se preparar para o pior. E o que precisamos saber é, o que a InterNet pode fazer por nós?
Obviamente uma boa revolta precisa de bons sistemas de comunicação. Neste momento no entanto eu preferiria transmitir meus segredos conspiratórios (se eu tivesse algum) pelos Correios em vez da Net. Uma conspiração realmente bem-sucedida não deixa rastro em papel, como a Revolução Líbia de 1969 (mas na época, os grampos telefônicos ainda eram bastante primitivos). Mais do que isto, como poderíamos ter certeza que o que vimos na Net era informação e não desinformação? Especialmente se nossa organização existe apenas na Net? Falando como Stirnerita, eu não quero banir assombrações da minha cabeça apenas para encontrá-las de novo na tela. Luta de rua virtual, ruínas virtuais. Não parece uma proposição vantajosa.
Mais perturbador para nós seria a qualidade "gnóstica" da Net, sua tendência à exclusão do corpo, sua promessa de transcendência tecnológica da carne. Mesmo que algumas pessoas tenham "se conhecido pela Net", o movimento geral é rumo à atomização - "caído sozinho em frente à tela". O "movimento" hoje presta muita atenção à mídia em geral por que o poder virtualmente nos iludiu - e dentro do speculum da Net o seu reflexo zomba de nós. A Net como substituto ao convívio e à comunicatividade. A Net como uma má religião. Parte do transe midiático. A comoditização da diferença.
À parte a crítica da Net do ponto de vista da Soberania Individual, nós poderíamos também lançar uma análise de uma posição Fourierista. Aqui no lugar de indivíduos nós consideraríamos a "série", o grupo básico Passional sem o qual cada ser humano permanece incompleto - e o Falanstério, ou Série completa de Séries (mínimo de 1620 membros). Mas a meta permanece a mesma: - o agrupamento ocorre para maximizar os prazeres ou o "luxo" para os membros do grupo, Paixão sendo a única força viável de coesão social (de fato, nesta base nós poderíamos considerar uma "síntese" de Stirner e Fourier, na aparência polarmente opostos). Para Fourier, a Paixão é por definição incorporada; todo o "networking" é mantido via presença física (apesar dele permitir pombos-correio para comunicação entre Falanstérios). Como um místico dos números, Fourier bem que poderia gostar do computador - na verdade ele inventou o "namoro por computador", de certa maneira - mas ele provavelmente desaprovaria qualquer tecnologia que envolvesse a separação física (eu creio que foi Balzac quem disse que para Fourier o único pecado era almoçar sozinho). Convívio no sentido mais literal - idealmente, a orgia. "Atração Passional" funciona por que cada um tem Paixões diferentes: a diferença já é "luxo". O corpo de dados, o corpo na tela, é apenas metaforicamente um corpo. O espaço entre nós - o "medium" - deve ser preenchido com Raios Aromais, zodíacos de luz brilhante (novas cores!), profusões de frutas e flores, os aromas da cozinha gastrosófica - e finalmente o espaço deve ser fechado, curado.
Outra crítica da Net poderia ser feita de uma perspectiva Proudhoniana (Proudhon foi influenciado por Fourier, apesar de fingir que não foi. Ambos eram de Bezançon, como Victor Hugo). Proudhon era mais "progressivo" quanto a tecnologia do que nossos outros exemplos, e seria interessante ver que tipo de papel ele teria para a Net em seu futuro ideal de Mutualismo e anarco-federação. Para ele "governo" era meramente uma questão de administração da produção e troca. Os computadores poderiam se provar como ferramentas úteis sob estas condições. Mas proudhon assim como Marx sem dúvida modificariam sua visão otimista da tecnologia se fossem consultados hoje da sua opinião: - a máquina como poluição social, a própria tecnologia (e por implicação o Trabalho) como alienação. Este argumento foi obviamente feito por Marxistas libertários, anarquistas Verdes, etc. - descendentes legítimos de Marx e Proudhon, como Marcuse ou Ilich. Não seria justo considerar a InterNet (nem a bioengenharia) fora desta crítica da tecnologia. O trabalho de Benjamin, Debord e até Baudrillard (até qele ter caído exausto) torna claro que a imagem total - "a mídia" - tem um papel central nesta crítica. Proudhon questionaria a Net quanto a justiça, e quanto a presença.
Mas eu preferiria focar mais estritamente na questão da imagem. Aqui nós poderíamos retornar a Blake como nosso "martelo filosófico" (Nietzsche queria realmente dar a entender uma espécie de diapasão), uma vez que estamos falando do ídolo, da imagem. Eu argumentaria que estamos sofrendo uma crise de superprodução da imagem. Nós estamos, como Giordano Bruno colocou, "acorrentados", hipnotizados pela imagem. Em tal caso nós precisamos ou de uma dose saudável de iconoclastia, ou então (ou também) um tipo mais sutil de senso crítico hermético, uma liberação da imagem pela imagem. Na verdade, Blake nos supriu com ambos - ele era tanto um esmagador-de-ídolos quanto simultaneamente um hermetista que usava imagens para a libertação, tanto política quanto espiritual. Hermetistas entendem que o "hieróglifo", a imagem/texto ou comunicação mediada (simbólica), tem um efeito "mágico", ultrapassando a consciência racional linear e influenciando profundamente a psiquê. É por isso que Blake dizia que uma pessoa deve fazer seu próprio sistema ou então ser escravo do sistema de outros. A autonomia da imaginação é um alto valor para o hermetismo - e a crítica da imagem é a defesa da imaginação. A tela é um aspecto da imagem que não pode escapar desta "análise espectral" - a mídia como "moedores satãnicos".
Parece que não há mesmo como fugir da tecnologia ou da alienação. A própria techné é prótese da consciência, e portanto inseparável da condição humana (linguagem inclusa aqui como techné). A Tecnologia como a fusão óbvia de techné e linguagem (a ratio ou "razão" da techné) tem sido simplesmente uma categoria da existência humana desde pelo menos o Paleolítico. Mas - podemos perguntar até que ponto o próprio coração foi substituído por um órgão artificial? Até que ponto uma determinada tecnologia "surta" e começa a produzir uma contraprodutividade paradoxal? Se pudéssemos alcançar um consenso nisto, ainda existiria motivo para falar de determinismo tecnológico, ou o maquinismo como destino? Neste sentido, os velhos Ludditas merecem alguma consideração. A techné deve servir ao ser humano, não definir o ser humano.
Precisamos (aparentemente) aceitar a inevitabilidade da consciência, mas apenas na condição de que não será a mesma consciência. Suspeitamos que a consciência racional, maquínica, linear, aufklaerung, universal governou em muito tempo numa tirania - ou "monopólio. Não há nada de errado com a razão (na verdade nós poderíamos usar bem mais dela) mas o racionalismo parece uma ideologia fora de moda. A razão deve dividir o espaço com outras formas de consciência: consciência psicotrópica, ou consciência xamânica (que não tem nada a ver com "religião" como é usualmente definida) - bioconsciência, o discernimento sistêmico do ideal hermético da terra viva - consciência étnica ou cultural, modos diferentes de ver - povos indígenas - ou os Celtas - ou o Islã - consciências de "identidade" de todos os tipos - e consciências de trans-identidade. Uma variedade de consciências parece ser o único campo possível para a nossa ética.
Então, e quanto a consciência da InterNet? Ela tem seus aspectos não-lineares, não tem? Se pode existir uma "racionalidade do maravilhoso", não há um lugar para a Net no banquete?
