Monday, December 11, 2006

TAZ - ZONA AUTÔNOMA TEMPORÁRIA - Parte 3

Tradução: Patricia Decia & Renato Resende

CAOS LINGUÍSTICO

AINDA NÃO UMA CIÊNCIA, mas uma proposição: que certos
problemas de linguística possam ser resolvidos através da abordagem da
linguagem como um sistema dinâmico complexo, ou "campo caótico".
De todas as escolas originadas pela linguística de Saussure,
temos especial interesse por duas: a primeira, "antilingüística", pode ser
encontrada - no período moderno - da partida de Rimbaud para a Abissínia à
afirmação de Nietzsche "temo que, enquanto tivermos gramática, não
teremos matado Deus"; passando pelo dadaísmo; "o Mapa não é o
Território" de Korzybski; pelos cut ups e pela "ruptura na sala cinza" de
Burroughs; pelo ataque de Zerzan à própria linguagem como representação
e mediação.
A segunda é a linguística de Chomsky que, com sua crença numa
"gramática universal" e seus diagramas em forma de árvores, representa (eu
acredito) uma tentativa de "salvar" a linguagem através da descoberta de
"invariáveis ocultas", do mesmo modo que certos cientistas estão tentando
"salvar" a física da "irracionalidade" da mecânica quântica. Embora fosse de
se esperar que Chomsky, como anarquista, ficasse do lado dos niilistas, a
sua belíssima teoria em verdade tem mais a ver com o platonismo ou com o
sufísmo do que com o anarquismo. A metafísica tradicional descreve a
linguagem como luz pura brilhando através dos vidros coloridos dos
arquétipos; Chomsky fala de gramáticas "inatas". As palavras são folhas, os
ramos são frases, os idiomas maternos são limbos, as famílias de linguagem
são troncos e as raízes estão no "céu"... ou no DNA. Eu chamo a isso
"hermetalingüística" - hermética e metafísica. O niilismo (ou a
"Metalingüística Pesada", em honra a Burroughs) parece-me ter levado a
linguagem para um beco sem saída e ameaçado torná-la "impossível" (um
grande feito, mas deprimente), enquanto Chomsky mantém a promessa e a
esperança de uma revelação de última hora, o que eu acho igualmente difícil
de aceitar. Eu também gostaria de "salvar" a linguagem, mas sem apelar
para nenhuma "Assombração", ou supostas regras sobre Deus, dados e o
universo.
Voltando a Saussure e suas anotações, postumamente publicadas,
sobre anagramas na poesia latina, encontramos certas indicações de um
processo que, de alguma forma, foge da dinâmica signo/significante.
Saussure se deparou com a possibilidade de algum tipo de "meta"-
lingüística que acontece dentro da linguagem em vez de ser imposta desde
"fora" como um imperativo categórico. Assim que a linguagem começa a
atuar, como nos poemas acrósticos que ele examinou, ela parece ressonar
com uma complexidade autoexpansiva. Saussure tentou quantificar os
anagramas, mas os números escapavam dele (como se envolvessem
equações não-lineares). Além disso, ele começou a encontrar os anagramas por todo lado, mesmo na prosa latina. Começou a se perguntar se estava
tendo alucinações, ou se os anagramas eram um processo natural
inconsciente da parole. Abandonou o projeto.
Eu me pergunto: se quantidades suficientes de informações desse
tipo fossem digeridas num computador, começaríamos a ser capazes de
modelar a linguagem em termos de sistemas dinâmicos complexos? As
gramáticas, então, não seriam "inatas", mas emergiriam do caos
espontaneamente como "ordens superiores" que evoluem, no sentido da
"evolução criativa" de Prigogine. As gramáticas poderiam ser pensadas
como "Estranhos Atratores", como o padrão escondido que "causou" os
anagramas - padrões que são "reais", mas que têm "existência" apenas em
termos dos sub-padrões que manifestam. Se o significado é elusivo, talvez
seja porque a própria consciência, e portanto a linguagem, seja fractal.
Considero essa teoria mais satisfatoriamente anarquista do que
qualquer antilingüistica ou chomskyanismo. Ela sugere que a linguagem
pode sobrepor-se à representação e à mediação, não porque seja inata, mas porque é caótica. Ela sugere que toda experimentação dadaísta (Feyerabend
designou sua escola de epistemologia científica de "dadaísmo anárquico")
com poesia sonora, gestos, chistes, linguagem bestial etc. não foi feita com
o objetivo nem de descobrir nem de destruir o significado, mas de criá-lo. O
niilismo afirma sombriamente que a linguagem cria significado de forma
"arbitrária". O Caos Linguístico alegremente concorda com isso, mas
adiciona que a linguagem pode superar a linguagem, que a linguagem pode
criar liberdade a partir da confusão e da decadência da tirania semântica.