No fim nós devemos nos contentar com a ambiguidade. Uma resposta "pura" é impossível aqui - iria feder a ideologia. Sim e não.
Mas - "Entre o Sim e o Não, estrelas caem do céu e cabeças voam do pescoço", como o grande sufi Shayk Ibn Arabi disse ao filósofo Aristotélico Averöes.
Uma imagem adequada para uma ruína romântica...
Hakim Bey
NYC
18 de agosto, 1997
(Para Konrad e Marie)
Para começar, ajudaria se pudéssemos falar sobre redes no lugar de A Rede (net). Apenas os mais extrópicos crentes nA Net ainda sonham com ela como solução final. Pensadores mais realistas rejeitaram a cyber-soteriologia, mas aceitam a Rede como ferramenta (ou arma) viável. Eles concordariam que outras redes devem ser configuradas e mantidas simultaneamente com "a" Rede - de outra maneira, ela se torna apenas outro meio de alienação, mais envolvente que a TV, talvez, mas de qualquer maneira mais total em sua hipnose.
As outras redes obviamente incluem - primeira e principalmente - padrões de convívio e comunicatividade. Empresto este termo da frenologia do século XIX - aparentemente existe um calombo de comunicatividade em algum lugar no crânio - mas eu o uso para significar algo como o "diálogo" de Bakhtin transposto para o registro do social; onde o convívio implica presença física, a comunicatividade pode também incluir outras mídias. Mas - como o hermetismo nos ensina - o ato positivo do significado comunicativo, seja cara-a-cara (mesmo que sem fala), ou mediado simbolicamente (por texto, imagem, etc.), é sempre confrontado por sua negatividade. Nem toda a "comunicação" comunica, mapa não é território, e assim vai. "Programas interativos" não têm o menor sentido entre seres vivos, mas, de fato, nenhum meio é privilegiado ou completamente aberto. Como Blake poderia dizer, cada meio tem a sua forma e o seu espectro.
O que precisamos, então, é uma "análise espectral" Blakeana da Net. Uma "análise Fourierista" também poderia ser útil (não Fourier o matemático, mas Fourier o Socialista Utópico). Mas estes filósofos eram verdadeiros hermeticistas, enquanto nós podemos apenas colar alguns cacos sobre o que quer que seja.
A questão implícita: - a Net vai além do propósito de comunicatividade, e pode ser usada como ferramenta para "maximizar o potencial para emergir" de situações de convívio? Ou existe um "efeito contraproducente paradoxal" (como Ilich diria)? Em outras palavras: a sociologia das instituições (e.g. educação, medicina) chega à rigidez monopolística e começa a produzir o oposto do efeito pretendido (a educação estupidifica, a medicina faz adoecer). A mídia também pode ser analisada desta maneira. A mídia de massa, considerada como entidade paradoxal, se aproximou de um limite de enclausuramento total pela imagem - uma crise da estase da imagem - e de completo desaparecimento da comunicatividade. O que se considerava que tornava a Net tão singular eram os seus padrões "de-muitos-para-muitos", tendo como implicação a possibilidade de uma democracia popular eletrônica. A Net é uma instituição, pelo menos no sentido lato da palavra. Ela serve ao seu propósito "original", ou há um efeito contraproducente paradoxal?
Outro padrão original dentro da Net é a sua descentralidade (sua herança "militar"); isto lançou a Net numa espécie de guerra com os governos. A Net "cruza fronteiras" como um vírus. Mas nisto a Net partilha certas qualidades com, digamos, as corporações transnacionais ("zaibatsus") - e com o próprio Capital nômade. O "nomadismo" tem sua própria forma e espectro. Como a Nação Islâmica dos Cinco Porcento coloca, "nem todo irmão é um irmão". A molecularidade é uma tática que pode ser usada contra e a favor da nossa autonomia. Estar informado compensa. E podemos ter certeza que a Inteligência Global paga bem por sua informação; - certamente a Net já está completamente penetrada pela vigilância... cada bit de um email é um cartão postal para Deus.
Os nossos exemplos favoritos do uso imaginativo e insurreicionário da Net - o Caso McCalúnia, o Caso da Cientologia, e acima de tudo os Zapatistas - provam que a estrutura descentralizada de muitos-para-muitos tem potencial de verdade [o McDonalds ganhou a batalha mas parece estar perdendo a guerra - as franquias caíram em 50%!]. Ludditas que negam isto simplesmente estão se fazendo parecer desinformados - e muito mal dispostos na direção das boas causas. Os Ludditas originais não eram quebradores de máquina indiscriminados - eles tencionavam defender seus teares manuais e o trabalho em casa contra a mecanização e centralização nas fábricas. Tudo depende da situação, e a tecnologia é apenas um fator numa situação complexa e superestimada. Exatamente o que é que precisa ser esmagado?
O Capital Global abraça abertamente a Net por que a Net parece ter a mesma estrutura do Capital Global. Ele anuncia a Net como O Futuro Agora, e protege os cidadãos virtuais desses governos velhos e maus. Afinal, a Net é mesmo o paradigma de um Mercado Livre, não? O sonho de um Libertário. Mas secretamente o Capital Global [perdoem pela falácia patética - puxa, eu não consigo parar de reificar o Capital...]... secretamente, o Capital Global deve estar doente de preocupação. Bilhões de dólares de investimento foram tragados pela Net, mas a Net parece agir como um astro eclipsado: - há um efeito de penumbra, mas o planeta está negro. Talvez um buraco negro. Afinal, Hawking provou que mesmo buracos negros produzem uma quantidade mínima de energia - alguns milhões de pratas, talvez. Mas essencialmente não há dinheiro circulando na Net, nem dinheiro saindo dela. Parece que a Net pode agir metaforicamente como uma "feira livre" até certo ponto (possivelmente bem mais do que já age) - mas falhou em se desenvolver como um Grande Mercado. A WWW não parece estar ajudando muito neste ponto. A "Realidade Virtual" começa a se parecer com mais um futuro perdido. IntraNets, transmissão personalizada de dados e "televisão interativa" são as estratégias propostas pelos Zaibatsus para colonizar o que resta da Net. O e-cash não parece estar dando conta.
Enquanto isso, a Net toma o aspecto não apenas de uma feira livre sem corpo, mas também de uma favela psíquica. Avatares predatórios - desinformacionistas - dados sobre trabalho escravo nas prisões americanas - cyber-estupro (violação do corpo de dados) - vigilância invisível - ondas de pânico (Pedofilia, Nazistas-na-Net, etc) - invasões massivas de privacidade - propaganda - todo tipo de poluição psíquica. Sem mencionar a possibilidade de lavagem cerebral biônica, sídrome do túnel carpal, e a sinistra presença em cinza e verde das próprias máquinas, como nos cenários dos velhos filmes de ficcção científica (o futuro como design pobre).
De fato, como Gibson previu, a Net já está virtualmente assombrada. Cemitérios na web para cyber-mascotes mortos - obituários falsos - Tim Leary ainda mandando mensagens pessoais - mestres ascensos do "Heaven's Gate" - sem mencionar a já vasta arqueologia da própria Net, os níveis da Arpa, velhas BBSs, linguagens esquecidas, páginas da web abandonadas. De fato, como alguém disse na última conferência da NETTIME em Liubliana, a Net já se tornou um tipo de ruína romântica. E aqui, no nível mais "espectral" da nossa análise, repentinamente a Net começa a parecer... interessante de novo. Uma pitada de horror gótico. A sedução dos Zumbis Cibernéticos. Fin-de-millenium, flores de estufa, láudano.