HEDONISMO APLICADO

A GANG DE BONNOT15 era vegetariana e bebia apenas água.
Terminaram mal (embora de forma pitoresca). Vegetais e água, coisas
excelentes em si mesmas - pura realidade zen - não devem ser consumidas
como martírio, mas como uma epifania. A autonegação como práxis radical,
o impulso leveller, tem um quê de tristeza milenar, e esta facção da esquerda
compartilha o mesmo manancial histórico do fundamentalismo neo-puritano
e da reação moralista da nossa década. A Nova Ascese, não importa se
praticada por anoréxicos de saúde desequilibrada, sofisticados sociólogos
policiais, niilistas caretas do centro da cidade, fascistas batistas do sul,
militares socialistas, republicanos drug-free... a força motivadora é a
mesma: ressentimento.
Nas fuças do falso moralismo analgésico do mundo
contemporâneo, erigiremos uma galeria com os bustos de nossos
antepassados, heróis que mantiveram viva a luta contra a má consciência,
mas que também souberam se divertir: um genial banco de genes, uma
categoria rara e difícil de se definir, grandes mentes não apenas para a
Verdade, mas para a verdade do prazer, sérios mas não sóbrios, cuja
disposição ensolarada não os tornou indolentes, mas aguçados. Brilhantes,
mas não atormentados. Imagine um Nietzsche com uma boa digestão. Não
os epicuristas tépidos nem os sibaritas envaidecidos. Um tipo de hedonismo
espiritual, um verdadeiro Percurso do Prazer, a visão de uma vida que é boa
e ao mesmo tempo nobre e possível, enraizada na sensação da magnificente
superabundância da realidade.
Sheik Abu Sa'id
Charles Fouríer
BrílIat-Savarin
Rabelais
Abu Nuwas
Aga Khan III
R.Vaneigem
Oscar Wilde
Ornar Khayyam
Sir Richard Burton
Emma Goldman
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CITAÇÕES EXTRAS

PARA NÓS, ELE TEM indicado o trabalho de permanente
desemprego.
Afinal, se Ele quisesse que nós trabalhássemos,
Não teria criado esse vinho.
Com o estômago cheio disso, Doutor, Você se apressaria em embrenhar-se na economia?
Jalaloddin Rumi, Diwan-e Shams
Aqui, com um Pão debaixo dos Ramos, Um frasco de Vinho, Um Livro de Versos - e Vós A meu lado cantando no Deserto E o Deserto é o Paraíso para nós.
Ah, meu Amor, encha a taça que redime O hoje das Lágrimas passadas e futuros Temores - Amanhã? - Bem, Amanhã eu posso ser Eu mesmo com os Sete Mil Anos d e Outrora. Ah, Amor! Poderíamos conspirar com as Moiras Para agarrar inteiro este lamentáuel Esquema das Coisas, Não iríamos estilhaçá-lo em pedaços - e então Remoldá-lo mais próximo do Desejo do Coração?!
Omar Fitz Gerald
História, materialismo, monismo, positivismo e todos os "ismos"
desse mundo são ferramentas velhas e enferrujadas que já não preciso ou
com as quais eu não me preocupo mais. Meu princípio é a vida, meu Fim é a
morte. Gostaria de viver minha vida intensamente para poder abraçar minha
morte tragicamente.
Você está esperando pela revolução? A minha começou muito
tempo atrás! Quando você estará preparado? (Meu Deus, que espera sem
fim!) Não me importo em acompanhá-lo por um tempo. Mas quando você
parar, eu prosseguirei em meu caminho insano e triunfal em direção à
grande e sublime conquista do nada!
Qualquer sociedade que você construir terá seus limites. E para
além dos limites de qualquer sociedade os desregrados e heróicos
vagabundos vagarão, com seus pensamentos selvagens e virgens - aqueles
que não podem viver sem constantemente planejar novas e terríveis
rebeliões!
Quero estar entre eles!
E atrás de mim, como à minha frente, estarão aqueles dizendo a
seus companheiros: "Voltem-se a si mesmos em vez de aos seus deuses ou ídolos. Descubra o que existe em vocês; traga-o à luz; mostrem-se!"
Porque toda pessoa que, procurando por sua própria
interioridade, descobre o que estava misteriosamente escondido dentro de si, é uma sombra eclipsando qualquer forma de sociedade que possa existir sob
o sol!
Todas as sociedades tremem quando a desdenhosa aristocracia
dos vagabundos, dos inacessíveis, dos únicos, dos que governam sobre o
ideal, e dos conquistadores do nada, avança resolutamente.
Iconoclastas, avante!
"O céu em pressentimento já torna-se escuro e silencioso!"
Renzo Novatore Arcola, janeiro de 1920

DECLARAÇÃO PIRATA Capitão Bellamy

DANIEL DEFOE, escrevendo sob o pseudônimo de capitão
Charles Johnson, escreveu o que se tornou o primeiro texto histórico sobre
os piratas, A General History of the Robberies and Murders of the Most Notorious Pirates (Uma História Geral dos Roubos e Assassinatos dos Mais
Notórios Piratas). De acordo com Jolly Roger (a bandeira pirata), de Patrick
Pringie, o recrutamento de piratas era mais efetivo entre os desempregados,
fugitivos e criminosos desterrados. O alto-mar contribuiu para um
instantâneo nivelamento das desigualdades de classe. Defoe relata que um
pirata chamado capitão Bellamy fez este discurso para o capitão de um
navio mercante que ele tomou como refém. O capitão tinha acabado de
recusar um convite para se juntar aos piratas:
Sinto muito que eles não vão deixar você ter sua chalupa de
volta, pois eu desaprovo fazer mesquinharia com qualquer um, quando não é
para minha vantagem. Dane-se a chalupa, nós vamos naufragá-la e ela
poderia ser de uso para você. Embora você seja um cachorrinho servil, e
assim são todos aqueles que se submetem a ser governados por leis que os
homens ricos fazem para sua própria segurança; pois os covardes não têm
coragem nem para defender eles mesmos o que conseguiram por vilania;
mas danem-se todos vocês: danem-se eles, um monte de patifes astutos e
vocês, que os servem, um bando de corações de galinha cabeças ocas. Eles
nos difamam, os canalhas, quando há apenas esta diferença: eles roubam os
pobres sob a cobertura da lei, sem dúvida, e nós roubamos os ricos sob a
proteção de nossa própria coragem.
Não é melhor tornar-se então um de nós, em vez de rastejar atrás
desses vilões por emprego?
Quando o capitão replicou que a sua consciência não o deixaria
romper com as regras de Deus e dos homens, o pirata Bellamy continuou:
Você é um patife de consciência diabólica, eu sou um príncipe
livre e tenho autoridade suficiente para levantar guerra contra o mundo todo,
como quem tem uma centena de navios no mar e um exército de 100 mil
homens no campo; e isto a minha consciência me diz: não há conversa com
tais cães chorões, que deixam os superiores chutá-los pelo convés a seu bel
prazer.

O JANTAR

NA ORDEM SOCIAL de hoje, o mais elevado tipo de sociedade
humana está nas salas de estar. Nas elegantes e refinadas reuniões das
classes aristocráticas não há nenhuma das impertinentes interferências da
legislação. A individualidade de cada um é totalmente admitida. O
intercurso, portanto, é perfeitamente livre. A conversação é contínua,
brilhante e variada. Grupos são formados por atração. E são continuamente
rompidos e reformados através da ação da mesma energia sutil e
onipresente. A deferência mútua permeia todas as classes, e a mais perfeita
harmonia jamais alcançada, nas complexas relações humanas, prevalece
precisamente sob aquelas circunstâncias que os legisladores e homens de
Estado temem como condições de inevitável anarquia e confusão. Se
existem quaisquer leis de etiqueta, elas são meras sugestões de princípios,
admitidos e julgados por cada pessoa, pela mente de cada indivíduo.
Seria concebível que em todo o futuro progresso da humanidade,
com todos os inúmeros elementos de desenvolvimento que a época presente
vem desdobrando, a sociedade em geral, e em todas as suas relações, não
atingirá um grau de perfeição tão alto como certos segmentos da sociedade,
em certas relações especiais, já atingiu?
Suponha que o intercurso da sala de estar seja regulado por uma
legislação específica. Que o tempo permitido para cada cavalheiro dirigir-se
a cada dama seja fixado por lei; que as posições que eles possam sentar ou
ficar de pé sejam precisamente reguladas; que os assuntos sobre os quais
eles tenham permissão de discorrer, e o tom de voz e os gestos que cada um
possa fazer, sejam cuidadosamente definidos, tudo sob o pretexto de evitar a
desordem e a violação dos privilégios e direitos uns dos outros. Poder-se-ia
conceber algo melhor calculado e mais certo de converter todo intercurso
social numa escravidão intolerável e numa confusão sem esperança?
S. Pearl Andrews A Ciência da Sociedade

2 comments:

Blurvs said...

AI, AI, AI, AI, AI!
O que a Gramática Gerativa Transformacional tem a ver com a posição política de Chomsky???
O problema é quando alguns "intchindidos" tentam versar sobre assuntos que não conhecem! Para começo de conversa, qualquer um que conhece um pouquinho sobre pesquisa sabe que as teorias NÃO SE COMPLEMENTAM, E SIM SE ROMPEM! Mas a questão aqui é outra: Os já citados "intchindidos" estão "cegos" - viva Saramago! - pela núvem bolorenta do Marxismo/Anarquismo e não conseguem ver muito além - senhoras e senhores, sinto informar que Bakhtin, Vigotsky, Bakunin e etc já tentaram... e fracassaram. Salvar a linguagem? Supostas regras sobre Deus, dados e universo? AI, AI, AI. Pra terminar, todo mundo que trabalha com pesquisa sabe que teorias DEVEM ter embasamento - exemplos, contra-exemplos, metodologia - e que ninguém com suas faculdades mentais em dia vai defender aquilo que não consegue provar. Acreditar e gostar da teoria já é outra coisa... Se fosse assim, o fato de um remédio ser amargo faria com que ele não fosse eficaz, já que não é agradável ao paladar...
Como diria Goethe, não é porque os homens falam que eles têm o direito de saírem falando bobagens sobre a língua por aí...
E tenho dito

Blurvs said...

NO "intelectuais de café", YES lingüística!