Enfim.
Vivemos num país em que 1% da população controla metade do dinheiro - num mundo onde menos que 400 pessoas controlam metade do dinheiro - onde 94.2% de todo o dinheiro se refere apenas a dinheiro, não a produção de qualquer tipo (exceto de dinheiro); - um país com a maior população carcerária per capita do mundo, onde "segurança" é a única indústria que cresce (fora a do entretenimento), onde uma insana guerra às drogas e ao meio-ambiente é concebida como a última função válida do governo; - um mundo de ecocídio, agrobusiness, desflorestamento, assassinato de populações indígenas, bioengenharia, trabalho forçado - um mundo construído na afirmação de que o lucro máximo para 500 empresas é o melhor plano para toda a humanidade - um mundo em que a imagem total absorveu e sufocou as vozes e mentes de cada falante - em que a imagem da troca tomou o lugar de todas as relações humanas.
Em vez de resmungar clichês liberais sobre tudo isto - ou levantar a perturbadora questão da "ética" - permita-me simplesmente comentar como um anarquista Stirneriano (um ponto de vista que ainda acho útil depois de todos estes anos): - presumindo que o mundo seja a minha ostra, eu estou em guerra pessoal contra todos os "fatos" acima, por que eles violam os meus desejos e impedem os meus prazeres. Portanto, procuro aliança como outros indivíduos (numa "união de independentes") que partilham de minhas metas. Para os Stirnerianos de esquerda, a tática favorita sempre foi a Greve Geral (o mito Soreliano). Em resposta ao Capital Global nós precisamos de uma nova versão deste mito que possa incluir estruturas sindicalistas mas não se limitar a elas. O velho inimigo dos anarquistas sempre foi o Estado. Ainda temos o Estado para nos preocupar (seguranças no Shopping universal), mas claramente os inimigos reais são os zaibatsus e bancos (o maior erro na história revolucionária foi a falha em dominar o Banco em Paris, 1871). Num futuro muito próximo haverá uma guerra contra a estrutura OMC/FMI/GATT do Capital Global - uma guerra de desespero claro, alimentada por um mundo de indivíduos e grupos orgânicos contra as corporações e "o poder do dinheiro" (i.e., o próprio dinheiro). De preferência uma guerra pacífica, como uma grande Greve Geral - mas realisticamente cada um deve se preparar para o pior. E o que precisamos saber é, o que a InterNet pode fazer por nós?
Obviamente uma boa revolta precisa de bons sistemas de comunicação. Neste momento no entanto eu preferiria transmitir meus segredos conspiratórios (se eu tivesse algum) pelos Correios em vez da Net. Uma conspiração realmente bem-sucedida não deixa rastro em papel, como a Revolução Líbia de 1969 (mas na época, os grampos telefônicos ainda eram bastante primitivos). Mais do que isto, como poderíamos ter certeza que o que vimos na Net era informação e não desinformação? Especialmente se nossa organização existe apenas na Net? Falando como Stirnerita, eu não quero banir assombrações da minha cabeça apenas para encontrá-las de novo na tela. Luta de rua virtual, ruínas virtuais. Não parece uma proposição vantajosa.
Mais perturbador para nós seria a qualidade "gnóstica" da Net, sua tendência à exclusão do corpo, sua promessa de transcendência tecnológica da carne. Mesmo que algumas pessoas tenham "se conhecido pela Net", o movimento geral é rumo à atomização - "caído sozinho em frente à tela". O "movimento" hoje presta muita atenção à mídia em geral por que o poder virtualmente nos iludiu - e dentro do speculum da Net o seu reflexo zomba de nós. A Net como substituto ao convívio e à comunicatividade. A Net como uma má religião. Parte do transe midiático. A comoditização da diferença.
À parte a crítica da Net do ponto de vista da Soberania Individual, nós poderíamos também lançar uma análise de uma posição Fourierista. Aqui no lugar de indivíduos nós consideraríamos a "série", o grupo básico Passional sem o qual cada ser humano permanece incompleto - e o Falanstério, ou Série completa de Séries (mínimo de 1620 membros). Mas a meta permanece a mesma: - o agrupamento ocorre para maximizar os prazeres ou o "luxo" para os membros do grupo, Paixão sendo a única força viável de coesão social (de fato, nesta base nós poderíamos considerar uma "síntese" de Stirner e Fourier, na aparência polarmente opostos). Para Fourier, a Paixão é por definição incorporada; todo o "networking" é mantido via presença física (apesar dele permitir pombos-correio para comunicação entre Falanstérios). Como um místico dos números, Fourier bem que poderia gostar do computador - na verdade ele inventou o "namoro por computador", de certa maneira - mas ele provavelmente desaprovaria qualquer tecnologia que envolvesse a separação física (eu creio que foi Balzac quem disse que para Fourier o único pecado era almoçar sozinho). Convívio no sentido mais literal - idealmente, a orgia. "Atração Passional" funciona por que cada um tem Paixões diferentes: a diferença já é "luxo". O corpo de dados, o corpo na tela, é apenas metaforicamente um corpo. O espaço entre nós - o "medium" - deve ser preenchido com Raios Aromais, zodíacos de luz brilhante (novas cores!), profusões de frutas e flores, os aromas da cozinha gastrosófica - e finalmente o espaço deve ser fechado, curado.
Outra crítica da Net poderia ser feita de uma perspectiva Proudhoniana (Proudhon foi influenciado por Fourier, apesar de fingir que não foi. Ambos eram de Bezançon, como Victor Hugo). Proudhon era mais "progressivo" quanto a tecnologia do que nossos outros exemplos, e seria interessante ver que tipo de papel ele teria para a Net em seu futuro ideal de Mutualismo e anarco-federação. Para ele "governo" era meramente uma questão de administração da produção e troca. Os computadores poderiam se provar como ferramentas úteis sob estas condições. Mas proudhon assim como Marx sem dúvida modificariam sua visão otimista da tecnologia se fossem consultados hoje da sua opinião: - a máquina como poluição social, a própria tecnologia (e por implicação o Trabalho) como alienação. Este argumento foi obviamente feito por Marxistas libertários, anarquistas Verdes, etc. - descendentes legítimos de Marx e Proudhon, como Marcuse ou Ilich. Não seria justo considerar a InterNet (nem a bioengenharia) fora desta crítica da tecnologia. O trabalho de Benjamin, Debord e até Baudrillard (até qele ter caído exausto) torna claro que a imagem total - "a mídia" - tem um papel central nesta crítica. Proudhon questionaria a Net quanto a justiça, e quanto a presença.
Mas eu preferiria focar mais estritamente na questão da imagem. Aqui nós poderíamos retornar a Blake como nosso "martelo filosófico" (Nietzsche queria realmente dar a entender uma espécie de diapasão), uma vez que estamos falando do ídolo, da imagem. Eu argumentaria que estamos sofrendo uma crise de superprodução da imagem. Nós estamos, como Giordano Bruno colocou, "acorrentados", hipnotizados pela imagem. Em tal caso nós precisamos ou de uma dose saudável de iconoclastia, ou então (ou também) um tipo mais sutil de senso crítico hermético, uma liberação da imagem pela imagem. Na verdade, Blake nos supriu com ambos - ele era tanto um esmagador-de-ídolos quanto simultaneamente um hermetista que usava imagens para a libertação, tanto política quanto espiritual. Hermetistas entendem que o "hieróglifo", a imagem/texto ou comunicação mediada (simbólica), tem um efeito "mágico", ultrapassando a consciência racional linear e influenciando profundamente a psiquê. É por isso que Blake dizia que uma pessoa deve fazer seu próprio sistema ou então ser escravo do sistema de outros. A autonomia da imaginação é um alto valor para o hermetismo - e a crítica da imagem é a defesa da imaginação. A tela é um aspecto da imagem que não pode escapar desta "análise espectral" - a mídia como "moedores satãnicos".
Parece que não há mesmo como fugir da tecnologia ou da alienação. A própria techné é prótese da consciência, e portanto inseparável da condição humana (linguagem inclusa aqui como techné). A Tecnologia como a fusão óbvia de techné e linguagem (a ratio ou "razão" da techné) tem sido simplesmente uma categoria da existência humana desde pelo menos o Paleolítico. Mas - podemos perguntar até que ponto o próprio coração foi substituído por um órgão artificial? Até que ponto uma determinada tecnologia "surta" e começa a produzir uma contraprodutividade paradoxal? Se pudéssemos alcançar um consenso nisto, ainda existiria motivo para falar de determinismo tecnológico, ou o maquinismo como destino? Neste sentido, os velhos Ludditas merecem alguma consideração. A techné deve servir ao ser humano, não definir o ser humano.
Precisamos (aparentemente) aceitar a inevitabilidade da consciência, mas apenas na condição de que não será a mesma consciência. Suspeitamos que a consciência racional, maquínica, linear, aufklaerung, universal governou em muito tempo numa tirania - ou "monopólio. Não há nada de errado com a razão (na verdade nós poderíamos usar bem mais dela) mas o racionalismo parece uma ideologia fora de moda. A razão deve dividir o espaço com outras formas de consciência: consciência psicotrópica, ou consciência xamânica (que não tem nada a ver com "religião" como é usualmente definida) - bioconsciência, o discernimento sistêmico do ideal hermético da terra viva - consciência étnica ou cultural, modos diferentes de ver - povos indígenas - ou os Celtas - ou o Islã - consciências de "identidade" de todos os tipos - e consciências de trans-identidade. Uma variedade de consciências parece ser o único campo possível para a nossa ética.
Então, e quanto a consciência da InterNet? Ela tem seus aspectos não-lineares, não tem? Se pode existir uma "racionalidade do maravilhoso", não há um lugar para a Net no banquete?
No fim nós devemos nos contentar com a ambiguidade. Uma resposta "pura" é impossível aqui - iria feder a ideologia. Sim e não.
Mas - "Entre o Sim e o Não, estrelas caem do céu e cabeças voam do pescoço", como o grande sufi Shayk Ibn Arabi disse ao filósofo Aristotélico Averöes.
Uma imagem adequada para uma ruína romântica...
Hakim Bey
NYC
18 de agosto, 1997
BOICOTE À CULTURA POLICIAL!
SE PODEMOS DIZER QUE um personagem ficcional tem dominado a cultura popular atual, esse personagem é o policial. Os meganhas desgraçados estão em todo lugar. É pior do que na vida real. Que chateação incrível.
Policiais poderosos – protegendo os manos & humildes – à custa de mais ou menos meia dúzia de artigos da declaração dos Direitos Civis – “Dirty Harry”. Ótimos policiais, humanos, lidando bem com a perversidade humana, agridoces, você sabe, durões & arrogantes, mas mesmo assim, meigos por dentro: Hill Street Blues – o mais maléfico programa de TV de todos os tempos.
Tiras negros sabichões fazendo observações espirituosas & racistas contra tiras brancos & jecas, mas todos se amando no final – Eddie Murphy, traidor da classe. Numa dessa histórias masoquistas, vemos policiais corrompidos que ameaçam implodir nossa Realidade Konfortável & Konsensual, como tênias solitárias desenhadas por Giger54, mas que naturalmente são detonados na hora H pelo último policial honesto, Robocop, amálgama ideal de próteses & pieguice.
Somos obsediados por policiais desde o início – mas os guardas de outrora atuavam como tolos empavonados. Car 54, Where Are You?55, trouxas feitos na medida para serem arrasados & ridicularizados por Fatty Arbuckle ou Buster Keaton. Mas, no drama ideal dos nossos dias, o “pequeno homem”, que uma vez detonou centenas de varejeiras azuis com aquela bomba anarquista inocentemente usada para acender um cigarro – o Vagabundo, a vítima com o repentino poder do coração puro -, não tem mais um lugar no centro da narrativa. Antes, “nós” éramos aquele vagabundo, aquele herói caótico quase surrealista que, através do wu-wei56, sai-se vitorioso sobre ridículos meganhas de uma Ordem irrelevante & desprezível. Mas, agora, “nós” estamos reduzidos ao status de vítimas sem poder, ou criminosos. Já não representamos o papel principal; já não somos os heróis de nossas próprias histórias, fomos marginalizados & substituídos pelo Outro, o policial.
Dessa forma, o show policial possui apenas três personagens – a vítima, o criminoso & o policial -, mas os dois primeiros não logram ser completamente humanos – apenas o meganha é real. Estranhamente, a sociedade humana de agora (como percebida pelas outras mídias) algumas vezes parece ser constituída pelos mesmos três clichês/arquétipos. Primeiro, as vítimas, as minorias chorosas reclamando por seus “direitos” - &, por deus, quem não pertence a alguma “minoria” hoje? Porra, até mesmo os meganhas reclamaram que seus “direitos” estavam sendo infringidos. Depois, os criminosos: em sua maioria, não brancos (apesar da obrigatória & delirante “integração” mostrada pela mídia), muitos pobres (ou então obscenamente ricos, & portanto ainda mais distantes) & pervertidos (isto é, os espelhos proibidos de “nossos” desejos).
Ouvi dizer que uma em cada quatro casas nos Estados Unidos é assaltada todo ano & que todo ano cerca de meio milhão de pessoas são presas só por fumar maconha. Diante de tais estatísticas (mesmo pressupondo que elas não passam de “mentiras deslavadas”), perguntamos a nós mesmo quem NÃO é vítima ou criminoso em nosso estado-de-consciência-policial. Os detetives policias devem fazer a mediação por todos nós, por mais que a interface seja obscura – eles são apenas sacerdotes-guerreiros, embora profanos.
O America´s Most Wanted – o programa de TV mais bem-sucedido dos anos 1980 – possibilitou para todos nós o papel de tira amador, até então uma mera fantasia da mídia produzida pelos sentimentos de ressentimento & vingança da classe média. Naturalmente, ninguém é mais odiado pelo policial da vida real do que aqueles que resolvem cuidar da própria comunidade – veja o que acontece às iniciativas de autoproteção comunitária de vizinhanças pobres e/ou não brancas, como os muçulmanos que tentaram eliminar o tráfico de crack no Brooklyn: os tiras afugentaram os muçulmanos, os traficantes ficaram livres. Vigias de verdade ameaçam o monopólio do cumprimento da lei, lèse majesté, o que é mais abominável do que incesto ou assassinato.
Mas os vigilantes da mídia (mediados) funcionam perfeitamente bem dentro do estados Policial. De fato, seria mais acurado considerá-los informantes não pagos (eles nem mesmo possuem um conjunto de malas que combinam!): emissários telemétricos, pombos eletrônicos, dedos-duros por um dia.
O que é que a “América mais procura”? Essas frase refere-se aos criminosos – ou a crimes, a objetos de desejo em sua presença real, não representados, não mediados, literalmente roubados & apropriados? A América mais procura... dar um “foda-se” para o trabalho, abandonar o casamento, drogar-se (porque somente as drogas fazem você se sentir tão bem quanto as pessoas que aparecem nos comerciais de TV parecem se sentir), fazer sexo com ninfetas núbeis, sodomia, arrombamentos, sim, o inferno! Quais prazeres não mediados NÃO são ilegais? Até mesmo churrascos ao ar livre violam regulamentos sobre emissão de fumaça, hoje em dia. As diversões mais simples acabam por infringir alguma lei; por fim, o prazer torna-se estressante, apenas a TV permanece - & o prazer da vingança, a traição vicária, a emoção doentia do mexerico. A América não pode ter o que ela mais procura, então, em vez disso, ela tem o America´s Most Wanted. Uma nação de bobalhões ginasianos lambendo o rabo de uma elite de brutamontes ginasianos.
É claro que o programa ainda sofre de algumas poucas & estranhas distorções da realidade: por exemplo, os segmentos dramatizados são interpretados no estilo cinema-verdade por atores; alguns telespectadores são tão estúpidos que acreditam que estão assistindo a uma filmagem real de crimes reais. Por isso, os atores são continuamente importunados & mesmo presos, junto com (ou no lugar de) os verdadeiros criminosos cujas fotos de identificação são exibidas depois de cada pequeno documentóide. Que curioso, não? Ninguém experimenta nada de verdade – todos estão reduzidos ao status de fantasmas – imagens da mídia se descolam & se deslocam de qualquer contato com a vida real de cada dia – telessexo – sexo virtual. A transcendência final do corpo: cibergnose.
Os policiais da mídia, assim como os seus precursores televangélicos, preparam-nos para o advento, a vinda final ou o Êxtase do estado policial – as “guerras” ao sexo & às drogas – controle total & totalmente esvaziado de qualquer conteúdo; um mapa sem coordenadas, em nenhum espaço conhecido; muito além do mero Espetáculo; puro êxtase (“permanêcia-fora-do-corpo”); simulacro obsceno; violentos espasmos sem significado elevados ao último princípio de governo. A imagem de um país consumido por imagens de ódio a si mesmo, guerra entre as metades esquizóides de uma personalidade dividida, Super-Ego contra Id Kid, para o campeonato de pesos pesados de uma paisagem abandonada, queimada, poluída, vazia, desolada, irreal.
Assim como o romance policial é sempre um exercício de sadismo, o seriado policial, sempre envolve a contemplação do controle. A imagem do inspetor ou detetive mede a imagem de “nossa” falta de substância autônoma, nossa transparência ante o olhar fixo da autoridade. Nossa perversidade, nossa impotência. Não importa se o consideramos “bons” ou “maus”, nossa invocação obsessiva dos espectros policiais revela a extensão da nossa aceitação da perspectiva maniqueísta que eles simbolizam. Milhões de meganhas minúsculos formigam em toda parte, como larvas de fantasmas famintos – eles enchem a tela, como no famoso filme de Keaton, abarrotando o primeiro plano, uma Antártica onde nada se move a não ser multidões de sinistros pingüins azuis.
Propomos uma exegese hermenêutica & esotérica do slogan surrealista Mort aux vaches! Não o usamos ao nos referir à morte de policiais individuais (“vacas” na gíria da época) – o que seria uma mera fantasia de vingança esquerdista – sadismo mesquinho às avessas -, mas à morte da imagem do flic, o Controle interior & suas miríades de reflexos no Lugar Nenhum da mídia – o “quarto cinza”, como Burroughs o chama. Autocensura, medo do próprio desejo, “consciência” com a voz interiorizada da autoridade consensual. O assassínio dessas “forças de segurança” de fato libertaria uma enchente de energia libidinosa, mas não a violenta irrupção prevista pela teoria da Lei & da Ordem. A “auto-superação” nietzschiana provê o princípio da organização para o espírito livre (& também para a sociedade anarquista, ao menos em teoria).
Na personalidade do estado policial, a energia libidinosa é represada & desviada para a auto-repressão; qualquer ameaça ao Controle resulta em espasmos de violência. Na personalidade do espírito livre, a energia flui desimpedida & portanto turbulenta, mas gentil – o seu caos encontra o seu estranho atrator, permitindo que novas ordens espontâneas surjam.
Assim, clamamos por um boicote à imagem do Policial & por uma moratória da sua produção na arte. Assim...
SE PODEMOS DIZER QUE um personagem ficcional tem dominado a cultura popular atual, esse personagem é o policial. Os meganhas desgraçados estão em todo lugar. É pior do que na vida real. Que chateação incrível.
Policiais poderosos – protegendo os manos & humildes – à custa de mais ou menos meia dúzia de artigos da declaração dos Direitos Civis – “Dirty Harry”. Ótimos policiais, humanos, lidando bem com a perversidade humana, agridoces, você sabe, durões & arrogantes, mas mesmo assim, meigos por dentro: Hill Street Blues – o mais maléfico programa de TV de todos os tempos.
Tiras negros sabichões fazendo observações espirituosas & racistas contra tiras brancos & jecas, mas todos se amando no final – Eddie Murphy, traidor da classe. Numa dessa histórias masoquistas, vemos policiais corrompidos que ameaçam implodir nossa Realidade Konfortável & Konsensual, como tênias solitárias desenhadas por Giger54, mas que naturalmente são detonados na hora H pelo último policial honesto, Robocop, amálgama ideal de próteses & pieguice.
Somos obsediados por policiais desde o início – mas os guardas de outrora atuavam como tolos empavonados. Car 54, Where Are You?55, trouxas feitos na medida para serem arrasados & ridicularizados por Fatty Arbuckle ou Buster Keaton. Mas, no drama ideal dos nossos dias, o “pequeno homem”, que uma vez detonou centenas de varejeiras azuis com aquela bomba anarquista inocentemente usada para acender um cigarro – o Vagabundo, a vítima com o repentino poder do coração puro -, não tem mais um lugar no centro da narrativa. Antes, “nós” éramos aquele vagabundo, aquele herói caótico quase surrealista que, através do wu-wei56, sai-se vitorioso sobre ridículos meganhas de uma Ordem irrelevante & desprezível. Mas, agora, “nós” estamos reduzidos ao status de vítimas sem poder, ou criminosos. Já não representamos o papel principal; já não somos os heróis de nossas próprias histórias, fomos marginalizados & substituídos pelo Outro, o policial.
Dessa forma, o show policial possui apenas três personagens – a vítima, o criminoso & o policial -, mas os dois primeiros não logram ser completamente humanos – apenas o meganha é real. Estranhamente, a sociedade humana de agora (como percebida pelas outras mídias) algumas vezes parece ser constituída pelos mesmos três clichês/arquétipos. Primeiro, as vítimas, as minorias chorosas reclamando por seus “direitos” - &, por deus, quem não pertence a alguma “minoria” hoje? Porra, até mesmo os meganhas reclamaram que seus “direitos” estavam sendo infringidos. Depois, os criminosos: em sua maioria, não brancos (apesar da obrigatória & delirante “integração” mostrada pela mídia), muitos pobres (ou então obscenamente ricos, & portanto ainda mais distantes) & pervertidos (isto é, os espelhos proibidos de “nossos” desejos).
Ouvi dizer que uma em cada quatro casas nos Estados Unidos é assaltada todo ano & que todo ano cerca de meio milhão de pessoas são presas só por fumar maconha. Diante de tais estatísticas (mesmo pressupondo que elas não passam de “mentiras deslavadas”), perguntamos a nós mesmo quem NÃO é vítima ou criminoso em nosso estado-de-consciência-policial. Os detetives policias devem fazer a mediação por todos nós, por mais que a interface seja obscura – eles são apenas sacerdotes-guerreiros, embora profanos.
O America´s Most Wanted – o programa de TV mais bem-sucedido dos anos 1980 – possibilitou para todos nós o papel de tira amador, até então uma mera fantasia da mídia produzida pelos sentimentos de ressentimento & vingança da classe média. Naturalmente, ninguém é mais odiado pelo policial da vida real do que aqueles que resolvem cuidar da própria comunidade – veja o que acontece às iniciativas de autoproteção comunitária de vizinhanças pobres e/ou não brancas, como os muçulmanos que tentaram eliminar o tráfico de crack no Brooklyn: os tiras afugentaram os muçulmanos, os traficantes ficaram livres. Vigias de verdade ameaçam o monopólio do cumprimento da lei, lèse majesté, o que é mais abominável do que incesto ou assassinato.
Mas os vigilantes da mídia (mediados) funcionam perfeitamente bem dentro do estados Policial. De fato, seria mais acurado considerá-los informantes não pagos (eles nem mesmo possuem um conjunto de malas que combinam!): emissários telemétricos, pombos eletrônicos, dedos-duros por um dia.
O que é que a “América mais procura”? Essas frase refere-se aos criminosos – ou a crimes, a objetos de desejo em sua presença real, não representados, não mediados, literalmente roubados & apropriados? A América mais procura... dar um “foda-se” para o trabalho, abandonar o casamento, drogar-se (porque somente as drogas fazem você se sentir tão bem quanto as pessoas que aparecem nos comerciais de TV parecem se sentir), fazer sexo com ninfetas núbeis, sodomia, arrombamentos, sim, o inferno! Quais prazeres não mediados NÃO são ilegais? Até mesmo churrascos ao ar livre violam regulamentos sobre emissão de fumaça, hoje em dia. As diversões mais simples acabam por infringir alguma lei; por fim, o prazer torna-se estressante, apenas a TV permanece - & o prazer da vingança, a traição vicária, a emoção doentia do mexerico. A América não pode ter o que ela mais procura, então, em vez disso, ela tem o America´s Most Wanted. Uma nação de bobalhões ginasianos lambendo o rabo de uma elite de brutamontes ginasianos.
É claro que o programa ainda sofre de algumas poucas & estranhas distorções da realidade: por exemplo, os segmentos dramatizados são interpretados no estilo cinema-verdade por atores; alguns telespectadores são tão estúpidos que acreditam que estão assistindo a uma filmagem real de crimes reais. Por isso, os atores são continuamente importunados & mesmo presos, junto com (ou no lugar de) os verdadeiros criminosos cujas fotos de identificação são exibidas depois de cada pequeno documentóide. Que curioso, não? Ninguém experimenta nada de verdade – todos estão reduzidos ao status de fantasmas – imagens da mídia se descolam & se deslocam de qualquer contato com a vida real de cada dia – telessexo – sexo virtual. A transcendência final do corpo: cibergnose.
Os policiais da mídia, assim como os seus precursores televangélicos, preparam-nos para o advento, a vinda final ou o Êxtase do estado policial – as “guerras” ao sexo & às drogas – controle total & totalmente esvaziado de qualquer conteúdo; um mapa sem coordenadas, em nenhum espaço conhecido; muito além do mero Espetáculo; puro êxtase (“permanêcia-fora-do-corpo”); simulacro obsceno; violentos espasmos sem significado elevados ao último princípio de governo. A imagem de um país consumido por imagens de ódio a si mesmo, guerra entre as metades esquizóides de uma personalidade dividida, Super-Ego contra Id Kid, para o campeonato de pesos pesados de uma paisagem abandonada, queimada, poluída, vazia, desolada, irreal.
Assim como o romance policial é sempre um exercício de sadismo, o seriado policial, sempre envolve a contemplação do controle. A imagem do inspetor ou detetive mede a imagem de “nossa” falta de substância autônoma, nossa transparência ante o olhar fixo da autoridade. Nossa perversidade, nossa impotência. Não importa se o consideramos “bons” ou “maus”, nossa invocação obsessiva dos espectros policiais revela a extensão da nossa aceitação da perspectiva maniqueísta que eles simbolizam. Milhões de meganhas minúsculos formigam em toda parte, como larvas de fantasmas famintos – eles enchem a tela, como no famoso filme de Keaton, abarrotando o primeiro plano, uma Antártica onde nada se move a não ser multidões de sinistros pingüins azuis.
Propomos uma exegese hermenêutica & esotérica do slogan surrealista Mort aux vaches! Não o usamos ao nos referir à morte de policiais individuais (“vacas” na gíria da época) – o que seria uma mera fantasia de vingança esquerdista – sadismo mesquinho às avessas -, mas à morte da imagem do flic, o Controle interior & suas miríades de reflexos no Lugar Nenhum da mídia – o “quarto cinza”, como Burroughs o chama. Autocensura, medo do próprio desejo, “consciência” com a voz interiorizada da autoridade consensual. O assassínio dessas “forças de segurança” de fato libertaria uma enchente de energia libidinosa, mas não a violenta irrupção prevista pela teoria da Lei & da Ordem. A “auto-superação” nietzschiana provê o princípio da organização para o espírito livre (& também para a sociedade anarquista, ao menos em teoria).
Na personalidade do estado policial, a energia libidinosa é represada & desviada para a auto-repressão; qualquer ameaça ao Controle resulta em espasmos de violência. Na personalidade do espírito livre, a energia flui desimpedida & portanto turbulenta, mas gentil – o seu caos encontra o seu estranho atrator, permitindo que novas ordens espontâneas surjam.
Assim, clamamos por um boicote à imagem do Policial & por uma moratória da sua produção na arte. Assim...
Vernissage
Bem, a arte morreu, e agora? Vamos para casa? Algumas possibilidades de transformação na arte e através da arte.
O que é tão engraçado a respeito da Arte?
A Arte foi gargalhada até a morte pelo dada? Ou talvez este sardonicídio se deu ainda antes, com a primeira performance do Ubu Rei? Ou com a gargalhada sarcástica de fantasma-da-ópera do Baudelaire, que tanto perturbava seus bons amigos burgueses?
O que é engraçado a respeito da Arte (apesar de ser mais engraçado-peculiar do que engraçado-haha) é a visão do cadáver que se recusa a cair, este gincana de mortos-vivos, este teatro de marionetes macabro com todas as cordas ligadas ao Capital (um plutocrata inchado tipo Diego Rivera), este simulacro moribundo zumbizando freneticamente por aí, fingindo ser a única coisa viva de verdade em todo o Universo.
Em face de uma ironia como esta, uma duplicidade tão extrema que chega a um abismo intransponível, qualquer poder de cura de uma gargalhada-na-arte tem que ser no mínimo tomado como suspeito, a propriedade ilusória de uma auto-proclamada elite ou pseudo-vanguarda. Para haver uma vanguarda genuína, a Arte deveria estar indo a algum lugar, e há muito tempo já que este não é o caso. Mencionamos Rivera; certamente nenhum outro artista político genuínamente engraçado chegou a pintar em nosso século - mas para que fim? Trotskysmo! A mais morta e sem saída das políticas do século XX! Sem poder de cura aqui - apenas o barulho oco da zombaria sem poder, ecoando através do abismo.
Para curar, é preciso primeiro destruir - e a arte política que falha em destruir o alvo de seu riso acaba fortificando exatamente as forças que pretende atacar. "O que não me mata me deixa mais forte," diz com desprezo a figura suína em sua cartola brilhante (imitando Nietzsche, é claro, pobre Nietzsche, que tentou gargalhar todo o século dezenove até a morte, mas acabou como um cadáver vivo, cuja irmã lhe amarrou cordas em seus membros para fazê-lo dançar para os fascistas).
Não há nada particularmente misterioso ou metafísico sobre o processo. As circunstâncias, a pobreza, certa vez forçaram Rivera a aceitar um trabalho para vir aos EUA e pintar um mural - para Rockfeller! - o próprio arquétipo máximo de leitão da Wall Street! Rivera fez de seu trabalho uma peça gritante de panfletagem comunista - e então Rockfeller a obliterou. Como se isto não fosse engraçado o bastante, a piada de verdade é que Rockfeller poderia ter saboreado a vitória ainda mais docemente sem destruir o trabalho, mas pagando por ele e o exibindo, transformando-o em Arte, esse parasita banguela da decoração de interiores, essa piada.
O sonho do Romantismo: que a o mundo-realidade dos valores burgueses poderia de alguma maneira ser persuadido a consumir, a absorver, uma arte que à primeira vista se parecesse com todo o resto da arte (livros para ler, quadros para pendurar na parede, etc.), mas que secretamente infeccionaria a realidade com algo mais, algo que mudaria a maneira como é vista, viraria a mesa, colocaria no lugar os valores revolucionários da arte.
Este também foi o sonho do surrealismo. Até mesmo o dada, apesar de seu descarado show de cinismo, ainda ousava ter esperanças. Do Romantismo ao Situacionismo, de Blake a 1968, o sonho de cada vitória sobre o ontem se tornou conversinha decorativa de cada amanhã - comprado, mastigado, reproduzido, vendido, consignado a museus, bibliotecas, universidades e outros mausoléus, esquecido, perdido, ressurecto, tornado em loucura nostálgica, reproduzido, vendido, etc., etc., ad nauseam.
Para entender o quanto Cruikshank ou Daumier ou Grandville ou Rivera ou Tzara ou Duchamp destruíram a visão do mundo burguesa de seus tempos, é preciso se enterrar numa tempestade de referências históricas e se alucinar - já que de fato a destruição-pelo-riso foi um sucesso teóríco mas um fracasso na realidade - o peso morto da ilusão falhou em mover uma polegada com a gargalhada histérica, o ataque do riso. Não foi a sociedade burguesa que entrou em colapso no final, foi a arte.
Á luz do trote que foi pregado em nós, é como se o artista contemporâneo fosse colocado entre duas escolhas (uma vez que o suicídio não é uma solução): um, seguir lançando ataque atrás de ataque, movimento atrás de movimento, na esperança de que um dia (logo) "a coisa" vai ficar tão fraca, tão vazia, que vai evaporar e nos deixar sozinhos no campo de batalha; ou dois, começar imediatamente agora a viver como se a batalha já estivesse vencida, como se hoje o artista já não fosse um tipo especial de pessoa, mas cada pessoa um tipo especial de artista (foi isto que os Situacionistas chamaram de "a supressão e realização da arte").
Ambas estas opções são tão "impossíveis" que agir em qualquer uma delas seria uma piada. Não precisaríamos fazer arte "engraçada" por que apenas fazer arte seria engraçado o suficiente para soltar os intestinos. Mas pelo menos seria a nossa piada (quem pode dizer com certeza que falharíamos? "Eu amo não conhecer o futuro" - Nietzsche). Para que possamos começar a jogar este jogo, devemos provavelmente estabelecer certas regras para nós mesmos:
1. Não há questões. Não existe esse negócio de sexismo, fascismo, especismo, visualismo, ou nenhum outra "franquia de questão" que possa ser separada do complexo social e tratada com um "discurso" como um "problema". Há apenas a totalidade que divide todas estas "questões" ilusórias na completa falsidade de seu discurso, fazendo de todas as opiniões, prós e contras, em apenas bens-de-pensamento para serem compradas e vendidas. E esta totalidade é ela própria uma ilusão, um pesadelo maligno do qual estamos tentando (através da arte, do humor, ou de qualquer outro meio) despertar.
2. Tanto quanto possível, qualquer coisa que façamos deve ser feita fora da estrutura psíquica/econômica gerada pela totalidade como o espaço permissível para o jogo da arte. Como, você pergunta, nós ganharemos a vida sem galerias, agentes, museus, publicação comercial, a NEA* e outras agências em benefício das artes? Bem, ninguém precisa pedir pelo improvável. Mas ainda devemos exigir o "impossível" - ou então, por que catzo uma pessoa é artista?! Não é o suficiente ocupar um pedestal sagrado e especial chamado Arte de cima do qual se zomba da estupidez e injustiça do mundo "quadrado". A arte é parte do problema. O Mundo da Arte enfiou sua cabeça na própria bunda, e se faz necessário sair disto - ou então viver em uma paisagem cheia de merda.
3. Claro que se deve "ganhar a vida" de alguma maneira - mas o essencial aqui é viver. Seja o que for que fizermos, qualquer que seja a opção que escolhamos (talvez todas elas), o o quanto nos comprometamos, devemos orar para nunca confundir arte com vida: a Arte é breve, a Vida é longa. Devemos estar preparados para navegar, nomadizar, escorregar de todas as redes, nunca estabilizar, viver através de várias artes, fazer nossas vidas melhores que nossa arte, fazer da arte nosso grito no lugar de nossa desculpa.
4. O riso que cura (em oposição à gargalhada corrosiva e venenosa) pode apenas surgir de uma arte que é séria - séria, mas não sóbria. Morbidez sem sentido, niilismo cínico, tendências de frivolidade pós-moderna, resmungar/praguejar/reclamar/ (o culto liberal da "vítima"), exaustão, hiperconformidade irônica Baudrillardiana - nenhuma destas opções é séria o suficiente, e ao mesmo tempo nenhuma é intoxicada o bastante para servir aos nossos propósitos, muito menos para merecer o nosso riso.
Nota:
* - National Endowment for the Arts, uma entidade governamental americana que financia as artes
http://hermetic.com/bey
Bem, a arte morreu, e agora? Vamos para casa? Algumas possibilidades de transformação na arte e através da arte.
O que é tão engraçado a respeito da Arte?
A Arte foi gargalhada até a morte pelo dada? Ou talvez este sardonicídio se deu ainda antes, com a primeira performance do Ubu Rei? Ou com a gargalhada sarcástica de fantasma-da-ópera do Baudelaire, que tanto perturbava seus bons amigos burgueses?
O que é engraçado a respeito da Arte (apesar de ser mais engraçado-peculiar do que engraçado-haha) é a visão do cadáver que se recusa a cair, este gincana de mortos-vivos, este teatro de marionetes macabro com todas as cordas ligadas ao Capital (um plutocrata inchado tipo Diego Rivera), este simulacro moribundo zumbizando freneticamente por aí, fingindo ser a única coisa viva de verdade em todo o Universo.
Em face de uma ironia como esta, uma duplicidade tão extrema que chega a um abismo intransponível, qualquer poder de cura de uma gargalhada-na-arte tem que ser no mínimo tomado como suspeito, a propriedade ilusória de uma auto-proclamada elite ou pseudo-vanguarda. Para haver uma vanguarda genuína, a Arte deveria estar indo a algum lugar, e há muito tempo já que este não é o caso. Mencionamos Rivera; certamente nenhum outro artista político genuínamente engraçado chegou a pintar em nosso século - mas para que fim? Trotskysmo! A mais morta e sem saída das políticas do século XX! Sem poder de cura aqui - apenas o barulho oco da zombaria sem poder, ecoando através do abismo.
Para curar, é preciso primeiro destruir - e a arte política que falha em destruir o alvo de seu riso acaba fortificando exatamente as forças que pretende atacar. "O que não me mata me deixa mais forte," diz com desprezo a figura suína em sua cartola brilhante (imitando Nietzsche, é claro, pobre Nietzsche, que tentou gargalhar todo o século dezenove até a morte, mas acabou como um cadáver vivo, cuja irmã lhe amarrou cordas em seus membros para fazê-lo dançar para os fascistas).
Não há nada particularmente misterioso ou metafísico sobre o processo. As circunstâncias, a pobreza, certa vez forçaram Rivera a aceitar um trabalho para vir aos EUA e pintar um mural - para Rockfeller! - o próprio arquétipo máximo de leitão da Wall Street! Rivera fez de seu trabalho uma peça gritante de panfletagem comunista - e então Rockfeller a obliterou. Como se isto não fosse engraçado o bastante, a piada de verdade é que Rockfeller poderia ter saboreado a vitória ainda mais docemente sem destruir o trabalho, mas pagando por ele e o exibindo, transformando-o em Arte, esse parasita banguela da decoração de interiores, essa piada.
O sonho do Romantismo: que a o mundo-realidade dos valores burgueses poderia de alguma maneira ser persuadido a consumir, a absorver, uma arte que à primeira vista se parecesse com todo o resto da arte (livros para ler, quadros para pendurar na parede, etc.), mas que secretamente infeccionaria a realidade com algo mais, algo que mudaria a maneira como é vista, viraria a mesa, colocaria no lugar os valores revolucionários da arte.
Este também foi o sonho do surrealismo. Até mesmo o dada, apesar de seu descarado show de cinismo, ainda ousava ter esperanças. Do Romantismo ao Situacionismo, de Blake a 1968, o sonho de cada vitória sobre o ontem se tornou conversinha decorativa de cada amanhã - comprado, mastigado, reproduzido, vendido, consignado a museus, bibliotecas, universidades e outros mausoléus, esquecido, perdido, ressurecto, tornado em loucura nostálgica, reproduzido, vendido, etc., etc., ad nauseam.
Para entender o quanto Cruikshank ou Daumier ou Grandville ou Rivera ou Tzara ou Duchamp destruíram a visão do mundo burguesa de seus tempos, é preciso se enterrar numa tempestade de referências históricas e se alucinar - já que de fato a destruição-pelo-riso foi um sucesso teóríco mas um fracasso na realidade - o peso morto da ilusão falhou em mover uma polegada com a gargalhada histérica, o ataque do riso. Não foi a sociedade burguesa que entrou em colapso no final, foi a arte.
Á luz do trote que foi pregado em nós, é como se o artista contemporâneo fosse colocado entre duas escolhas (uma vez que o suicídio não é uma solução): um, seguir lançando ataque atrás de ataque, movimento atrás de movimento, na esperança de que um dia (logo) "a coisa" vai ficar tão fraca, tão vazia, que vai evaporar e nos deixar sozinhos no campo de batalha; ou dois, começar imediatamente agora a viver como se a batalha já estivesse vencida, como se hoje o artista já não fosse um tipo especial de pessoa, mas cada pessoa um tipo especial de artista (foi isto que os Situacionistas chamaram de "a supressão e realização da arte").
Ambas estas opções são tão "impossíveis" que agir em qualquer uma delas seria uma piada. Não precisaríamos fazer arte "engraçada" por que apenas fazer arte seria engraçado o suficiente para soltar os intestinos. Mas pelo menos seria a nossa piada (quem pode dizer com certeza que falharíamos? "Eu amo não conhecer o futuro" - Nietzsche). Para que possamos começar a jogar este jogo, devemos provavelmente estabelecer certas regras para nós mesmos:
1. Não há questões. Não existe esse negócio de sexismo, fascismo, especismo, visualismo, ou nenhum outra "franquia de questão" que possa ser separada do complexo social e tratada com um "discurso" como um "problema". Há apenas a totalidade que divide todas estas "questões" ilusórias na completa falsidade de seu discurso, fazendo de todas as opiniões, prós e contras, em apenas bens-de-pensamento para serem compradas e vendidas. E esta totalidade é ela própria uma ilusão, um pesadelo maligno do qual estamos tentando (através da arte, do humor, ou de qualquer outro meio) despertar.
2. Tanto quanto possível, qualquer coisa que façamos deve ser feita fora da estrutura psíquica/econômica gerada pela totalidade como o espaço permissível para o jogo da arte. Como, você pergunta, nós ganharemos a vida sem galerias, agentes, museus, publicação comercial, a NEA* e outras agências em benefício das artes? Bem, ninguém precisa pedir pelo improvável. Mas ainda devemos exigir o "impossível" - ou então, por que catzo uma pessoa é artista?! Não é o suficiente ocupar um pedestal sagrado e especial chamado Arte de cima do qual se zomba da estupidez e injustiça do mundo "quadrado". A arte é parte do problema. O Mundo da Arte enfiou sua cabeça na própria bunda, e se faz necessário sair disto - ou então viver em uma paisagem cheia de merda.
3. Claro que se deve "ganhar a vida" de alguma maneira - mas o essencial aqui é viver. Seja o que for que fizermos, qualquer que seja a opção que escolhamos (talvez todas elas), o o quanto nos comprometamos, devemos orar para nunca confundir arte com vida: a Arte é breve, a Vida é longa. Devemos estar preparados para navegar, nomadizar, escorregar de todas as redes, nunca estabilizar, viver através de várias artes, fazer nossas vidas melhores que nossa arte, fazer da arte nosso grito no lugar de nossa desculpa.
4. O riso que cura (em oposição à gargalhada corrosiva e venenosa) pode apenas surgir de uma arte que é séria - séria, mas não sóbria. Morbidez sem sentido, niilismo cínico, tendências de frivolidade pós-moderna, resmungar/praguejar/reclamar/ (o culto liberal da "vítima"), exaustão, hiperconformidade irônica Baudrillardiana - nenhuma destas opções é séria o suficiente, e ao mesmo tempo nenhuma é intoxicada o bastante para servir aos nossos propósitos, muito menos para merecer o nosso riso.
Nota:
* - National Endowment for the Arts, uma entidade governamental americana que financia as artes
http://hermetic.com/bey
Subscribe to:
Posts (Atom)